Tensão entre a Igreja Católica e Trump: o que a nomeação de bispos ex-imigrantes indica
11 de maio de 2026
Tensão entre a Igreja Católica e Trump: o que a nomeação de bispos ex-imigrantes indica
11 de maio de 2026

Foto: Sarah L. Voisin/The Washington Post
Por Livia Avancini Belli
O Vaticano anunciou, na primeira sexta-feira de maio (1) de 2026, a nomeação de um bispo nos Estados Unidos (EUA) que, de acordo com o discurso do governo estadunidense, entrou ilegalmente no país quando adolescente. Evelio Menjivar Ayala, de 56 anos, foi designado para assumir o bispado na Virgínia Ocidental. O novo pontífice chama a atenção por suas falas e pregações contra a política migratória do presidente estadunidense Donald Trump e traz à discussão o cenário de tensão entre a Igreja e o governo norte-americano (G1, 2026).
Menjivar, de origem salvadorenha, entrou sem os documentos adequados nos EUA, ainda jovem, no porta-malas de um carro, em 1990, até que se juntou à irmã em Los Angeles dedicando-se a trabalhos braçais. Em Miami, cursou filosofia no Seminário São João Vianney, continuou seus estudos no Colégio Norte-Americano, em Roma, e recebeu o título de Mestre, em 2002, pela Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino (Angelicum). Posteriormente, iniciou seus estudos clericais e, por fim, recebeu a ordenação apenas em 2003, pelo Cardeal Wilton Gregory, que destacou o quanto aquilo seria importante para dar visibilidade aos tantos imigrantes que vão ao território norte-americano e que se esforçam em trabalhos pesados (Boorstein, 2026; G1, 2026).
Entretanto, destaca-se que o ex-imigrante só conseguiu se tornar cidadão americano pelo “Green Card”¹ em 2006, em um período de 16 anos desde que entrou no país. Inesperadamente, o próprio bispo o qual Ayala substituiu na Virgínia Ocidental, Mark Brennan, é quem o ajudou a regularizar seu status de indocumentação, que na época viu o salvadorenho como um candidato promissor para a Arquidiocese de Washington, mas que precisava reparar seu caráter de imigrante ilegal (Boorstein, 2026). Em vista disso, nota-se que há dificuldades reais entre os imigrantes nos EUA, uma vez que a demora para se regularizar é evidente, visando uma possível falha na burocracia da época.
Como contrário a política migratória, Menjivar (2025) manifestou-se contra o tratamento de Trump dado aos imigrantes em um coluna publicada no jornal “National Catholic Reporter”, na qual o bispo faz um paralelo entre o sofrimento de Jesus Cristo durante a Semana Santa e o sofrimento vivenciado por algumas pessoas em suas vidas, destacando os imigrantes e refugiados. Ele aponta que estes personagens estão sendo constantemente vítimas do terror gerado pelo ICE² e que a perseguição estaria ultrapassando as fronteiras de simples fiscalização. Além disso, inclui-se outros santos ao decorrer do artigo, os quais pregam o respeito pela dignidade humana, essa tanto prezada por Menjivar que se compadece da realidade enfrentada por seus iguais:
Mais do que alguns poucos americanos natos estão dizendo não reconhecer mais seu país, mas muitos de nós de outras terras reconhecemos muito bem o terror de pessoas sendo sequestradas pela polícia secreta e desaparecendo. Nós saímos dos nossos antigos países justamente para se livrar disso (Menjivar, 2025, n.p., tradução nossa³).
Nesse ínterim, o Papa Leão XIV tem indicado diversos pontífices que se manifestaram publicamente sobre tal questão migratória. Esse comportamento difuso entre Leão e Trump estaria atrelado à posição de defesa da vida adotada pelo novo papado. Anteriormente, o foco recaía sobre a legalização do aborto no país, a qual os bispos se opunham, todavia, no atual cenário, os ensinamentos pró-vida estão direcionados a lutar pela dignidade de imigrantes e refugiados, principalmente no território norte-americano. Destaca-se o atual bispo nova-iorquino, Ronald Hicks, selecionado para substituir o então cardeal conservador Timothy Dolan, que já foi missionário em El-Salvador e que também condena a postura de repressão promovida pelo presidente dos EUA (McElwee, 2025).
Ademais, no ano de 2025, quatro bispos escolhidos por Leão para atuar nos Estados Unidos são imigrantes e um outro nasceu nos EUA, mas se desenvolveu no México. Até mesmo estiveram envolvidos em ações públicas para defesa do direito dos imigrantes e refugiados, com destaque para o bispo de San Diego que acompanhou solicitantes de asilo ao tribunal e o futuro líder da Igreja na Califórnia, participou de protestos contra a repressão migratória (McElwee, 2025).
Paralelamente, é importante lembrar que Donald Trump realizou ataques em seus discursos ao novo Papa, os quais afirmou que o dirigente da Igreja Católica seria fraco e que prejudicaria a postura da comunidade cristã. Isso aconteceu após o Papa defender a soberania dos Estados, pedir o cessar-fogo no Oriente Médio e se solidarizar com as pessoas afetadas pelo conflito. Adicionalmente, o presidente estadunidense postou uma foto na plataforma Truth Social, onde estaria representado como Cristo, curando um homem doente, com destaque à bandeira dos Estados Unidos no fundo da imagem, além de caças militares e a Estátua da Liberdade estampados (G1, 2026). Trump também já havia se desentendido com o pontífice anterior, Francisco, chamando-o de “desrespeitoso” (McElwee, 2025).
Finalmente, reitera-se o quanto é importante direcionar o olhar para esses atos, pois isso evidencia a dissonância entre a agenda do Vaticano e o governo dos EUA. Isso eleva também as preocupações relacionadas à popularidade de Trump no ambiente internacional e interno, visto que seus eleitores católicos podem se voltar tanto contra o presidente como para o Papa. Membros de seu partido, como o vice-presidente JD Vance, é convertido ao catolicismo e, quando questionado, em 2025, sobre as políticas do governo, disse estarem condizentes às questões humanitárias. Logo, conclui-se que a Igreja Católica está assumindo uma postura pró-vida relacionada aos direitos dos refugiados neste novo papado, bem como há uma abrangência maior de bispos ex-imigrantes e contrários às políticas trumpistas, como o mais novo bispo Evelio Menjivar Ayala (Boorstein, 2026; G1, 2026; McElwee, 2025).
Notas
¹Documento que autoriza estrangeiros a viver e trabalhar legalmente nos Estados Unidos permanentemente.
² U.S. Immigration and Customs Enforcement.
³No original: “More than a few natural-born Americans are saying they do not recognize their country anymore, but many of us from other lands recognize all too well the terror of people being snatched by secret police and disappeared. We left our former countries precisely to get away from it” (Menjivar, 2025, n.p.).
Referências
BOORSTEIN, Michelle. Pope Leo picks formerly undocumented immigrant to lead West Virginia Catholics. The Washington Post, [s. l.], 01 mai. 2026. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/religion/2026/05/01/pope-leo-bishops-menjivar-boxie/. Acesso em: 05 mai. 2026.
MCELWEE, Joshua. Bispos nomeados pelo papa Leão XIV criticam repressão de Trump a imigrantes. CNN Brasil, Cidade do Vaticano, 22 dez. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/bispos-nomeados-pelo-papa-leao-xiv-criticam-repressao-de-trump-a-imigrantes/. Acesso em: 05 mai. 2026.
MENJIVAR, Elivo. Bishop Menjivar: Speak out against Trump’s treatment of immigrants. National Catholic Reporter, 17 abr. 2025. Disponível em: https://www.ncronline.org/opinion/guest-voices/bishop-evelio-menjivar-it-time-speak-out-against-trump-administrations. Acesso em: 05 mai. 2026.
G1. Papa Leão nomeia como bispo ex-imigrante ilegal que entrou nos EUA escondido em porta-malas. G1, [s. l.], 01 mai. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/05/01/papa-leao-xiv-nomeia-ex-imigrante-irregular-como-bispo-nos-eua.ghtml Acesso em: 05 mai. 2026.
Livia Avancini Belli é graduanda de Relações Internacionais e integrante da Rede de Apoio ao Migrante Internacional (RAMIN) — Franca.
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