O caçula gigante
Hoje, o Clube que já nasceu eterno completa 94 anos de muita história.
O caçula gigante
No seu hino já estava escrito: “Dentre os grandes, és o primeiro". Mas, sinceramente, poucos acreditaram que uma instituição fundada apenas em 1930 poderia se tornar a maior do país. Afinal, tantas outras agremiações já existiam, competiam e ganhavam… Não seria uma tarefa simples. Mas impossível não é uma palavra que existe no nosso dicionário, pois aqui até o cara e coroa pode ter outro resultado.

Kaká na preparação para um jogo. Reprodução: Twitter.
Escrever algo para o aniversário do São Paulo é sempre uma tarefa difícil porque as palavras aprisionam o sentimento que sinto por esse Clube em alguns incompletos significados. Por isso, sei que este não será um texto inédito. Este é um texto que foi construído ao longo de muitos anos de aprendizados, leituras, sofrimento mas, principalmente, sentimento pelo Tricolor, porque é assim que as coisas se constroem quando se torce para esse Clube. Eduardo Tironi, jornalista e são paulino, explora a curiosa e intrínseca relação do São Paulo e do trabalho:
O São Paulo é o trabalho. Seu nome é o mesmo do estado e da cidade mais ricos da nação quase que não por acaso. Foram construídos pelo esforço. A história do clube não é feita de milagres, apesar do nome santo, mas da previsibilidade: com esforço, se chega ao topo.
Ele ainda argumenta mostrando exemplos e as figuras da nossa história que representam isso e peço licença aqui para aumentá-los: foi o trabalho que nos fundou e refundou; foi trabalhando que fizemos a moeda cair de pé em 1943; foi o árduo trabalho que permitiu o grande sonho e orgulho do Clube, o Morumbi, ganhar vida; foi acreditando no trabalho que manteve-se o Mestre Telê no cargo apesar da derrota no Brasileiro de 1990; Muricy liderou o Tri-Hexa Brasileiro com o lema de que “Aqui é trabalho, meu filho”. Quem escreveu a nossa história é, inegavelmente, um cético. Poderíamos até chamar o Tricolor de Clube do Trabalho, pois não há milagre, patrocínio ou atalho na nossa história. O que houve em cada momento de glória do Clube foi trabalho, trabalho e mais trabalho.

Rogério e Muricy, símbolos de trabalho e de São Paulo. Reprodução: ESPN.
O roteirista pode ser cético, mas não deixa de ser poético. A década mais difícil da história do Clube foi em que o trabalho foi substituído pela aleatoriedade. A troca constante de treinadores, de jogadores, os infinitos gastos e a instabilidade política passaram a ser cotidianas no São Paulo. O único resquício de profissionalismo neste período foi Cotia, que seguiu com seus processos formando joias e mantendo o Clube de pé. Essa era tenebrosa implodiu rapidamente todo o sucesso dos anos anteriores, mas a reconstrução foi lenta, amarga. Eliminações vergonhosas, lutas contra o rebaixamento, derrotas seguidas em clássicos… todo e qualquer acontecimento alimentava um ciclo de catástrofes que parecia uma bola de neve. No entanto, esse Clube é gigante demais para as glórias ficarem apenas no passado. Assim, em 2023, conquistamos a Copa do Brasil, depois de passarmos por um longo processo de renascimento — mais um na nossa história.

Quando chegamos ao mundo, chorar é a nossa primeira ação. Parece que quando conquistamos o nosso mundo, também, não é, Nestor? Reprodução: Twitter
A primeira e mais óbvia virada de chave é a esportiva. A partir de Fernando Diniz, o Clube recuperou a ideia de um (bom) trabalho a longo prazo, de trazer Cotia para o centro do time e de ter um padrão de jogo, sem contar a melhora brusca no desempenho em clássicos estaduais, com a quebra do tabu no Allianz Parque, por exemplo. Bateu na trave em momentos importantes, mas estruturou alguns dos nossos atuais pilares. Depois, ressurgimos no cenário das conquistas com o Campeonato Paulista, ganho por Hernan Crespo, que fez um trabalho mais curto em virtude dos maus resultados nas outras competições. Rogério Ceni veio para substituí-lo e fez tudo o que pôde: salvou o time do rebaixamento em 2021 e fez duas finais e uma semifinal em 2022. Mas, por causa da eliminação precoce no estadual e atritos com jogadores que já nem estão mais no São Paulo, ele foi demitido no começo de 2023. Dorival veio em seu lugar e nos trouxe o ressurgimento nacional, conquistando a tão sonhada Copa do Brasil ganhando de Palmeiras, Corinthians e Flamengo no caminho. Agora, após Dorival trocar o Clube pela Seleção, Thiago Carpini recebe um grande projeto para 2024. Nos resta torcer muito, acreditar e conduzir o sucesso do jovem treinador.

Thiago Carpini e seu coordenador técnico, Muricy Ramalho. Reprodução: São Paulo
O outro passo no processo de renascimento foi a popularização definitiva do São Paulo Futebol Clube. O “Mais Popular”, na verdade, sempre esteve ao lado das camadas excluídas da população. Já fomos o time “dos pipoqueiros”, “dos bambis” e hoje somos, simplesmente, o Clube do Povo. Isso vem sendo demonstrado de maneira clara através das médias de público, das festas no Morumbis, dos movimentos não-organizados como o “Morumbi Graffiti”… Aceitem ou não, hoje, o Tricolor é do povo. Afinal, todos sabemos que o povo é Soberano.

Grande orgulho do Clube nos últimos anos, a Torcida que Conduz. Reprodução: Twitter
E, ao pensar no passado recente, é inegável que o Clube da Fé voltou a trazer suas raízes à superfície mais uma vez e deve muito dos resultados recentes a isso. A identidade do São Paulo se moldou durante os anos e a quantidade de símbolos dessa história só vem aumentando. O Clube do Trabalho recuperou os bons “jogadores operários”, famosos na década de 2000, e replicou-os em casos como os de Alisson e Rato; revelou joias preciosas, como Nestor, Maia e Beraldo; se municiou de qualidade trazendo Lucas e James e fortalecendo Luciano. Misturou tudo isso à liderança de Rafinha, à segurança de Rafael, à paixão de Calleri e ao sentimento do torcedor. Por fim, adicionou uma estátua de Telê para nos proteger todos os dias. O resultado não poderia ter sido diferente. Agora, para 2024, o pensamento será um só: já ressurgirmos no cenário estadual, em 2021, e no cenário nacional, em 2023. Que busquemos o continente.

Rafinha levanta a taça da Copa do Brasil. Reprodução: São Paulo
Após caminhar por essa resumida e recente linha do tempo, chegamos ao dia de hoje. Há 94 anos, nascia o São Paulo, o Mais Querido, o Clube da Fé, o Soberano, O Mais Popular… chame como quiser. O fato é que, naquele 25 de janeiro de 1930, surgiu uma ideia que renasceu e se reconstruiu várias vezes ao longo dessas décadas. O 25 de janeiro é feito para agradecermos por esse Clube ser, em essência, um sentimento, pois isso o torna resistente ao tempo e faz com que cada dia de jogo, dia de Morumbis ou gol do São Paulo nos emocione e arrepie como da primeira vez. Obrigado, São Paulo, pois te viver é um privilégio. Feliz aniversário, meu amor!

Imagem da conquista do Paulista de 1970, que representou uma nova era de conquistas para o Clube. Que esse passado glorioso se reflita mais uma vez no presente. Reprodução: São Paulo.
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