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A Queridinha da Zona Oeste

Símbolo de Bangu, a Praça Guilherme da Silveira abriga a cultura e lazer dos moradores da Zona Oeste.

Luis Felipe Santos · 2024-10-28 17:02 · 2 claps · 7.2 min read
#zona-oeste #bangu #historia #cultura #lazer
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A Queridinha da Zona Oeste

Símbolo de Bangu, a Praça Guilherme da Silveira abriga a cultura e lazer dos moradores da Zona Oeste

Por: Luis Felipe Santos, Larissa Gralha, Ruan Fernandes e Leonara Santiago para a Revista Maritcana (Edição Nove).

Trenzinho da “Alegria” que passeia no entorno da Praça. / Foto: Ruan Fernandes

Trenzinho da “Alegria” que passeia no entorno da Praça. / Foto: Ruan Fernandes

A sensação de insegurança no decorrer do trajeto, pela falta de segurança pública efetiva, principalmente na Zona Oeste, somada ao aumento das passagens no transporte público, não são suficientes para afastar os moradores de Bangu e do entorno da Praça Guilherme da Silveira.

Vendedora e seu amigo que pediram uma fotografia. / Foto: Ruan Fernandes

Vendedora e seu amigo que pediram uma fotografia. / Foto: Ruan Fernandes

Barracas de comida formam uma espécie de cercadinho gastronômico em torno da praça, com um cardápio variado que vai do Acarajé ao Yakisoba e às porções de batata. Porém, veja bem, é preciso ficar atento à passagem do trenzinho cheio de luz, que divide o espaço com os pedestres. Além de emitir luzes que compõem o colorido do espaço, o som da buzina alerta aos pedestres que ele está passando e aos poucos cada um vai abrindo espaço. Caso queira passear nele com estilo, a diversão é garantida, pode embarcar na viagem, sem precisar da Supervia.

Crianças brincando em playground enquanto os responsáveis os observam e socializam. / Foto: Larissa Gralha

Crianças brincando em playground enquanto os responsáveis os observam e socializam. / Foto: Larissa Gralha

No meio da praça, em um espaço aberto de terra, os pais se sentem confortáveis em deixar suas crianças se divertirem livremente. Brinquedos como pula-pula e tobogã ajudam a demarcar a área infantil. A organização da Guilherme é formada por um planejamento urbanístico baseado em experiências populares. Apesar de agitada, todos entendem seu fluxo de movimento e a estruturação funciona como uma memória. Afinal, passeios e brincadeiras no final de semana no local são tradições que se mantém através dos anos.

Os balões da vendedora Thainara Cristina, de 28 anos. / Foto: Larissa Gralha

Os balões da vendedora Thainara Cristina, de 28 anos. / Foto: Larissa Gralha

Lutando por seu território, os cães também demarcam seu espaço. “Um cachorro era muito chato, não podia me ver com as mercadorias que ele vinha para cima de mim, querendo morder mesmo. Me perturbou durante alguns anos, mas eu não sei o que aconteceu com ele, não sei se morreu…Acho que ele via os bichinhos, ficava nervoso e queria pegar. Era um empecilho para trabalhar aqui, passei sufoco”, relatou de forma bem humorada a vendedora de balões Thainara Cristina, de 28 anos, ao se recordar das estripulias do cão.

A Praça da Guilherme, é o ambiente onde famílias se reúnem para fazer piqueniques e trabalhadores vão atrás de seu sustento.

Como é o exemplo do Seu Paulo, de 65 anos, que trabalha junto de sua mulher, seus filhos e sua nora. Ao entrevistá-lo, fomos interrompidos por sua neta de dois anos, que chegava à praça acompanhada de seu pai.“Ela já chega perto de mim e faz ‘Vô, dinheiro!’, aí eu falo ‘Pra que você quer dinheiro?’, “Pra comprar bala”. Ai eu dou 10 reais, ai ela olha assim, “Só isso?!”.

Outro trabalhador presente no local é o Jota, de 33 anos, que vende salgados produzidos pela sua irmã, mostrando como a questão familiar é forte na Guilherme. “Ela tem a máquina, eu pego o salgado dela e revendo. Então é bom para ela e pra mim”.

Pedestres passeando na praça. / Foto: Leonara Santiago

Pedestres passeando na praça. / Foto: Leonara Santiago

Justamente por ser um espaço seguro, bem iluminado e de fácil acesso ao público, ela serve como ponto de encontro para jovens, manifestações culturais e religiosas. “A Praça Guilherme da Silveira reúne uma diversidade de gerações, de criança até idosos, fica numa região interessante do bairro’’, disse Isabela Leal, de 26 anos, umas das integrantes do projeto Zona Oeste Ativa, que acontecia na praça desde 2015.

Os projetos culturais que ocorrem na localidade, atuam como uma espécie de incentivador do empreendedorismo. “Ultimamente está tendo ensaio da Mocidade e da Unidos, eles saem daqui e param lá em Padre Miguel. Fica bastante cheio, porque o povo das comunidades vem para cá. Quanto mais cheio a Guilherme fica, melhor as vendas.”, afirma a vendedora Thainara Cristina.

SEU PAULO

“A praça é minha família”

Seu Paulo, de 65 anos. / Foto: Larissa Gralha

Seu Paulo, de 65 anos. / Foto: Larissa Gralha

O colete com as palavras: “Amigos da Praça”, é, segundo Seu Paulo, de 65 anos, o “uniforme” da família de trabalhadores da Guilherme: “A praça é minha família”.

A sua barraquinha de sucos, doces e biscoitos fica no mesmo espaço onde ele também trabalha com bicicletas, triciclos e pula-pula. Para não ficar sobrecarregado, o mesmo conta com a ajuda de seus familiares.

Trabalhando há 17 anos na Guilherme da Silveira, ele começou com uma bicicleta, que pedalava em volta da praça, vendendo suas mercadorias: “Comecei com a bicicleta de carga, com um isopor na frente e outro atrás. Aí vim pra cá, a praça vazia, vazia. Só tinha um rapaz que tinha umas bicicletas e outro ali. Não tinha nada desses trailers”.

Para ele, a causa do crescimento comercial da praça, é o desemprego: “Muita gente desempregada, pessoal vai cair pra dentro da praça para poder trabalhar, né?”.

Seu Paulo, sentado em uma de suas bicicletas. / Foto: Larissa Gralha

Seu Paulo, sentado em uma de suas bicicletas. / Foto: Larissa Gralha

Orgulhoso, ele conta que a Praça Guilherme é a renda principal de sua família: “Eu tenho um garoto que eu pago a faculdade dele. Vai terminar direito agora esse ano, em junho ou julho, sei lá. Quanto é uma faculdade agora? Eu de carteira assinada não ia conseguir pagar isso. Mas é daqui que eu tiro o sustento, o nosso”.

Para ele, os três meses iniciais da pandemia de Covid-19, em 2020, foram desesperadores. Devido à alta proliferação da doença, Seu Paulo precisou permanecer em casa, sem conseguir trabalhar e acabou por não receber nenhum centavo: “Pelo menos o arroz e feijão não faltou. E não é só eu, todo mundo que trabalha aqui”.

O Banguense se diz orgulhoso de seguir em frente, de cabeça erguida e pelo fato de que todos os seus filhos tiveram a oportunidade de estudar, o que ele não teve: “Sabe o que eu fazia? Eu deixava de ir pra escola pra fazer oficina, aprender a profissão”. No final da entrevista, ele se emociona e, com lágrimas nos olhos, nos diz que é “Muito feliz”.

Trabalhadores solicitam manutenção da Praça.

Entrevistados que não quiseram ter suas identidades reveladas, por questões de segurança, solicitaram que fossem relatadas as falhas de estrutura do local.

Aparelhos de ginástica em péssimo estado de conservação. / Foto: Ruan Fernandes

Aparelhos de ginástica em péssimo estado de conservação. / Foto: Ruan Fernandes

Os problemas visíveis na praça, como a falta de poda de árvores e grama, pouca iluminação em alguns pontos em conjunto com os brinquedos quebrados, como balanços e escorregas, são retratos da inexistência de manutenção por parte da Prefeitura: “Faz quase 5 anos que eles não colocam um balanço aqui.” A diversão das crianças é o pula-pula, mas as crianças precisam do próprio brinquedo da praça. “Inclusive o pessoal que frequenta aqui, falam que nós arrancamos os brinquedos, para a gente alugar os nossos brinquedos. E não existe isso, jamais a gente vai fazer uma coisa dessa”.

Deveria ser um balanço, mas ele não existe mais! Ficou apenas a estrutura de ferro. / Foto: Luis Felipe Santos

Deveria ser um balanço, mas ele não existe mais! Ficou apenas a estrutura de ferro. / Foto: Luis Felipe Santos

Entrevistados que não quiseram ter suas identidades reveladas, por questões de segurança, pediram para que fossem relatadas as falhas de estrutura do local.

Os problemas visíveis na praça, como a falta de poda de árvores e grama, pouca iluminação em alguns pontos em conjunto com os brinquedos quebrados, como balanços e escorregas, são retratos da inexistência de manutenção por parte da Prefeitura: “Faz quase 5 anos que eles não colocam um balanço aqui.” A diversão das crianças é o pula-pula, mas as crianças precisam do próprio brinquedo da praça. “Inclusive o pessoal que frequenta aqui, falam que nós arrancamos os brinquedos, para a gente alugar os nossos brinquedos. E não existe isso, jamais a gente vai fazer uma coisa dessa”.

O mau tempo se torna um obstáculo, não apenas porque não há cobertura na praça, mas também porque ela fica alagada. “Os bueiros estão entupidos e escondidos pela grama alta”. Um dos entrevistados relata que não vê nenhum tipo de cuidado no espaço: “Essa parte que estamos foi porque eu arranquei os matos para eu poder sentar, pelo menos”. A falta de banheiros químicos foi outro problema mencionado, a Guilherme é um ambiente aberto e muito frequentado, ou seja, é necessário um local apropriado para as necessidades fisiológicas.

Calçadas com problemas de nivelamento são um risco para trabalhadores e pessoas que estão passeando em busca de lazer: “Ontem a gente mandou a criançada andar de bicicleta em outra parte da praça, porque o garoto foi andar ali e quebrou a bicicleta…Eu arranquei umas pedras do meio ali, que tinha uma senhora que deu uma topada e se machucou”.

Um comerciante contou que a Prefeitura teria um projeto de padronizar as barracas do local, transformando-as em quiosques. Procurada para prestar esclarecimentos sobre melhorias e projetos no local, a Subprefeitura da Grande Bangú, até o fechamento desta reportagem não concedeu nenhuma resposta.

Guilherme da Silveira Filho na urbanização de Bangu.

Estátua em homenagem ao Guilherme da Silveira. / Foto: Luis Felipe Santos

Estátua em homenagem ao Guilherme da Silveira. / Foto: Luis Felipe Santos

Manuel Guilherme da Silveira Filho, nascido no Rio de Janeiro em 1882, ficou conhecido como Doutor Silveirinha e foi presidente da fábrica de tecidos de Bangu.

Silveirinha foi bastante importante no processo de urbanização do bairro. Ele construiu uma vila operária para os funcionários da fábrica. Essa pequena vila foi o início da história do que hoje é o grande bairro de Bangu, que segundo estudos da Geofusion de 2016 (empresa que atua no segmento de geomarketing e serve como banco de dados), é o segundo bairro mais populoso do Brasil. O bairro fica entre o Maciço da Pedra Branca e de Gericinó, ambos parques estaduais de proteção ambiental.

Em 2005, a Fábrica foi transferida para Petrópolis e sua estrutura foi aproveitada pelo Bangu Shopping, inaugurado em 2007. Já a praça, que se chamava Nova Jales, foi reinaugurada como Praça Guilherme da Silveira em 2010, pelo atual prefeito da cidade do Rio, Eduardo Paes. O novo nome foi, segundo o site oficial da Prefeitura do Rio, um pedido dos moradores do bairro, com a finalidade de homenagear Guilherme da Silveira.


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