O preconceito entorno das doenças mentais
por Aelson Vasconcelos .
O preconceito entorno das doenças mentais
por Aelson Vasconcelos .
Desvalorizadas, discriminadas e excluídas, essas são algumas das palavras, que podem descrever como as pessoas que possuem transtornos mentais são tratadas em nossa sociedade atualmente e ao longo da história. Isso provém da Psicofobia, que é justamente, o preconceito contra as pessoas que apresentam doenças mentais.
O Brasil lidera o ranking de maior população que sofre com transtornos de ansiedade no mundo, além disso, se encontra em quinto lugar entre as nações com maior número de pessoas com depressão, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). A partir da exposição dessas informações é possível enxergar a carência no debate acerca da saúde mental e como a sociedade trata com descaso essa temática.
Para tanto, a psicóloga Gabriela Santana Saraiva, de 25 anos, por meio do seu conhecimento na área da psicologia e comportamento humano, aborda como vivemos em uma conjuntura social que não valoriza a saúde mental tanto quanto a física. A entrevistada mostra como a falta de investimentos na saúde mental e serviços de atendimento psicológico, resultam em desinformação, preconceitos e consequentemente na negação em buscar a psicoterapia e demais tratamentos.
EXTRA!Ordinário: Gabriela , como as pessoas que possuem ou que apresentam algum sintoma de transtorno mental são tratadas?
Gabriela Saraiva – De modo geral, existe um estigma por parte até mesmo da própria família.Essas pessoas recebem uma marca social e acabam sendo taxadas de diversas formas.Por exemplo, nas pequenas cidades isso ocorre muito, porque ao procurar a ajuda de profissionais de saúde mental e serviços psicológicos algumas pessoas têm o receio de serem julgadas e a sociedade reduz muito o indivíduo àquela condição em que ele está.
EXTRA!Ordinário: Quais são os transtornos psicológicos mais comuns? Na sua opinião, a pouca explicação sobre eles, é um dos fatores motivantes para tanta desinformação?
Gabriela Saraiva – Os transtornos mentais mais comuns são a ansiedade e a depressão. Eu acredito que a pouca abordagem sobre o assunto e a existência de achismos e opiniões sem base nenhuma colaboram muito para que se tenha juízos errados acerca desse tema. A internet é um espaço em que se disseminam muitas informações erradas sobre possíveis tratamentos e diagnósticos, o que só tende a piorar essa desinformação.
EXTRA!Ordinário: Quando falamos sobre o preconceito referente a quem possui transtornos mentais é recorrente também falar sobre a estigmatização que esses indivíduos sofrem . Como isso afeta a pessoa ?
Gabriela Saraiva – O preconceito que ela sofre da sociedade reforça o estigma que ela carrega, resultando em uma pessoa que reluta em buscar ajuda, que acredita que o que ela sente é sinônimo de fraqueza e isso reflete nas relações, gerando uma reclusão.
EXTRA!Ordinário: A escola é uma das instituições importantíssimas na formação educacional de crianças, jovens e adolescentes. Sendo assim, ela é capaz de formar cidadãos para o convívio social. No entanto, quando se trata de debater esses temas ela não o faz. Gostaria que você avaliasse isso.
Gabriela Saraiva – A falta de debate sobre o assunto é causada pela falta de investimentos em profissionais capacitados para falarem sobre esses temas. Existe uma luta para os psicólogos adentrarem a escola pública. Na rede particular isso já ocorre, no entanto, na pública não. Existe também uma falta de capacitação dos professores para tratar desses assuntos, isso não é culpa deles, faz parte das lacunas e carências da rede pública de ensino do país.
EXTRA!Ordinário: A nossa sociedade está inserida em um contexto de redes sociais elas influenciam muito em nossas vidas e nas opiniões que temos sobre muitos assuntos. Como você acha que isso encaminha a forma como vemos essas doenças?
Gabriela Saraiva –Hoje, o acesso à internet é muito comum e existem dois pontos importantes em relação a isso : um deles é que vemos muitas informações erradas sendo disseminadas nesses ambientes virtuais, como possíveis tratamentos e auto diagnóstico. Por outro lado, temos o viés positivo, que são profissionais capacitados que usam da sua visibilidade para tratar sobre temas de saúde mental.
EXTRA!Ordinário: Esse preconceito e exclusão que ocorre com pessoas que têm algum transtorno está enraizado na sociedade há muito tempo. Gostaria que de forma breve ,Gabriela, você fizesse uma relação de como eles foram tratados em outros períodos da história.
Gabriela Saraiva – Ao longo da história essas pessoas com transtornos e doenças mentais eram englobadas e taxadas de loucas, colocadas em uma instituição e submetidas a diversos tratamentos de tortura como, camisa de força, tratamentos de choque, comiam mal e viviam em condições precárias.
EXTRA!Ordinário: As políticas de saúde mental e os serviços oferecidos são importantes para o tratamento. Apesar disso, os cortes e a diminuição de recursos ocorrem diariamente e os que mais sofrem são sempre os mais pobres. Cabe assim dizer que o governo mostra um desinteresse com a saúde mental da população?
Gabriela Saraiva – É sim, com certeza e nos últimos anos a gente viu uma piora muito grande no que concerne. Os índices mostram que cada vez mais as pessoas estão adoecendo no Brasil e a gente tem em contrapartida a falta de investimentos e pessoas que não estão capacitadas lidando com essas doenças, porque quem tem mais propriedade para falar de saúde mental é um psicólogo ou psiquiatra. E por falar nessa questão de governo, teve um caso recente de um policial militar da Bahia, que entrou em um surto psicótico, o sensacionalismo midiático ali foi grande. Pessoas dizendo “nossa o PM está cansado”; “ele está fazendo aquele discurso porque ele tá cansado”. Realmente, ele estava cansado, ele estava em um esgotamento psicológico tão grande que entrou em um surto psicótico, aquilo ali não foi um grito de desabafo em um momento de heroísmo, foi de uma pessoa cansada que lida com várias coisas e que não tem suporte psicológico necessário, pois a Polícia Militar tem um índice muito grande de doenças mentais e síndrome de Burnout. Esses profissionais que atendem diretamente o público são os que mais sofrem.
EXTRA!Ordinário: Esse mês de abril é dedicado ao combate à Psicofobia, assim como ele, outros meses são dedicados a abordar a saúde mental, como é o caso do Janeiro branco e do Setembro amarelo. Você pode falar da importância dessas campanhas, Gabriela ?
Gabriela Saraiva –São muito necessárias essas campanhas e sempre reforçar que não é somente no mês de Setembro que a gente tem que falar de depressão e suicídio, porque isso acontece o ano todo. No determinado mês a gente tem empatia e o resto do ano deixamos de lado? Isso não pode. Essas campanhas devem ser vistas como uma forma de enfatizar naquele mês o que há para ser tratado, mas a gente tem que lutar para que em outros meses do ano a saúde mental seja debatida.
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.
메타데이터
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