O novo comando da juventude acadêmica: um olhar fora do campus
Após o período de pandemia e a negligência em relação à Educação, Cultura e Arte durante o governo anterior, os estudantes da Geração Z no…
O novo comando da juventude acadêmica: um olhar fora do campus
Após o período de pandemia e a negligência em relação à Educação, Cultura e Arte durante o governo anterior, os estudantes da Geração Z no ensino superior estão em busca de novas formas de assumir um papel de destaque em suas áreas de atuação perante a sociedade.
Por *Xaio Lopes e Grasieler Martins*

A geração z em frente a sociedade | Por Xaio Lopes e Grasieler Martins
Você quer atuar na área de comunicação social em sua comunidade. Então, vai buscar por qualificações e espaços em que possa desenvolver isso e então e ao descobrir que a universidade da sua região possui essa graduação, você ingressa. Ao entrar, tem expectativa de sair do campus com aptidão e conhecimento para o exterior da faculdade.
Esse tem sido o sonho de muitos jovens que buscam estudar e ingressar no mercado de trabalho com algo que lhe desperte interesse. Para a área Cultural, essa demanda por ingressar torna-se ainda mais desejada quando o estudante vislumbra a possibilidade de vivenciar um campus que preza por esse desejo. Na Universidade Federal do Ceará, o Instituto de Cultura e Arte (ICA), localizado no campus do bairro Pici em Fortaleza, seria o local ideal para essa meta.
O Instituto existe há 15 anos e abrange os cursos de Publicidade, Jornalismo, Música, Teatro, Cinema, Gastronomia e Filosofia. | Reprodução: Ribamar Neto.
Contudo, em consequência da pandemia de Covid-19 e a constante queda de verba para as universidades e institutos federais com a ascensão de conservadores no poder público, forçaram os estudantes a serem independentes e buscarem novas formas de protagonismo. E nesse caso, muitos tiveram que agir sem o apoio institucional.
A “nova” geração Z: uma sociedade apartada?
Helen Désireé, estudante do oitavo semestre de Cinema, ingressou na universidade antes do início da pandemia de Covid-19. Pouco tempo depois, teve de participar de aulas ministradas de forma remota durante seus dois anos iniciais.
Ele relata que, após esse período, os estudantes de sua turma chegaram em um semestre avançado e com novas demandas, mesmo não tendo apoio psicológico durante e após a pandemia. Esse desamparo fez com que fosse necessário que eles precisassem buscar novas formas de se profissionalizar.
E quando voltou, a gente voltou como se fosse o semestre inicial, né? O sexto semestre com título de primeiro. Ter trabalho como se fosse um semestre avançado; Ficou uma pressão muito grande. Mas é uma coisa que, tipo, a minha turma mesmo foi buscando mais a Rede Cuca.,
relata Helen ao ser questionado sobre sua experiência como universitário pós-pandemia de Covid-19.
Mesmo com o retorno ao presencial, os jovens ainda se sentem em salas vazias | Reprodução: Grasieler Martins.
Para além do impacto das telas, a chamada “nova” geração Z enfrenta também outro desafio significativo: a falta de representação estudantil e de espaços físicos adequados. A falta de locais de convívio, materiais para produções acadêmicas e recepção crítica por parte da gestão acadêmica são demandas que foram descartadas pela gestão do governo da época. E esse descarte decorrente da queda de verba, impacta os universitários até o presente momento.
Não é possível acessar ou prosperar em espaços, principalmente quando o envolvimento político não altera essa situação e, até mesmo, está sujeito a censura. A situação se agrava quando investimentos anteriores e nomeação de um reitor escolhido é decidido pela gestão federal, em vez de refletir a escolha da comunidade estudantil, dificultando o verdadeiro acesso aos resultados dessa atuação.
A influência de ideologias extremistas chegou a afetar espaços inicialmente neutros e diversificados, como a Rede Cuca, quando um ato de vandalismo, perpetrado pelo vereador de Fortaleza, Inspetor Alberto (PROS), resultou na remoção das placas de sinalização que comunicam a utilização dos banheiros por pessoas trans e não binárias.
Durante o governo passado a gente foi muito sucateado, muito sucateado, tanto em acesso quanto em poder utilizar daquilo para nossas produções. Então, não sei se talvez com o novo governo agora a gente tenha mais investimentos voltados para a educação, mas que a gente ainda está sofrendo os efeitos disso.
continuou Helen.
Novos protagonismos em um novo Instituto.
Porque parece um esforço muito alto. Então eu me sinto muito desmotivado nesse sentido dentro da universidade, né? De alcançar esses espaços. Portanto, enquanto uma pessoa trans e não binária, enquanto estudante de cinema, quero me sentir apto.
lamenta Helen durante a entrevista.
Helen Désireé está há duas semanas no Programa Futuros. | Reprodução: Grasieler Martins.
Atualmente, Helen faz parte do projeto Juv.Tv, da Rede Cuca, uma WebTV criada por jovens de Fortaleza, que oferece conteúdo audiovisual e oportunidades de formação. Com mais de 15 mil inscritos e mais de 2.000 vídeos, o canal é líder entre os equipamentos culturais da cidade, ampliando a voz e expressão da juventude local.
A grade surgiu a partir das ideias dos jovens selecionados pelo primeiro edital de monitores dos jovens publicadores. Eles sentiam falta de programação com uma temática que abordasse questões femininas. […], por isso que a gente desenvolveu o Girl Power. […] Assim como Minha Quebrada, a gente também tinha necessidade de entender sobre algumas instituições parceiras ou alguns projetos que aconteciam nas comunidades adjacentes do CUCA.
explica Nádila Doris para os graduandos do segundo semestre de jornalismo.
O projeto foi lançado em fevereiro de 2019, e mesmo durante a pandemia, continuou operando. O primeiro edital foi aberto durante esse período, permitindo que os participantes pudessem atuar e produzir remotamente através do celular. À medida que as restrições foram sendo aliviadas, a produção passou a ocorrer no estúdio da própria rede, com limitação de pessoas e sem abrir para o público externo.
Após o período remoto, a Juv.Tv, com apoio de bolsas como o programa Jovens Futuros, possibilitou aos jovens uma conexão com diferentes realidades, interligando mais ainda a juventude com os espaços de Fortaleza a partir do Instituto de Cultura, Arte, Ciência e Esporte (CUCA).
Os Centros Urbanos da rede surgiram graças ao apoio do Governo Federal em 2008 com o Programa Mais Cultura. O primogênito, chamado inicialmente de Cuca Che Guevara, ressignificou um espaço elitizado e trouxe para a juventude da Barra do Ceará e toda sua comunidade, acesso a equipamentos e serviços culturais.
Isso aí que fica claro, o Cuca é espaço de todes. Todas, todos, todes… Todo mundo. Inclusive esquerda, direita, é para todos, entendeu? Só tem que ser um lugar de respeito, mas é pra todo mundo conviver.
Manuela Bandeira, diretora de Esporte, Educação e Trabalho, fala durante a visitação dos estudantes do curso de jornalismo no CUCA do Pici.
Como uma pessoa trans não binária, Helen sente-se mais protagonista na rede Cuca. | Reprodução: Grasieler Martins.
Atualmente existem cinco Cucas e mais um em construção, todos estão estrategicamente localizados nas regiões periféricas de Fortaleza. Apesar de um bom investimento para que a juventude possa desenvolver-se em frente a sociedade pós pandêmica, os equipamentos parecem ter “prazo de validade” do protagonismo.
Os primeiros centros a serem construídos, por exemplo, estão com os materiais mais defasados enquanto os espaços inaugurados estão com novos equipamentos, influenciando no fluxo dos estudantes. Ainda assim, isso agrega ao Helen e demais jovens não só a interação com a comunidade presente, como ajuda a conhecer e impactar novas realidades.
Eu acho que agrega a gente conhecer uma realidade que é diferente, que por exemplo, ele é o mais antigo. Os equipamentos dele (Cuca Barra)já são um pouquinho defasados, né? O José Walter já é muito maior, uma infraestrutura melhor e eu sinto que agrega muito a gente conhecer outra realidade.
Os jovens da geração apartada, esperam que as próximas gerações que venham, possam tanto desfrutar do protagonismo externo, mas também internamente com apoio da Instituição Acadêmica. A realidade é que o único vencimento da sociedade está na voz de quem precisa de maior espaço: a juventude.
Estudantes de Jornalismo da UFC realizam a reportagem: A Geração Z em frente a sociedade. | Reprodução: Grasieler Martins.
메타데이터
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