A ponta e o expediente
Se um indivíduo traga uma ponta generosa e vai trabalhar, ciente que duas horas depois quaisquer movimentos alheios começarão a lhe parecer…
A ponta e o expediente
Se um indivíduo traga uma ponta generosa e vai trabalhar, ciente que duas horas depois quaisquer movimentos alheios começarão a lhe parecer engraçados, bem, pode-se dizer que aquele dia será mais proveitoso para ele do que dias em que exerce o serviço sem o uso da substância. Imagine o seguinte: observador, o indivíduo que aqui chamaremos Marlon é servidor público numa escola estadual. Hoje especialmente é convidado a se retirar de sua habitual função na secretaria da instituição e deve substituir o inspetor de alunos que não compareceu. O homem nunca falta. E resolve se ausentar sem aviso prévio naquele dia em que Marlon por motivo nenhum fumou maconha antes do expediente ao qual está tão habituado. Suas semanas são compostas de cinco dias nos quais tudo sucede da mesma forma, de modo que quando nada muito excepcional ocorre nas dependências do prédio, não consegue diferenciar a terça da quinta, nem a segunda da quarta. Quando chega o sexto e sétimo dias, os únicos em que a vida de Marlon se envereda por caminhos minimamente distintos dos dias úteis, ele tem a sensação de que os cinco dias anteriores formam um borrão na memória, sem que seu cérebro se dê o trabalho de manter lembrança alguma. Neste dia, entretanto, ele está chapado com a missão de olhar alunos no pátio escada abaixo. Céus.
Ok. Não fumou muito. Foi apenas uma ponta cujo efeito está começando a dar as caras agora que recebe a notícia da mudança na função do dia de hoje. Leva quinze minutos de moto de sua casa até a escola. Geralmente, é este o tempo para que o THC se instale em sua mente, e como num passe de mágica o homem está rindo do próprio monólogo interno que se desenrola a partir de então. Sempre fuma uma vez por semana depois do expediente. Fuma por volta das 16:30, durante ou após o banho, e se regozija naquelas tantas horas que lhe restam do dia. Vida acomodada e confortável. Um tipo sossegado, para o qual mudanças bruscas tendem a incomodar. Não a ponto de tirar-lhe a paz, no entanto. Aceita a situação atípica (um “não” seria inesperado e ele não teria desculpa cabível) e, resignado, dirige-se às escadas rumo ao pátio. Tem em mente que o fato de ser reservado e de não se envolver tanto com os alunos o salvará do possível estranhamento por parte das crianças e adolescentes. Tentará se alertar, se é que é possível se alertar sendo quem é, Marlon, a própria distração num corpo de macho de Homo sapiens.
Quando dá por si, o dia já passou. Se lembra de ter tentado ao máximo acionar um botão interno que lhe permitisse uma visão em 360 graus, e, falhando miseravelmente, se conformado em prestar atenção em grupos específicos de alunos aqui e ali, um de cada vez. Logo a paranoia de estar sendo observado por algum moleque mais observador do que ele mesmo (sempre há alguém mais inteligente do que você) se esvaneceu, e lá estava Marlon transitando por pontos do pátio, forçando a carcaça de sua alma a mover-se, porque ficar parado por muito tempo num canto só poderia parecer suspeito. No fim, deve ter trocado de lugar mais vezes do que o usual, mas para seu alívio, ninguém pareceu notar nada. Além do mais, adolescentes estão mais preocupados com seus interesses pueris do que com o substituto do inspetor. É claro que teve o cuidado de aplicar gotas de colírio nos olhos antes de sair de casa. É claro que vestiu a combinação de roupas mais básica e comum possível. É claro que botou os óculos escuros que, junto das camisetas pretas de banda, constituíam sua marca registrada. Era o tipo de maconheiro que ainda não tinha chutado o balde. Não dependia da verdinha, mas dela gostava pra valer, e as pessoas mais próximas dele sabiam disso. Acontece que Marlon trabalhava numa escola, porra. Se ia mesmo fazer essa doideira inédita hoje, que o fizesse com cuidado.
Por vezes, durante os intervalos, focava o olhar em um ou outro adolescente em específico. Seguiu um grupo de garotos do 2º ano. O Gordão deu um tapa na bunda do Gustavinho, que emitiu um som exageradamente erótico mais alto do que o famigerado “gemidão do Zap”, se sobressaindo no meio do falatório incessante característico de um pátio escolar. Pensou que, cerca de quinze anos atrás, durante o seu ensino médio, cenas como esta seriam menos comuns. Teve a sensação, constante em suas brisas de maconha em casa, de que tudo estava em seu devido lugar. Adolescentes eram adolescentes. Ele, um homem normal, talvez excêntrico para quem olhasse de longe, e perfeitamente comum ao seu próprio julgamento, ali estava, sendo ele mesmo (sentia a fumaça saindo da cabeça enquanto conciliava a divagação com a atenção aos alunos). As pessoas estavam trabalhando noutros estabelecimentos da cidade. O coveiro poderia muito bem estar fumando um neste exato momento. Viu uma adolescente chorando e outra garota indo dar um ombro amigo. Agradeceu por não precisar se dar a este trabalho. Riu da própria inadequação. Nunca fora bom em consolar ninguém e nem mesmo queria sê-lo. Quando o sinal bateu, teve de chamar a atenção dos moleques que teimavam em ficar no banheiro ao invés de subir para as respectivas salas de aula. Não fora um esforço descomunal como antecipou. Na verdade, crê que foi bem sucedido, porque todo mundo de fato correu para cima.
O resto do dia passou sem muita ocorrência. Ao se dirigir para casa, não havia nem resquício da brisa. Durante o retorno, entre um semáforo vermelho e outro, pensou em repetir a façanha algum outro dia. O raio não cai duas vezes no mesmo lugar, portanto quando fizesse isso de novo, o inspetor estaria no pátio e Marlon na secretaria. Ele quer chegar em casa. Seu gênio tranquilo o fazia ansiar pela casa todos os dias neste horário em que saía do serviço, sabendo que teria mais algumas horas para fazer o que bem entendesse na própria companhia (além da janta, quando não tinha preguiça e pedia lanche). Mulheres faziam falta. Tinha quem procurar, mas ela não se encontrava. O mundo parecia enfadonho, mas de novo, não era exatamente o tipo explosivo que morreria de tédio se nada muito extraordinário acontecesse. “Já passei da época”, pensa Marlon. E agradece por nunca ter sido como aquela gente que procura sarna para se coçar. Reflete se fumar maconha antes do trabalho num local cheio de menores de idade e pessoas infinitamente mais caretas do que ele é coisa de quem não procura sarna para se coçar. Ri de novo. O sinal passa do vermelho para o verde.
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