MEDITAÇÃO XIX. O MISTÉRIO DA CEIA DO SENHOR.
O Mistério do Santo Sacramento
MEDITAÇÃO XIX. O MISTÉRIO DA CEIA DO SENHOR.
Ficar maravilhado diante dele, e não bisbilhotar, é a sabedoria mais verdadeira.

Na Santa Ceia de nosso Senhor, temos um mistério colocado diante de nós que deve causar o mais profundo temor e excitar nossa mais profunda adoração. Ali está o tesouro e o depósito da graça de Deus. Sabemos (Gn 2,9) que a árvore da vida foi plantada por Deus no Paraíso, para que seu fruto preservasse nossos primeiros pais e sua posteridade na bem-aventurança da imortalidade que Ele lhes concedeu em sua criação. A árvore do conhecimento do bem e do mal também foi colocada no Paraíso; mas aquilo que Deus lhes deu para sua salvação e vida eterna, e para servir como um teste de sua obediência, tornou-se a ocasião de sua morte e condenação eterna, quando miseravelmente cederam às tentações de Satanás e seguiram seus próprios desejos pecaminosos. Assim, nesta Santa Ceia, temos a verdadeira árvore da vida novamente colocada diante de nós, aquela árvore doce (Ez 47,12), cujas folhas são para remédio e cujo fruto é para salvação; Sim, sua doçura é tal que destrói a amargura de todas as aflições, e até mesmo da própria morte. Os israelitas foram alimentados com maná no deserto como se fossem pão do céu (Êx 16,15); nesta Santa Ceia temos o verdadeiro maná que desceu do céu para dar vida ao mundo; eis o pão do céu, o alimento dos anjos, do qual, se alguém comer, nunca mais terá fome (Jo 6,35,51).
Os filhos de Israel tinham a arca da aliança e o propiciatório, onde podiam ouvir o Senhor falando com eles face a face (Êx 25:21, 22); mas aqui temos a verdadeira arca da aliança, o santíssimo corpo de Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Cl 2:3); aqui temos o verdadeiro propiciatório no precioso sangue de Cristo (Rm 3:25), por meio do qual Deus nos fez aceitos no Amado (Ef 1:6). Cristo não fala simplesmente a palavra de conforto às nossas almas; Ele também faz morada em nós; Ele alimenta nossas almas não com o maná celestial, mas, o que é muito melhor, com Seu próprio ser abençoado. Aqui está a verdadeira porta do céu para as nossas almas, e a escada que vai da terra ao céu pela qual os anjos de Deus sobem e descem (Gn 28:12); pois não é Aquele que está nos céus maior do que os céus? Pode o céu estar tão próximo de Deus quanto a carne e a natureza humana que Ele assumiu na encarnação? O céu é, de fato, a morada de Deus (Is 66,1), e, no entanto, o Espírito Santo repousa sobre a natureza humana assumida por Cristo (Is 11,2). Deus está no céu, e, no entanto, em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da Divindade (Cl 2,9). Verdadeiramente, esta é uma grande e infalível garantia da nossa salvação; Ele não poderia ter nos dado algo maior, pois o que é maior do que Ele mesmo? O que pode estar mais intimamente unido ao Senhor do que Sua própria natureza humana, que Ele assumiu, em Sua encarnação, em comunhão com a adorável Trindade, e assim tornou o tesouro de todas as bênçãos que o céu tem para conceder? O que está tão intimamente unido a Ele quanto Seu próprio corpo e sangue? Com este alimento verdadeiramente celestial, Ele refresca nossas almas, que são como miseráveis vermes do pó diante dEle, e nos torna participantes de Sua própria natureza; por que, então, não desfrutaremos de Seu gracioso favor? Quem jamais odiou a sua própria carne (Ef 5.29)? Como, então, pode o Senhor odiar-nos, a quem Ele dá o Seu corpo para comer e o Seu sangue para beber? Como pode Ele se esquecer daqueles a quem deu o Seu próprio corpo como penhor? Como pode Satanás obter a vitória sobre nós quando somos fortalecidos e preparados para os nossos conflitos espirituais com este pão do céu?
Cristo nos estima porque nos comprou por um preço tão alto; Ele nos estima porque alimenta nossas almas com alimento tão caro e precioso; Ele nos estima porque somos membros de Seu corpo, de Sua carne (Ef 5.30). Este é o único remédio soberano para todas as doenças de nossas almas; aqui está o único remédio eficaz para a mortalidade; pois que pecado é tão hediondo que a carne sagrada de Deus não possa expiá-lo? Que pecado é tão grande que não possa ser curado pela carne vivificante de Cristo? Que pecado tão mortal em seus efeitos que não possa ser expiado pela morte do Filho de Deus? Que dardos do diabo tão inflamados que não possam ser apagados nesta fonte da graça divina? Que consciência é tão manchada pelo pecado que não possa ser purificada pelo sangue de Jesus? O Senhor viajou com os israelitas da antiguidade em uma coluna de nuvem e fogo (Êx 13.21); mas aqui temos presente conosco não uma nuvem, mas o próprio Sol da Justiça (Ml 4,2), a bendita Luz de nossas almas. Aqui, somos sensíveis não ao fogo da ira divina, mas à chama ardente do amor divino, que não se afasta de nós, mas vem e faz morada em nós (Jo 14,23). Nossos primeiros pais foram colocados no Paraíso, aquele jardim mais encantador e delicioso, o tipo da eterna bem-aventurança do paraíso celestial, para que, lembrando-se da bondade de Deus para com eles, pudessem prestar a devida obediência ao seu Criador. Mas eis que nesta santa ceia, mais do que um paraíso; pois aqui a alma da criatura é espiritualmente alimentada com a carne de seu Criador todo-poderoso. A consciência é purificada de todas as suas manchas de culpa no sangue do Filho de Deus. Os membros de Cristo, sua cabeça espiritual, são nutridos com Seu próprio corpo; a alma crente se banqueteia em um banquete divino e celestial. A carne santa de Deus, que as hostes angélicas adoram na unidade da natureza divina, diante da qual os arcanjos se curvam em humilde reverência e diante da qual os principados e potestades celestes tremem e se maravilham, tornou-se o alimento espiritual de nossas almas. Alegrem-se os céus e regozije-se a terra (Sl 16,11), mas ainda mais exulte e cante de alegria a alma crente, a quem Deus concede tão indizível dádiva!
— JOHANN GERHARD’S SACRED MEDITATIONS. Translated from the Latin BY REV. C. W. HEISLER, A. M. Pág 81
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