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A banalidade do mal de Marritza

“Eichmann em Jerusalém — a banalidade do mal”, é um dos livros mais conhecidos da filósofa judia-alemã Hannah Arendt. Escrito a partir de…

Star Trek: Deep Space Nine - 25 anos · 2018-04-02 02:32 · 0 claps · 2.7 min read
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A banalidade do mal de Marritza

“Eichmann em Jerusalém — a banalidade do mal”, é um dos livros mais conhecidos da filósofa judia-alemã Hannah Arendt. Escrito a partir de seu trabalho de cobertura para a revista New Yorker do julgamento do tenente-coronel nazista Otto Adolf Eichmann, ocorrido em Israel, entre 1960 e 1962, apresenta um relato impressionante sobre a sistematização da barbárie criada pelos nazistas. Eichmann, que após a queda de Hitler escondeu-se na Argentina, por fim foi localizado em Buenos Aires pelo Mossad, o serviço secreto israelense, e levado à Jerusalém para que fosse julgado por seus crimes contra a humanidade.

Inicialmente, Eichmann atuava como um burocrata do regime nazista, responsável pela logística de deportação da população judaica para fora do território do Reich. No entanto, após a invasão da União Soviética pelo exército alemão, em 1941, uma mudança de diretrizes ocorreu, e o que antes era apenas a deportação dos judeus passou a ser o que os nazistas chamavam de “solução final”, isto é, o extermínio das pessoas de origem judaica. A partir de então, Eichmann, descrito por Arendt como um tipo mediano, que sequer havia concluído os estudos secundários, tornou-se um dos responsáveis pelo envio de milhões de judeus para os campos de extermínio, onde eram escravizados e assassinados sistematicamente em câmaras de gás, quando não morriam por inanição ou fuzilamento.

Em síntese, Arendt afirma que Eichmann se tratava de um burocrata, que embora nunca tenha matado sequer um ser humano com suas próprias mãos, fora responsável pela morte de milhões de judeus, a partir de seu trabalho como administrador de logística. Eis a banalidade do mal descrita por Arendt: Eichmann cumpria seu expediente, como um típico burocrata em um emprego banal, que, ao término do dia, retornava ao lar para o convívio com sua esposa e filhos. O monstro nazista era um homem comum, um simples funcionário público que apenas obedecia as ordens do regime em vigor.

Muito já se falou a respeito da opressão cardassiana sobre Bajor remeter à dicotomia nazistas/judeus durante a 2ª Guerra Mundial. No episódio 19 da 1ª temporada de Deep Space Nine, a analogia faz todo o sentido. Em “Duet” (O Dueto), o cardassiano Aamin Marritza chega à estação necessitando de cuidados médicos, portador de uma doença chamada Kalla-Nohra, adquirida após um acidente no campo de trabalhos forçados para bajorianos de Gallitep. Marritza afirma ter atuado no campo como um simples arquivista, portanto, um burocrata, à semelhança de Adolf Eichmann, sem maiores implicações, em sua visão, na violência praticada contra os bajorianos. Em Gallitep, os oficiais cardassianos cometeram toda sorte de atrocidades contra os bajorianos confinados, que morriam assassinados ou vitimados pela fome e pela doença.

Após ser detido para averiguações, já que Kira exige que Marritza seja julgado como criminoso de guerra por sua atuação no campo de Gallitep, o cardassiano confessa que na verdade se trata de Gul Darhe’el, o oficial responsável pelo campo, logo, culpado pela tortura e morte de milhares de bajorianos. Nesse meio tempo, Sisko e Odo investigam com a ajuda de Gul Dukat se a informação procede, obtendo deste a explicação de que Gul Darhe’el havia morrido alguns anos antes enquanto dormia, semelhantemente a muitos oficiais nazistas que nunca pagaram por seus crimes. Em sua confissão, numa cena antológica, afirma para Kira: “O que você chama de genocídio, eu chamo de dia de trabalho”, aproximando-se de maneira evidente ao papel de Eichmann no holocausto judaico.

Contudo, na sequência da investigação, descobre-se que o cardassiano se tratava realmente do arquivista Aamin Marritza, que sentindo-se terrivelmente culpado por sua participação no genocídio bajoriano desejava ser executado como Gul Darhe’el, para que Cardássia fosse responsabilizada, enfim, por seus crimes durante a ocupação de Bajor. Na ficção, um desfecho bastante diferente do acontecido com Eichmann, que, de certa forma, nunca percebeu a magnitude de sua participação no extermínio dos judeus, pois somente cumpria ordens, como um funcionário qualquer.

De semelhante, além do fato de ter presenciado todo o horror de um campo de concentração sem que se insurgisse contra, apenas sua morte, pelas mãos de um bajoriano no promenade, assim como Eichmann, condenado e enforcado pelos judeus, em 1º de junho de 1962.

Duet (Episódio 19 — Temporada 1)

Roteiro: Peter Allan Fields

Direção: James L. Conway

Exibido pela primeira vez em 13/06/1993


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