[FIQ-BH 2024] Homenagens póstumas
Assim como aconteceu na edição de 2022, neste ano de 2024 eu também fui co-curador (novamente junto da minha parceira Amma e sob a…
[FIQ-BH 2024] Homenagens póstumas

Este ano, toda a identidade visual do Festival (LINDA!) foi desenvolvida pela Ing Lee.
Assim como aconteceu na edição de 2022, neste ano de 2024 eu também fui co-curador (novamente junto da minha parceira Amma e sob a coordenação do maior coração do mundo, o Gabriel “Gabe” Nascimento) do Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, o 12º FIQ-BH. Dessa vez me coube escrever o discurso de homenagem aos artistas falecidos entre a edição de 2022 e 2024, além do texto em louvação aos homenageados da edição, Ana Luiza Koehler e Alves. Infelizmente, esse segundo texto, em homenagem aos vivos, eu perdi. Não tenho como publicar aqui. Desculpem Alves e Ana. Mas, o que tenho tá aqui, que nem fiz na edição passada (aqui e aqui). E esta é toda a contextualização que o discurso a seguir precisa, porque nele mesmo está contida uma muito melhor do que essa.
O Festival Internacional de Quadrinhos, esse evento que abraçou e foi abraçado pela cena brasileira de histórias em quadrinhos a ponto de se tornar o maior evento latino-americano do gênero, tem algumas tradições. Algumas delas são bem sabidas, outras intuídas, quase nenhuma desconhecida. Tem algumas que as pessoas até percebem, mas em geral não se dão conta das intenções envolvidas.
É o caso, por exemplo, da busca ativa por um FIQ sempre e cada vez mais diverso. Tal qual a cena de quadrinhos ao nosso redor, busca-se sempre que o Festival seja capaz de representar a multiplicidade da experiência humana, essa diversidade dizendo respeito à raças, gêneros, orientações sexuais, origens geográficas.
Outra tradição diz respeito à escolha dos homenageados do Festival: além de serem sempre autores e autoras de expressão, de relevância artística e cultural, é importante também que estejam vivos ou vivas no momento da homenagem. Uma exceção recente a essa tradição foi o baiano Antônio Cedraz, homenageado pela edição de 2015 do FIQ. Infelizmente, o autor nos deixou ainda em 2014, quando já havia sido comunicado da escolha do evento mas, outra vez infelizmente, sem poder estar fisicamente presente na festa.
A última das tradições que quero abordar é também o centro deste discurso: a cada edição, o Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte dá aos seus espaços o nome das artistas e dos artistas que, entre uma edição e outra, faleceram.
Com toda certeza, essa é a tradição mais inglória, que tem se tornado mais e mais a cada ano que passa. A última vez que nos encontramos, recém saídos de uma pandemia de proporções globais, tínhamos perdido artistas incríveis, gente que amava esse Festival e a arte que ele representa. Passados os tempos sombrios da COVID-19, esta edição de 2024 tinha tudo para ser mais leve, com menos partes de nós ficando pelo caminho.
Naturalmente, era uma esperança infantil: o tempo não para, nem pode parar.
Há menos de um mês, perdemos um dos maiores artistas visuais da história recente do Brasil, o mineiro Ziraldo Alves Pinto. Com uma carreira ampla e longeva, Ziraldo nos legou obras incríveis — entre elas o inesquecível Menino Maluquinho, nascido em um livro infantil, mas que espalhou vitalidade em histórias em quadrinhos, longa-metragem, desenho animado… virou um ícone: depois dele, uma panela na cabeça nunca mais foi só uma panela na cabeça.
Arte de Ziraldo
No FIQ-BH 2024, este espaço em que estamos [o auditório principal] recebe o nome desse imortal autor. Na panela por ele ressignificada, discutiremos os mais diversos temas.
Semelhante ao mineiro de Caratinga, outro longevo autor, criador de uma obra vastíssima, também nos deixou recentemente — falo do paulista Rubens Francisco Lucchetti, o R. F. Lucchetti. Diferente do criador dos Zeróis, Lucchetti foi uma figura menos presente no imaginário popular. Quer dizer, pelo menos nominalmente: tendo escrito e publicado mais de 1500 livros durante sua carreira, sem contar o cinema e as centenas de histórias em quadrinhos, Lucchetti marcou dezenas de milhares de leitores Brasil afora — mesmo sendo um autor absurdamente discreto e pouco afeito aos holofotes.

O tão prolífico quanto desconhecido R. F. Lucchetti, a “máquina de escrever” (crédito da imagem, portal Revide)
Em outro front, a charge jornalística brasileira perdeu alguns de seus maiorais, como o versátil Paulo Caruso e seu olhar ligeiro ao país pós redemocratização; e Ykenga **[Mattos] **cuja obra, produzida a partir das vivências das populações negras e pobres continuamente marginalizadas, não raras vezes tirou o sossego de muito leitor casual dos jornais cariocas.

Paulo Caruso, em desenho dele mesmo
Ykenga, autorretrato
Roberto Negreiros, o ilustrador, design, quadrinista e chargista também conta entre aqueles que nos deixaram muito antes do que gostaríamos. Tendo me marcado profundamente ainda na adolescência, é difícil pensar no mundo em que seu traço elegante e sofisticado não mais produzirá nada de novo. Infelizmente, este é o nosso mundo.

Negreiros, por Negreiros.
Se figuras como Ziraldo, Paulo Caruso e Lucchetti são quase onipresentes na vida de gerações, recentemente também perdemos talentos jovens, ainda com promissoras carreiras pela frente, como a belorizontina Carol de Andrade, a ferina Carol Cospe Fogo ou o pernambucano Lobo Borges. Até onde a arte poderia tê-los levado? Que obras primas poderiam ter produzido se não fosse a visita indesejada do fim? Nunca saberemos.

Carol por Carol
(infelizmente, do Lobo Borges eu não achei um autorretrato…)
Algo similar acontece neste momento. Enquanto escrevo este discurso, 161 pessoas faleceram, até o momento, da tragédia que se abateu sobre o Rio Grande do Sul. Destes mortos, quantos poderiam ter-se tornado grandes quadrinistas?
Se nas situações de guerra fala-se em monumentos aos soldados sem nome falecidos no campo de batalha, talvez devamos fazer algo similar. Lamentar a perda dos quadrinistas desconhecidos, vitimados pelo desastre que, com mais ou menos intensidade, afetou a todos nós.

Arte de Joe Kubert para a 1ª edição de O Soldado Desconhecido (Unknown Soldier) no Brasil (1980)
Este 12º FIQ é também em nome delas: ainda que não saibamos de fato os seus nomes.
Bem, isso que você acabou de ler foi o discurso que proferi. Abaixo, reproduzo as mini biografias que escrevi de cada um desses homenageados, e que foram reproduzidas em telões instalados em cada um dos referidos espaços:

- Ziraldo (Auditório)
Ziraldo Alves Pinto (1932–2024), mineiro de Caratinga, emigrou para o Rio de Janeiro no final da década de 1940 com o sonho de ser autor de quadrinhos. O sonho teve de ser adiado porque aquela profissão nem existia, o que fez com que ele fosse trabalhar com arte gráfica no nascente mercado publicitário brasileiro. Depois de anos no ramo, migrou para o jornalismo, trabalhando em jornais como a Folha de Minas Gerais e O Pasquim, bem como em revistas como a Cigarra e O Cruzeiro. No início dos anos 1980, lançou uma de suas principais obras, o livro infantil “O Menino Maluquinho”. O personagem migrou para os quadrinhos, fazendo grande sucesso. Criou outros personagens inesquecíveis, como Turma do Pererê; Jeremias, o bom; The Supermãe e vários outros.

- Roberto Negreiros (Sala de Oficina)
Roberto Negreiros Faria Júnior (1955–2023) foi publicitário, chargista, ilustrador e quadrinista paulistano. Dotado de um estilo característico, filiado à melhor tradição das tiras de jornais, colaborou para diversos veículos, como Ele & Ela, Klik, Níquel Náusea, ou as revistas VIP, piauí, Veja e Playboy. No mercado literário, ilustrou obras como “O livro de haicais” de Mário Quintana; “O diário (nem sempre) secreto de Pedro”, de Telma Guimarães Castro Andrade; e algumas edições da série “Para gostar de ler”, da editora Ática. Lançou os livros “Com a palavra os ilustradores” e “As alegres comadres do Negreiros”, entre outros.

- Ykenga (Sala de Oficina)
Bonifácio Rodrigues de Mattos, conhecido como Ykenga (1952–2024), foi sociólogo, desenhista técnico e cartunista. Nascido no Rio de Janeiro, abandonou a profissão como desenhista técnico para publicar seus cartuns nas publicações sindicais dos anos 1970. Ao mesmo tempo, começou sua trajetória por diversos jornais sediados na capital fluminense: O Pasquim, O Dia, Última Hora, Jornal dos Sports, dentre outros. Retratou a vida nas favelas cariocas na série de tiras satíricas “Casa grande & sem sala”, tendo publicado também os álbuns “Humor a la carte” e “A história do samba contada em quadrinhos”, este em parceria com Haroldo Costa. Foi militante do Movimento Negro.

- Paulo Caruso (Mesas dos Artistas)
Paulo José Hespanha Caruso (1949–2023), foi um cartunista e chargista, sobretudo de política, paulistano. Começou sua carreira editorial produzindo charges, cartuns e caricaturas para o Diário Popular nos anos 1960. Depois passou por outras editorias, como da Folha de S. Paulo, Movimento e Folha da Tarde. Durante os anos 1970, trabalhou no mítico O Pasquim, além das revistas Veja, Senhor, Careta e Isto É, esta última a casa editorial de sua longeva série política “Avenida Brasil”. Também colaborou com as revistas de humor gráfico Chiclete com Banana e Geraldão.

- Lobo Borges (Mesas dos artistas)
Natural de Recife, PE, Lobo Borges (1987–2023) foi quadrinista e designer, além de físico de formação. De estilo fortemente influenciado pelos mangás shonen, fez sua estreia na publicação mensal Ledd, em parceria com J.M. Trevisan, parte do universo ficcional de Tormenta. Teve uma carreira curta nos quadrinhos, apesar de promissora.

- Carol Cospe Fogo (praça de autógrafos)
Carolina de Andrade (1983–2023), a Carol Cospe Fogo, foi uma cartunista e publicitária de Belo Horizonte. Tendo iniciado sua carreira em 2016, rapidamente conquistou o feito de ser a primeira mulher a receber o prêmio Ângelo Agostini de melhor cartunista apenas três anos depois, em 2019. A assertividade de suas charges fizeram com que deixasse de assinar como “Carol Andrade” e assumisse o rótulo de “cospe fogo”, como ficou conhecida. Em sua curta, mas marcante carreira nos quadrinhos, publicou na revista Zica e nas redes sociais, onde seu trabalho se popularizou.

- R. F. Lucchetti (Praça externa)
Rubens Francisco Lucchetti (1930–2024), paulista de Santa Rita do Passa Quatro, foi um dos mais prolíficos autores de romances populares e quadrinhos do Brasil. Iniciou sua trajetória profissional no início dos anos 1950 na revista pulp “X-9”, da editora RGE, publicando contos policiais e aventuras fantásticas. Na década seguinte, começou a se interessar pelas histórias em quadrinhos ao se apaixonar pelos desenhos de Nico Rosso na revista “Seleções de Terror”. Achava as tramas em sua maioria monótonas e pueris, destoantes do requinte gráfico do desenhista. Com isso, passou a cultivar o gosto pelas histórias em quadrinhos, que passaram a compor seu cardápio como ficcionista. Ao todo, publicou mais de 1.500 livros (diversos deles sob heterônimos), mais de 200 histórias em quadrinhos, tendo entre seus parceiros Nico Rosso, Flávio Colin, Julio Shimamoto; mais de duas dezenas de roteiros de cinema para o lendário José Mojica Marins e Ivan Cardoso.
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