Repique sobre as vagas
Quando Simão e João, e também Tiago e André, balançoitavam numa casca de noz quê de barco, tamanho o ventanal e as nuvens baixas de mar…
Repique sobre as vagas
Quando Simão e João, e também Tiago e André, balançoitavam numa casca de noz quê de barco, tamanho o ventanal e as nuvens baixas de mar aberto, houve a voz lá de cima dizendo que não havia manobra de pescador possível, filhinhos, estavam a fritar, pois “nada podia contra a fúria dos elementos à solta”. A voz era de Saramago, em seu conhecido evangelho, e não de deus, pai e moldador do jovem que os quatro náufragos agora miravam em busca de milagre, não fosse pecado rivalizar a mágica de um contra o Um mágico que os açoitava, dando-lhes lição, afinal vocês são partículas sem sentido a orbitar minhas vontades.
O mar é extensor, e tudo que se perde a olhos vistos mais bem nos serve de espelho e régua. É no horizonte que nos contemplamos e diminuimos ao enxergá-lo. É no amor ao filho que nos medimos pra trás e também nos alongamos. O oceano vem nos servindo a isto, decerto, que nos conte os sambas criados pela negrada dessa terra, laiás nos quais entre síncope e outra, volta e meia, é possível ouvir que algo é como o mar, como a maré, e não tem vaga que baste a bater nos litorais e tambores.
Claro estar que no mar irascível de Saramago, a vida nos aparece como caminho indomável somente. Mas há outros mares. E como eles, outras vidas.
Vêm-me assim as águas metereológicas de Paulinho da Viola, por exemplo, que deslocam a exceção para a regra, ou seja, e disso só sabe quem atravessou muitas vezes o oceano, dizendo que mar mais das vezes é calmaria tensa e névoa. Sobre ele não paira ninguém portador de salvação ou motivos, além dos humanos que o navegam e o barco que o risca.
Viu. O mundo é sem deus, marasmo mudante perto da costa, de perigo lento quando vem nevoeiro, contém a arkhé fiel do balanço, do carrego, do dissimulo, do músculo inexplicável, como nem fosse levar. A única sanha destemperada nele é de quem rompe o tratado natural dos mareiadores, obrigando corpos a naufragarem em porões quando pele nasceu pra sol aberto. Não mais dizer, quem brinca de deus guardando as tempestades esparsas em flagelos constantes no coração do outro.
Existirmos. É só o mar em torno do mar.
메타데이터
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