Sobre a coragem de querer.
Nem sempre é fácil assumir o que se quer — mas ignorar cansa.
Sobre a coragem de querer.
Nem sempre é fácil assumir o que se quer — mas ignorar cansa.

Esse final de semana, saí com uma amigona. Ela é ceramista, artista até no respirar. Conversamos muito sobre esse caminho de vidas duplas. Como é difícil viver com um pé em cada lugar. Mas parece que, ultimamente, mais difícil ainda tem sido viver com os dois pés em lugar nenhum.
A fotografia me trouxe muitas coisas, mas estabilidade ainda não foi uma delas. O Direito me tirou muitas coisas e, curiosamente, estabilidade também não foi uma delas.
Essa semana, conversando com um Defensor Público, ele me perguntou: — Mari, mas por que você ainda está na Defensoria? É pelo dinheiro? E eu respondi bem rápido e sem pensar: — Sim. E, depois, continuei: — Na verdade, um dia foi. Hoje… sabe que eu já não sei?
E tem sete fucking dias que estou pensando nisso.
Fico me perguntando: se eu realmente quisesse tudo o que a vida solo exige… será que eu já não estaria vivendo isso, de alguma forma?
É engraçado que, umas semanas atrás, em terapia, eu falava sobre o (não) desejo de maternar que me assombra, e minha terapeuta respondeu: Mas será que o maternar só pode ser necessariamente humano? Será que, para algumas pessoas, ele não poderia se concretizar, por exemplo, no maternar de um projeto? No maternar da Mari Oak Fotografia?
E isso me atravessou.
Quando a gente é mãe, a gente não pode desistir, sabe? Se a gente não materna um projeto, a gente pode simplesmente desistir. Posso anunciar minha câmera amanhã no camerasusadas.com.br, fechar meu insta e queimar meu chip (diferentemente do Pedro, que devolveu — meu Deus, estou velha). Fim.
Mas e se eu maternar? E se eu me comprometer em sustentar meu desejo? É possível?
Essa mesma amiga me mandou um texto da psicanalista Maria Odete Reis, e ele dizia assim:
“Não é que ele não possa. É que, se puder, terá que querer. E se quiser, corre o risco de se comprometer com o que escolheu. A impotência se sustenta como defesa. É mais seguro dizer ‘não consigo’ do que sustentar um desejo que implica perda. A impossibilidade protege. Mas também paralisa. É um modo obsessivo de gozar: ficar à margem, evitando a queda, mas sem nunca sair de cena. O que parece limite, às vezes, é modo de permanecer.”
Ela completou com outro trecho:
“Na neurose obsessiva, decidir é quase sempre um problema. Pensar demais. Esperar o momento certo. Evitar escolher — para não perder nada. Mas o tempo passa, e nada se resolve. A impossibilidade não é só um limite: ela também protege. O saber entra como defesa: saber mais, pensar mais, para não ter que fazer. E o tempo, estendido demais, vira repetição. Porque agir exige se implicar. E desejar… é se deixar tocar por algo que não se controla.”
E essas — e outras — perguntas têm me assombrado.
O querer, quando a gente assume, é arrebatador. Já vi acontecer. Mas quereres muito grandes precisam de tempo de maturação, tempo de se permitir sentir e assumir. Assim como o gestar tem seu tempo, o querer tem o dele.
E talvez, e só talvez, esse assombro que esteja batendo à porta seja só isso: o susto de, f i n a l m e n t e, gestar um querer de verdade.
Ps: todos os travessões foram colocados por mim, não foi o Chat, eu juro! Pode olhar nos meus textos antigos, eu sempre gostei e odeio o fato de o chat estar estragando eles.
메타데이터
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- 2026-06-15 20:49:13