Descaminhos selvagens
Cheguei à beira de mim. Agora salto.
Descaminhos selvagens
Cheguei à beira de mim. Agora salto.
Eu não tenho caminho; o que me refaz constantemente são os descaminhos, do fundo do mar ao topo da montanha. E lá estou eu, sendo algo pela primeira e pela última vez. Não há mais produtos do destino — essas coisas que se fingem inevitáveis — e sigo sendo fiel a mim, então o caminho se torna aquilo que se anda. Agora, olhando o mochilão repousando um tempo que ainda não lhe havia sido dado, a pausa se torna real. E aqui estou eu, vivendo um desses fins, sem nome. Na estrada, o movimento constante vira uma frenesia automática. Uma liberdade que se confunde com uma certa falta de controle. Parar, respirar, olhar, ouvir e reconhecer são pequenos passos para essa retomada de si.
Esse convite, se bem aproveitado, pode ser a chave de um novo rumo. A pausa requer sabedoria para que nela se construa o que pede tempo. Então, ao adentrar no ritmo da respiração, começa a se abrir uma voz interna e familiar. Um eu que repousava, enquanto outro pedia passagem e movimento, volta ao palco novamente. É a vez dos sonhos que pedem tempo, que florescem em meio à pausa.
O exercício é diário, é preciso uma fé no presente e no agora. Soltar e confiar no que é bom. Medir a imensidão das pequenas coisas pode ser fácil, basta apenas deixar se guiar pelo sentir. Por determinado tempo pensei que havia perdido ou em certa medida, diminuído a minha liberdade. Ao passo que reconheço que nunca houve nada que me prendesse, e que se paro é por querer, retomo a liberdade com uma nova roupagem: amadurecida.
O que está por vir? Sei que cometo um erro, mas me inclino a saborear — pelo cheiro — os desdobramentos. Algo paira no ar. E, diante desse clímax imprevisível, me sinto completamente incapaz de deduzir qualquer coisa. É delicioso e tentadoramente assustador. Sobe um medo. Um leve prazer que só os que confiam desfrutam. E colhem os frutos do descaminho.
Quando tudo desacelera, como um mecanismo de defesa próprio, busco me sintonizar com o todo. Não consigo. Algo em mim é constantemente contrariado pela impaciência do agora. Reconhecer esse desajuste é um convite. Estou pronto para mim? E pro agora? Não. Nunca me senti preparado pra vida. E nem por isso me deixei tombar por ela. Instinto selvagem. Sempre fingi certezas e nunca convenci ninguém, nem ao menos eu mesmo.
Mas me surpreendo pela coragem.
A verdade é que há, sim, uma busca por respostas, mas são questões abertas, soltas no peito. Porque alguma coisa em mim continua. Não por insistência, mas por delicadeza. E elas ganham vida através do presente e dessa nova liberdade, algo que ficou em mim entre uma coisa e outra. Busco ser algo que a pausa me revela: espaçado. E não estando pronto sou apenas o que posso: real.
Então que venham e se abrem os descaminhos selvagens.

메타데이터
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