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O Brasil: Que Reconhece o Brasil em Seu Semelhante

“Onde a gente se lembra do que nunca soube…”(G. Rosa)

Larissa Pereira Gouveia · 2018-05-29 23:46 · 9 claps · 4.7 min read
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O Brasil: Que Reconhece o Brasil em Seu Semelhante

Onde a gente se lembra do que nunca soube…”(G. Rosa)

Por: Larissa Gouveia

Edu Lobo, Dori Caymmi e Marcos Valle: ou “Estas fontes murmurantes”/ Onde nós matamos nossa sede de beleza…

Depois de anos de amizade, os amigos-parceiros se reencontram numa união inédita em disco. Mais do que isso! Deixam, no abraçaço que se dão, o rastro do perfume de nossa essência brasileira— parafraseando o belo poema de Dulce María Loynaz: nós, que passamos em volta e sentimos o perfume, cremos que eles têm a rosa dentro. Um dia, “era uma vez”, formaram um trio de moços à espera do próprio futuro; hoje, são senhoras-sumidades que nos devolvem a esperança de, um dia, merecê-los num futuro de nossa Arte.

Edu, Dori e Marcos: é o Brasil que faria Tom ir ao piano, como ele fazia quando verdadeiramente se interessava pela obra musical de alguém. Tal e qual, tantas vezes, ele se debruçou literalmente nas notas só deles — no quando testemunhou esses, então jovens meninos, crescerem em porte e talento. Nunca houve um rito de ‘passagem de bastão’; mas, nós que aqui ficamos, sabemos que esses três seguem (alinhados) ao legado do que melhor foi feito na música brasileira.

E não é todo dia que sequer precisamos invocar as entidades do nosso progresso, elas se materializam juntas e capazes de nos restituir o sonho perdido nas ‘catástrofes nossas de cada dia’.

Eu acho que sinto a benção de Jobim em cada compasso desse encontro — porque ele era eles! E tenho certeza que, aqui quedados no tempo da indelicadeza, ao ouvi-los nós matamos a saudade do Brasil. Aquela saudade do futuro (não consumado), de que fala a agitação de Guimarães Rosa em: “(Saudade) de minha gente dispersa, que talvez ainda hoje espere por mim (…) Saudade gloriosa do futuro (…)”.

Aviso aos (futuros) navegantes desse disco: não tem sentido supor, muito menos cobrar “truetos” descabidos. Cantar em uníssono? Hoje eles lembram, rindo, já ter feito isso em apresentações televisivas (lá nos seus verdes anos). E, é fato, mesmo a opção por duetos acabaria por esvaziar a opção estilística que fizeram no álbum — me refiro à escolha de que cada um demonstrasse sua forma particular de se incorporar na criação do outro.

A mais inteligente interação, que Dori, Edu e Marcos poderiam ter escolhido fazer, foi imprimir o olhar de um na obra do outro. Inclusive duma forma que, embora reverente, deixa a marca pessoal de cada um deles nas respectivas composições que gravaram; profundas marcas — como quem, mais que partilhar o que viveu, entrega ao amigo o resultado de suas vivências individuais.

Há uma clara unidade! Embora, nenhum deles tenha aberto mão de suas próprias convicções estéticas. Eis, um encontro de amigos que nunca precisarão se perdoar por se trair — nem mutuamente, nem em termos de indivíduo.

Diante de uma obra artística, ampla em sentido mas limitada em espaço, existe uma opção viável e uma execução dela. Nesse ponto, os 3 foram felizes ao escolher o melhor caminho a ser pavimentado — o dos (re)arranjos — longe da obviedade de duetos, sem se deixarem perder pela estrada afora do passado percorrido.

Assim… Não imagino qual forma mais sólida de ser interativo do que: o deslumbrante arranjo que Dori fez pra ‘Passa Por Mim’, essa obra prima dos irmãos Valle! Aqui, mais que revisitada, situada em sua real grandeza harmônica — bem assentada no alto patamar dum realizador que jamais pensa pequeno. Além, é claro, da interpretação na voz de acento mestiço (entrelaçando o hereditário navio negreiro à primeira classe Dick Farneyana). Pairando entre a leveza da Bossa e a dolência da balada — naquele tipo de canção: “bem brasileira/ que ri e que chora” (como diria Tom, sobre também projetar a musa ideal na sua ‘Falando de Amor’).

Desconheço qual comunhão de mundos é mais deliciosa, se comparada a isto que Valle ousa fazer em Corrida de Jangada. Chegando a roçar um ritmo, mezzo salsa/ mezzo cumbia, na ancestral rítmica de Edu — puro modernismo arquitetônico! Aqui, a jangada-tupi rompe com a aldeia e parte pros rios cosmopolitas…

E se Valle parte pro futuro nesta jangada tinindo — inclusive convocando os amigos num improviso: “vambora, Dori; vambora, Edu”… Esse lírico Capitão Caymmi já recua o passo do ‘Bloco do Eu Sozinho’, pondo-o de volta na ingênua rua dos antigos carnavais — rancho da saudade, que creio até o moderno Marcos sentiu ao se deparar com essa recriação de sua composição. Ficou belo o cortejo do naipe de metais — contraponteando em suas texturas macias (eu diria: ‘Urbie Greenianos’)! Reparem que o vozeirão se aveluda, abrandado, indo atrás do suave ‘bloco metálico’. E as flautas dobram— soprando um cheiro de nostalgia no ar, relançado perfume!

Tudo isso feito num rigor para com as “cores” e “texturas”, como o bom discípulo do Gil Evans que Dori ainda é.

E se os passos, de cada um deles, dobra numa diferente esquina do tempo… Nem por isso a ‘arte do encontro’ deixa de se dar frontalmente. Qual aceno é mais recíproco? Do que esse de Dori, capitão das marinhas, ao desembarcar (já íntimo) no porto e Edu em ‘Dos Navegantes’. Mais uma vez, num arranjo acachapante!

Ou o que pode ser mais afim? Do que o Edu mergulhando ‘Na Ribeira deste Rio’; bebendo a ondulação do violão Dori Caymmico, para reflui-la para o piano — navegando, é preciso, pelos mares poéticos já dantes navegados por ele mesmo em (A Música em) Pessoa. Ora pois! Um dia, o Lobo também boiou seus “pensamentos de mágoa” num mesmo Tejo em que Dori se serenizou ribeiro.

Inclusive, indo além, aqui consigo notar um improvável elo rítmico entre as introduções de ‘Na Ribeira’ e a de ‘Na Ilha’ (essa última aparece ressurgida na concepção de Dori) — sim, um mundo tocando o mundo do outro: a recriação do universo musical! Ambos escreveram introduções Impressionistas: Dori emula a partida d’uma embarcação no som dum robusto cello, já Edu: simula o curso do rio num ‘gotejante’ piano (É verdade, o Lobo chamou Cristóvão para capitanear seus arranjos; mas assim como Tom o fez com Eumir, nos arranjos de médio conjunto, é nítido a sua marca pessoal nos caminhos percorridos pelo leme entregue a Bastos).

Por fim e não por esgotarem-se os exemplos: qual melhor diálogo do que Edu poder selar a antiga visita feita por Valle lá nas profundas sertanejas? Realçando em si mesmo o DNA de sua Nordestinidade! Como quando pronuncia “sertão”, lá em ‘Viola Enluarada’, e se situa, mão levada ao peito, no hino bélico-afetivo do Marcos. Meninos, eu ouvi! O mar (do carioca/ surfista) virou sertão (na voz do Lobo telúrico)!

Tudo isso acima é mais que interação, é ressignificação. Se não é o tipo de comunicação óbvia, que algumas pessoas esperam…Ainda assim será injustificável cobrar deles um encontro mais íntimo que tudo o que já citei acima.

Uma coisa segue intacta, mesmo quando deuses ainda são capazes de encarnar, na sua Arte, o nosso país prometido e negado… O BraZil deve merecer o Brasil de Edu, Dori e Marcos Valle. **(Cotação: ótimo ***)


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