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Nos relacionamentos, nosso papel é afastar o outro

Amar é oferecer espaço e apoio para o crescimento

Julia Moa · 2025-02-16 21:24 · 0 claps · 2.6 min read
#relacionamentos #rumi #amor-proprio #amor
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Nos relacionamentos, nosso papel é afastar o outro

Amar é oferecer espaço e apoio para o crescimento

O trabalho artístico da mineira Lygia Clark: em 1968, ela criou o objeto sensorial Óculos, que pode ser experimentado individualmente ou por duas pessoas posicionadas frente a frente. Lygia não apenas estimula o ato físico de olhar, mas igualmente evidencia que a visão nunca é única — ela pode se fragmentar ou se multiplicar.

O trabalho artístico da mineira Lygia Clark: em 1968, ela criou o objeto sensorial Óculos, que pode ser experimentado individualmente ou por duas pessoas posicionadas frente a frente. Lygia não apenas estimula o ato físico de olhar, mas igualmente evidencia que a visão nunca é única — ela pode se fragmentar ou se multiplicar.

O poeta sufi Rumi escreveu: “se você quer o pássaro, deve libertá-lo”.

Essa sabedoria, embora pareça simples de compreender, é desafiadora de sentir e ainda mais de colocar em prática. Autores e psicólogos que estudam relacionamentos amorosos, uma área essencial da vida humana, afirmam que boas parcerias envolvem afastamento, e não a fusão com o ente querido. Repare: uma boa mãe incentiva o filho a explorar o mundo ao seu redor, oferecendo uma base segura e amorosa para quando ele retorna de suas descobertas. Se, em vez disso, o mantém preso à barra de sua saia, superprotegendo ou ignorando suas necessidades, ele pode ter dificuldades para se tornar um indivíduo inteiro, confiante e feliz, e até desenvolver atrofias emocionais, como ocorre em alguns casos de transtornos de personalidade.

Nos primeiros três anos de vida, a mãe tem um papel fundamental no desenvolvimento psicológico da criança — é nesse período que se molda o estilo de apego, entre outros aspectos da saúde mental. A ala materna carrega a responsabilidade de proporcionar um ambiente que favoreça esse crescimento saudável.

Você pode pensar: “ah, mais um fardo para as mulheres.” Entretanto, pesquisas mostram que, apesar de o pai ter um papel importante no desenvolvimento emocional da criança — geralmente entre os 4/5 aos 9 anos — , se a mãe for solo e conseguir criar um ambiente seguro, amoroso, atencioso, lúdico e respeitoso, incentivando a autonomia do filho, as chances de formar um indivíduo psicologicamente saudável são altas, independentemente da presença paterna.

Então, os pais são significativos na formação dos filhos? Sim. Contudo, se não estiverem presentes e a mãe, junto a uma rede de apoio, der conta do recado, a vida segue seu curso. Já a ausência de uma mãe suficientemente boa pode gerar consequências de diferentes proporções no desenvolvimento da criança.

Os acontecimentos na primeira infância, somados às normas sociais, religiosas e culturais vigentes em cada território — no nosso caso, as sociedades latino-americanas, ainda muito machistas e onde a esfera familiar exerce grande influência nas decisões de inúmeros brasileiros — , fazem com que muitas pessoas prefiram permanecer em relacionamentos disfuncionais, vistos como vínculos difíceis e sacrificiais, a estarem sozinhas e fortalecidas como indivíduos.

Para o professor de psicologia Sam Vaknin, “todos os nossos relacionamentos são recriações da interação materna primordial”.

A culpa é das mães? Não. No entanto, o papel que exercem é romantizado e pouco esclarecido para a maioria. Na fase adulta, cada um deve assumir a responsabilidade de tornar-se um ser inteiro e fortalecido, construindo espaços amorosos e saudáveis dentro de si. Esse processo demanda tempo e exige um mergulho profundo na própria existência.

O movimento romântico do século XIX, cujas marcas até hoje ressoam, baseava-se na lógica transacional (trocas entre os pares) e na ideia de anulação mútua como uma espécie de amor. Eu me apago para renascer por meio da agência da pessoa amada, uma simbiose dependente e, muitas vezes, sufocante.

Nos relacionamentos, nosso papel é afastar o outro amorosamente. Ao fazer isso, estabelecemos limites que permitem tanto a separação quanto a autorrealização. Oferecemos ao outro o impulso para novas experiências (não estou falando de relacionamento aberto ou infidelidade), incentivando seu desenvolvimento, enquanto também nos disponibilizamos a enriquecer nossas próprias vidas.

Não se trata de sugar o parceiro para dentro de nós, mas de encorajá-lo a navegar nas correntezas da própria existência. Quem sabe, ao se lançar no mundo — com e sem a gente — , ele retorne mais evoluído e sábio, disposto a compartilhar seus aprendizados. As vivências individuais podem fortalecer um casal que caminha rumo ao amadurecimento e apoio mútuo.

Afinal, não há nada mais íntimo do que acessar a experiência de outra pessoa; inclusive no sexo, que é sagrado.


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