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NEM TODO SANTO FAZ MILAGRE NO SÃO JOÃO

Casos de Petrúcio Amorim e Flávio José expõem, em meio às mudanças nas festas juninas, o apagamento gradual de artistas que ajudaram a…

OVA UFPE in OVA UFPE · 2026-07-01 21:05 · 0 claps · 4.2 min read
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NEM TODO SANTO FAZ MILAGRE NO SÃO JOÃO

Casos de Petrúcio Amorim e Flávio José expõem, em meio às mudanças nas festas juninas, o apagamento gradual de artistas que ajudaram a construí-las

Por: Madu Rodrigues

Tá vendo aquele edifício, moço? / Ajudei a levantar.”

“E pra aumentar o meu tédio / Eu nem posso olhar pro prédio / Que eu ajudei a fazer.”

Design por: Lívia Oliveira

Design por: Lívia Oliveira

Lançada em 1979, a canção Cidadão, composta por Lúcio Barbosa e eternizada na voz de Zé Ramalho, se transformou em um dos retratos da desigualdade brasileira. A música conta a história de um trabalhador que constrói prédios, escolas e casas, mas permanece excluído dos espaços que ajudou a erguer. Mais de quatro décadas depois, a metáfora continua atual. Não apenas para quem trabalha na construção civil, mas, também, para aqueles que ajudaram a construir a cultura popular brasileira.

No último dia 14 de junho, durante uma apresentação no Polo do Alto do Moura, em Caruaru-PE, o cantor e compositor Petrúcio Amorim fez um desabafo que repercutiu entre artistas, produtores culturais e admiradores do forró. Visivelmente emocionado, afirmou estar triste e declarou: “não era para eu estar aqui”. A fala partiu de um dos artistas mais importantes da música nordestina contemporânea, autor de Tareco e Mariola, Meu Cenário e Confidência — clássicos que ajudaram a consolidar a identidade sonora do São João pernambucano.

Esse desabafo surgiu quando o artista revelou que sua apresentação estava inicialmente prevista para um polo da zona rural do município e que precisou dialogar com a produção do evento para se apresentar no Alto do Moura, um dos espaços mais simbólicos da cultura popular caruaruense.

A mudança, no entanto, não se trata de um pedido de privilégio individual, mas do reconhecimento de um vínculo histórico com o local. Nascido em Caruaru e com décadas de contribuição para a construção da identidade musical da festa, Petrúcio já ocupou os principais palcos do evento ao longo da carreira, o que torna sua presença no Alto do Moura menos uma exceção e mais a reafirmação de uma trajetória profundamente ligada ao próprio espaço cultural da cidade.

Foto: Jorge Farias

Foto: Jorge Farias

O episódio não pode ser interpretado como um simples desabafo. Ele expõe uma sensação compartilhada por muitos artistas que dedicaram décadas à construção das festas juninas e hoje observam uma inversão de prioridades. Os mesmos nomes que ajudaram a transformar o São João em patrimônio cultural, atrativo turístico e marca identitária do Nordeste frequentemente ocupam posições secundárias em programações cada vez mais orientadas pela lógica do mercado.

Essa discussão também ganhou força poucos dias antes, quando Flávio José criticou publicamente a perda de espaço do forró tradicional nas festas juninas. Em meio ao impasse envolvendo a reavaliação de seus shows na Bahia e o reajuste de seu cachê, o cantor relacionou a situação às mudanças de prioridade na ocupação dos palcos e à forma como o gênero vem sendo tratado dentro da programação. Em nota publicada nas redes sociais, afirmou: “Às vésperas da maior festa de manifestação cultural do Nordeste, eu recebo a notícia de que o MP da Bahia resolveu diminuir o meu cachê! Enquanto outros artistas que nada têm a ver com forró, como sertanejos, ganham rios de dinheiro”.

O desfecho do caso veio em 3 de junho, quando ele anunciou o cancelamento de sua agenda na Bahia após a falta de acordo em torno do cachê, que havia passado de R$250 mil, em 2025, para R$350 mil, em 2026, e foi alvo de questionamentos pela gestão pública, que buscava reavaliar ou reduzir o valor.

Essa situação ultrapassou a dimensão contratual e expôs uma contradição mais ampla: enquanto nomes ligados ao forró tradicional enfrentam forte contestação e pressão por redução de cachês, atrações de outros gêneros musicais seguem recebendo valores que ultrapassam a marca de R$1 milhão durante o período junino.

Foto: Prefeitura de Campina Grande

Foto: Prefeitura de Campina Grande

O problema não é a presença de outros estilos musicais. O São João sempre dialogou com diferentes influências. O problema surge quando a exceção se torna regra e quando a identidade da festa passa a ser tratada como um detalhe decorativo. Em muitos casos, a sanfona, o triângulo e a zabumba aparecem apenas como elementos cenográficos de um evento cuja programação principal já não dialoga com a tradição que lhe deu origem.

Existe uma ironia difícil de ignorar. Nunca se falou tanto sobre patrimônio cultural. Nunca houve tantas campanhas institucionais exaltando a importância do São João para o Nordeste. Nunca se investiu tanto na promoção turística da festa. Ao mesmo tempo, artistas responsáveis por construir esse patrimônio precisam constantemente reivindicar reconhecimento.

A cultura popular brasileira parece viver uma relação de conveniência com o poder público e com o mercado. Quando é necessária para atrair turistas, movimentar a economia ou fortalecer uma marca territorial, ela é celebrada. Quando chega a hora de distribuir investimentos, definir protagonismos e construir programações, muitas vezes perde espaço para aquilo que oferece retorno mais imediato em números, visualizações e engajamento.

O São João de Caruaru e de tantas outras cidades não nasceu dos grandes escritórios de entretenimento. Ele foi construído por sanfoneiros, compositores, trios pé de serra, mestres da cultura popular, quadrilhas, artesãos e brincantes que mantiveram viva uma tradição mesmo quando ela não ocupava os holofotes nacionais. Foram esses artistas que transformaram a festa em referência cultural antes que ela se tornasse uma potência econômica.

Por isso, o desabafo de Petrúcio Amorim não fala apenas sobre Petrúcio. A crítica de Flávio José não fala apenas sobre Flávio. Ambas revelam um conflito maior: o risco de transformar a cultura em produto e esquecer as pessoas que a construíram.

“Hoje o homem criou asa / E na maioria das casas / Eu também não posso entrar.”

O verso final de Cidadão talvez nunca tenha dialogado tanto com a realidade de muitos artistas populares. Afinal, quem ajudou a construir a alma do São João não deveria precisar lutar para encontrar lugar dentro dele.


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