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Deus abençoe os brutos

Intro

Matheus Ogalha · 2021-08-30 17:16 · 7 claps · 6.0 min read
#idle #rock #brutalidade #amor #bíblia
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Deus abençoe os brutos

Intro

Escrevo esse texto em uma madrugada de insônia. Já faz um certo tempo que isso não me ocorre, mas cá estou transformando este momento em algo produtivo — o texto que estás a ler. Eu vinha passando por um período onde minha mente havia se tornado meu maior inimigo, e paradoxalmente, o que geralmente ajuda as pessoas a ficarem bem nestas circunstâncias só me fazia piorar: música calma, filmes água com açúcar, etc. Essas ferramentas me conduziam à nostalgia, que me levava à melancolia e por fim a tristeza.

Tive então de incorporar o espírito de um soldado, não há passado nem futuro, apenas a guerra no atual presente. Foco, diligência, constância e objetividade se tornaram minhas armas. Mas como ter energia suficiente para se manter de pé quando seu inimigo não está do outro lado do front, mas sim 24 horas dentro da própria cabeça? Os antigos costumavam incorporar músicos em seus exércitos para levantar a moral de seus soldados, dando-lhes mais adrenalina e força — decidi fazer o mesmo. Passei a ouvir músicas com sonoridade mais agressiva, coisa que não era tanto meu costume no passado. E dentro deste contexto um grande amigo me apresentou uma banda que sem dúvida foi a que mais me ajudou, é sobre ela que irei escrever. Faço desse texto um espaço para diálogo, reflexão e quebra de barreiras, afinal, há muito preconceito ao redor do Rock. Sem mais delongas, vos apresento a banda IDLES.

Quebrando estereótipos

Formada no Reino Unido em 2011, a banda é composta atualmente por Joe Talbot, Adam Devonshire, Mark Bowen, Jon Beavis e Lee Kiernan. Possuem dois EPs, três álbuns de estúdio e um álbum ao vivo. Por alguns são denominados de hardcore, por outros pós-punk (a lista segue com seus gêneros e subgêneros). Entretanto, Joe Talbot, o vocalista da banda, já expressou que a sonoridade do grupo não se enquadra em nenhuma destas caixas, eles são livres.

É grande a chance de você estar com o pé atrás enquanto lê meu relato, e está tudo bem, eu também já me senti assim, afinal, os estereótipos gritam em nossa mente. Rock pesado por muitos é associado à violência, tacos de baseball, soco inglês, gente bruta e mal-humorada, e por aí vai. Mas a direção da banda é o exato oposto! Eles cantam em defesa dos imigrantes (faixa Danny Nedelko), mulheres (Mother, Ne Touche Pas Moi), homossexuais (Samaritans, Exeter), etc. Também falam bastante sobre masculinidade tóxica e o quanto isso é prejudicial. Homem tatuado com cara fechada não chora? Isso é coisa do passado. Confira o discurso pronunciado pelo vocalista na faixa Colossus na versão ao vivo:

*“Nós construímos este álbum e construímos esta Tour com amor e compaixão | O que quer que você faça esta noite | Se vocês estão nesta multidão, vocês cuidam uns dos outros | Vocês, vocês, respeitem uns aos outros | Mostrem uns aos outros amor, mostrem uns aos outros o quanto vocês amam | Amem música, não, não agressão | Mas amor e compaixão”**

*citações em língua estrangeira serão traduzidas para uma leitura mais acessível.

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Ok, você pode ter tentado ouvir um trecho da música acima e é bem provável que sua reação tenha sido a de repulsa (principalmente se você vem de contexto religioso). A sonoridade parece soar o extremo oposto da mensagem, não é? Pois bem, eu só fui compreender o quanto esse tipo de música é necessário quando eu estava passando por um esgotamento mental. Lembra da metáfora do soldado? Então, esse tipo de sonoridade traz uma energia tão grande, um senso de disposição e vontade de se erguer que não consigo nem descrever com palavras, só relatar. O mais arrepiante é observar o testemunho de pessoas que lutam para largar as drogas dizendo que ouvir IDLES os ajuda a ter força nas horas de abstinência. Seguem dois comentários que extraí do Youtube em vídeos da banda:

“77 dias limpo, alcançados durante o lockdown. Eu fui viciado por 28 anos e eu luto sem minha Buprenorfina com o IDLES. No momento eu estou sentado aqui com lágrimas nos olhos pela beleza desta banda. A mensagem de autoafirmação e empoderamento do IDLES é incomparável e eu sinceramente acredito que eles são a banda mais importante no mundo atualmente. Eu os amo até o dia da minha morte”

“21 dias limpo, o lockdown fez com que eu conhecesse ao IDLES e isso foi há 11 dias atrás. 11 dos meus 21 dias foram sustentados na base de ouvir tudo de IDLES que eu pudesse. Eu não me apaixono por uma banda desde minha adolescência há 30 anos atrás. Obrigado”

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Minhas crises não eram relacionadas às drogas, mas sim a fatores psicológicos. Quando eu sentia que ia quebrar, frases como “Você consegue! Sim, você consegue” (faixa Mr. Motivator) traziam uma força indescritível. Coisa que só se sente ouvindo mesmo, confira:

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A brutalidade na Bíblia

Sim, sou cristão, e busco seguir o que é proposto pela fé que professo. Nessa altura do campeonato os estereótipos novamente podem estar gritando enquanto você lê meu texto — e está tudo bem. Acontece que na maioria das vezes a cultura religiosa que nos é imposta é mera convenção estruturada em uma tradição enrijecida e que está longe do que se vê de fato na Bíblia. Quer ver? Observe os seguintes textos extraídos dos livros de Ezequiel e Isaías:

“Filho do homem, eu quebrei o braço de Faraó, rei do Egito, e eis que não foi atado, nem tratado com remédios, nem lhe porão ligaduras, para tornar-se forte e pegar da espada. Portanto, assim diz o SENHOR Deus: Eis que eu estou contra Faraó, rei do Egito; quebrar-lhe-ei os braços, tanto o forte como o que já está quebrado, e lhe farei cair da mão a espada” (Ez 30:21–22)

“Quem é este que vem de Edom, de Bozra, com vestes de vivas cores, que é glorioso em sua vestidura, que marcha na plenitude da sua força? Sou eu que falo em justiça, poderoso para salvar. […] Na minha ira, pisei os povos, no meu furor, embriaguei-os, derramando por terra o seu sangue” (Is 63:1,6)

“Porque eis que o SENHOR virá em fogo, e os seus carros, como um torvelinho, para tornar a sua ira em furor e a sua repreensão, em chamas de fogo, porque com fogo e com a sua espada entrará o SENHOR em juízo com toda a carne; e serão muitos os mortos da parte do SENHOR” (Is 66:15–16)

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Percebeu como a linguagem de Deus acima é bruta e agressiva? Pois bem, isso é bem recorrente nos livros proféticos. Quando o povo de Israel ou qualquer outra nação se tornava extremamente opressiva, imoral e tirana, Deus levantava profetas e se apropriava de linguagem e ações extremas a fim de reestabelecer a paz primária — Deus sempre se mostrou ao lado dos que sofrem. Certo, agora imagine… Se esta linguagem literária fosse transcrita para outro tipo de expressão artística, como seria? Igualmente bruta e agressiva imagino eu.

Eu enxergo alguns paralelos entre o IDLES e os profetas bíblicos: se o mundo atual é regado de injustiça, numa espécie de reação espontânea surge uma banda que através de uma sonoridade agressiva fala sobre uma busca por paz. É um padrão muito semelhante ao visto na Bíblia.

Certo, eles não são religiosos (que eu saiba) e não estou aqui para dizer que concordo com tudo o que dizem… Mas quem é que concorda com alguém 100% nesse mundo? Que eu saiba, ninguém. Neste contexto eu uso o filtro de Paulo: “Examinai tudo. Retende o bem” (1 Ts 5:21). Quando me proponho a fazer essa reflexão, sinto que a mensagem principal da banda se encontra sintetizada na música Kill Them With Kindness onde basicamente eles falam a mesma coisa que Romanos 12:21: “Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem”. Tem coisa mais bonita do que isso? Assista ao videoclipe:

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Conclusão

Como dito na introdução, escrevo este texto não para te convencer a escutar rock pesado — cada um tem seus gostos musicais e isso é lindo. Escrevo como testemunho e para estabelecer um espaço de diálogo e quebra de preconceitos. Por trás de guitarras distorcidas, baterias frenéticas e berros há muita coisa boa a se extrair!

“Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; Para que nenhuma carne se glorie perante ele” (1 Co 1:27–29)

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Que Deus abençoe os brutos.


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