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A falsa superioridade enquanto solução da insegurança masculina

Clarice, Adler, Lacan

Pedro Lucas Ribeiro · 2026-05-30 15:02 · 1 claps · 5.0 min read
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A falsa superioridade enquanto solução da insegurança masculina

Às 10:28 de um Sábado tento escrever sobre como a insegurança, quase sempre masculina, é sanada em uma relação heterossexual com uma projeção de “falsa superioridade”. Ao correr da semana cuja finda-se hoje, passei por experiências que em mim trouxeram à tona esta pauta.

Em primeiro lugar, faço questão de mencionar o que me instigou a pensar sobre o assunto: o conto “Os Laços de Família” do livro “Laços de Família” de Clarice Lispector. O conto, em 8 páginas, traz a história de Catarina, mulher adulta, casada, mãe de um filho, recebendo sua mãe em sua casa, mãe esta que possuienorme dificuldade de revelar qualquer tipo de afeto, há um grande aprofundamento na questão da relação mãe-filha de Catarina e sua mãe, posteriormente demonstrando a influência desta para com a relação de Catarina e seu filho.

Já no fim do conto, trata-se de forma mais profunda a relação de Catarina junto a seu cônjuge. No fim da estadia de sua mãe, Catarina volta para casa com emoções à flor da pele pela dificuldade em demonstrar amor por sua mãe e, talvez com medo, recolhe seu filho em um momento de máxima euforia para um passeio qualquer, possivelmente com forma que encontrou de “prevenir” que sua relação com o menino chegasse a parecer sua relação com sua mãe. Entretanto, à medida que tudo isso acontecia dentro de casa, seu marido observava sem dar grande importância na sala de estar. Até o momento em que Catarina e seu filho atravessam a porta sem qualquer tipo de aviso ou satisfação, nesse momento, Antônio caíra em profunda insatisfação e desespero. Seu primeiro pensamento, como um bom homem com traços narcisistas, obviamente foi: “Mas e eu? E eu?”. O narrador conta que o pensamento de Antônio foi que talvez sua esposa e seu filho estivessem fugindo. Assim, o texto continua retratando que Antônio mais nada fez além de inquietar-se, pois se considerava um homem moço e cheio de futuro, era uma “dádiva para Catarina” estar com ele. Mais tarde, diz-se: “E porque sabia que ela o ajudaria a consegui-lo (sucesso) e odiaria que conseguissem” evidentemente mostrando o sentimento masculino de ânsia por conquistar sozinho e ter o que oferecer, o que prover, para que assim haja uma clara relação de dependente (mulher) e provedor (homem) com subordinação e superioridade, estes que serviriam de consolo para que curassem, temporariamente, às inseguranças e o vazio sentimental de Antônio.

Psicanaliticamente falando, lembro-me de Lacan e Adler. Em principal, menciono uma ideia parte da Psicologia Individual de Alfred Adler: o ser humano nasce dependente, por isso o sentir-se inferior não é uma doença mas sim algo natural. Desta forma, a criança sabe que conhece menos que seus maiores, é mais fraca, que depende dos outros e que principalmente, ainda não é aquilo que projeta ser. Mas o grande triunfo é que isso tudo é natural. A questão começa na compensação excessiva, existe a pessoa saudável que trata de forma “ainda não sei fazer isso mas posso aprender e melhorar” e existe a outra pessoa que age como “não posso suportar a ideia de ser inferior, não posso não saber isso”. Essa outra pessoa, de acordo com Adler, pode desenvolver uma “supercompensação”. Ela constrói a sua identidade em ser melhor que os outros, e passa a buscar a excelência como quem precisa provar algo e não como quem gosta de saber ou aprender. Mas no fim, é uma insegurança disfarçada na necessidade de estar constantemente certo, no exibicionismo intelectual, na intolerância à críticas, no desprezo a quem sabe menos. Esse algúem não se sente superior, mas PRECISA SE SENTIR SUPERIOR. Exatamente nesse porém, entra o comportamento de Antônio, principalmente no que, mais tarde, retrata o narrador da história: “Às vezes ele procurava humilhá-la, entrava no quarto enquanto ela trocava de roupa porque sabia que ela detestava ser vista nua” e “Mas tinha se habituado a torná-la feminina deste modo: humilhava-a com ternura”. Dessa forma, Antônio buscava sentir-se superior porque não suportava a ideia de não ser. E assim é o homem no relacionamento heterossexual na maioria das vezes, toda aquela “virilidade”, a “autoridade”, a posição de “provedor” disfarça alguém que não é seguro o suficiente para entender que: não saber, não conhecer e não entender são coisas normais e precisa disfarçar sua insegurança com falsa superioridade.

Transitando por Lacan, temos a famosa frase “O eu é um outro” que declara que o eu nasce de uma ideia de ser alguém que na realidade não somos. Uma interação entre a falta que habita em nós e a imagem idealizada de nós mesmos que mostramos ao mundo. O sujeito se apega a uma imagem imaginária de si mesmo para não entrar em contato com a sua real falta. O eu é construído por identificações de imagens que fazemos de nós mesmos e em uma dessas, a pessoa pode-se apaixonar por uma autoimagem idealizada de superioridade e assim passa a defender essa superioridade desesperadamente, porque no fundo é só uma idealização irreal. Deste modo, afim de disfarçar seu ser incompleto, há uma força tarefa para defender a autoimagem de superioridade criada. No fim, não é real, mas o homem depende disso para sentir-se completo. É a parte de sua autoimagem pela qual está apaixonado.

Tudo isso evidencia como Antônio, nesse caso, e figuras masculinas na maioria das vezes, projetam suas faltas e inseguranças em imagens de superioridade e, para se sentirem bem, precisam promover humilhação e mostrar superioridade a figura feminina da companheira, simplesmente por não conseguir se sentir bem consigo mesmo e assim tornam a precisar de algo para seu bem-estar, precisam de uma temporária resolução à esta insegurança. Resolução esta que aparece como humilhação à parceira e superioridade.

Em mais uma interpretação, lembro da reação de ciúme de Antônio à primeira imagem da saída de Catarina e menciono uma conversa que tive com um amigo recentemente sobre ciúmes. Em menção ao que disse o grande psicólogo Marcos Lacerda: o outro gosta de mim por uma questão do outro, uma questão de gosto próprio, e não pelo que faço ou deixo de fazer. Assim como eu gosto de marrom e não de amarelo, é um gosto meu, não há nada que o amarelo possa fazer para que eu goste dele no lugar do marrom. Em contraponto a isso, Antônio talvez sem entender tal mecanismo, fica com medo e pensa “E eu?” sendo seus ciúmes retratados pelo narrador mais tarde no texto. Antônio acreditando que Catarina o amava “pelo que ele fazia para que ela amasse-o” teme que ela encontre outro que possa fazer por merecer mais que Antõnio, assim tomando este o seu lugar, sem entender que na verdade Catarina o amava por uma questão própria. Assim, Antônio mais uma vez revela-se inseguro consigo mesmo, temendo que seu lugar fosse tomado, e transforma essa insegurança em ciúme possessivo que chega ao ponto de uma saída de sua mulher e filho deixá-lo nervoso ao temor de ser substituído.

Concluímos que os relacionamentos heterossexuais na sociedade patriarcal que vivemos, com a cultura da “superioridade” do homem, revelam apenas sujeitos inseguros que precisam projetar uma imagem de si mesmos na humilhação de sua parceira afim de serem satisfeitos em si. Sendo completamente insuficientes por conta própria, e o relacionamento não funciona como troca recíproca, mas como uma sustentação ao próprio bem estar da figura masculina, sustentação essa que baseia-se na depredação da imagem de um dos sujeitos.


메타데이터
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