Mocidade Alegre, do barracão à avenida
Conheça os bastidores de uma das escolas mais tradicionais do Carnaval de São Paulo

Mocidade Alegre, do barracão à avenida
Conheça os bastidores de uma das escolas mais tradicionais do Carnaval de São Paulo
Bruno Trentin

Escudo do Grêmio Recreativo, Cultural, Esportivo e Social Mocidade Alegre. Foto: Divulgação
“Brasileiro gosta de samba e o carnaval é um momento muito especial para muitas pessoas que têm aquele sofrimento durante o ano e aproveitam para se divertir e se distrair. Para mim, como torcedor da Mocidade, é uma satisfação imensa poder compartilhar esse momento com amigos” (Amaral, ex-jogador de futebol).
A bicampeã Mocidade Alegre chega ao carnaval deste ano com um objetivo: conquistar o tricampeonato com um enredo que fala sobre a fé brasileira. Ao todo, a escola possui 12 títulos e fica atrás somente da Vai-Vai, que tem 15 e ocupa a primeira posição no ranking das escolas.
Fundada em 1967 no bairro do Limão, a agremiação Mocidade Alegre — também conhecida como Morada do Samba, ou simplesmente Morada — é considerada uma das mais tradicionais de São Paulo. Este ano, após 10 carnavais, a escola volta a falar de fé, levando para a avenida o enredo Quem não pode com mandinga não carrega patuá, que conta a história dos objetos religiosos que fazem parte da cultura brasileira.
Após ficar nove anos sem conquistar nenhum título, em 2023 a Mocidade se sagrou campeã ao mostrar no sambódromo a história de Yasuke, um imigrante africano que se tornou um dos samurais mais respeitados do Japão. E, em 2024, o troféu do bicampeonato veio com o enredo Brasiléia Desvairada: A busca de Mário de Andrade por um país.

Ala ‘Arlequinal’, do carnaval 2024. Foto: Paulo Pinto/ Agência Brasil
Os desfiles das escolas de samba surgiram no Brasil em 1932 e logo se tornaram uma das principais atrações de uma das festividades mais importantes e tradicionais da cultura brasileira: o carnaval. O berço foi a Praça Onze, no Rio de Janeiro, que no dia 7 de fevereiro daquele ano recebeu 19 agremiações, que podiam apresentar três sambas. O idealizador da atração foi Saturnino Gonçalves, sambista e primeiro presidente da Estação Primeira de Mangueira, uma das escolas mais tradicionais do carnaval carioca.
Em 1937, os desfiles chegaram em São Paulo, e a primeira escola a ser fundada foi a Lavapés. O jornalista e pesquisador de carnaval Fernando Estima nasceu na rua da escola e comenta a sua importância.
“Nessa época, a Lavapés era uma das escolas mais importantes de São Paulo. Ela era um acontecimento. A escola é muito emblemática, porque ela foi presidida por uma mulher chamada Madrinha Eunice, que é um símbolo de resistência, um símbolo para São Paulo.”

Estátua de Deolinda Madre, conhecida como Madrinha Eunice, no bairro da Liberdade, em São Paulo. Foto: Rovena Rosa/ Agência Brasil
Assim como nas outras edições, em 2025 as 14 escolas do Grupo Especial buscam conquistar a tão sonhada nota 10 nos quesitos de harmonia, samba-enredo, bateria, enredo, fantasia, alegoria, mestre-sala e porta-bandeira, comissão de frente e evolução. Mas o que é preciso para impressionar os jurados?
São muitos os fatores que determinam o que leva uma escola a ser campeã do carnaval, mas existe entre elas uma chave comum para chegarem ao desfile preparadas: os ensaios.
Na avenida, as partes que mais chamam a atenção do público são os carros alegóricos, as fantasias e os adereços coloridos, mas sem o chamado “chão da escola”, que é o comprometimento e a entrega dos integrantes ao desfile, nada acontece. E é por isso que os ensaios são tão essenciais.
“O ser humano é a parte mais importante, é o brilho da escola. Não adianta ter carros maravilhosos e fantasias lindas e não motivar os componentes”, explica o diretor de harmonia da Mocidade Alegre, Cleyton Rocha.
O LabJor acompanhou um ensaio técnico da escola no sambódromo no dia 16 de fevereiro e vários outros ensaios na quadra e constatou que união é a palavra que define a atual bicampeã. “A vitória vem da luta, a luta vem da força e a força, da união!”, costuma dizer a presidente da Mocidade Alegre, Solange Cruz, a cada encontro dos foliões. E é com esse “grito de guerra” que a cada ensaio a escola dá mais um passo rumo ao sambódromo.
Solange é filha de Carlos Augusto Cruz e sobrinha de Juarez da Cruz, fundadores e ex-presidentes da agremiação. “Ela fala que não importa a árvore, mas sim a floresta, e é isso que a gente pensa. Cada um faz parte dessa floresta, ninguém é mais do que ninguém, ninguém é melhor do que ninguém, e todo mundo junto faz com que a coisa aconteça de forma grandiosa”, conta um dos líderes da escola, Vladimir Cavalcante, referindo-se a Solange.
Para o pesquisador Fernando Estima, a gestão da presidente é o que diferencia a Mocidade das outras escolas.
“A presidente Solange é uma figura emblemática para o samba, para o carnaval, para a cultura do Brasil. Dos 12 títulos da Mocidade, oito foram conquistados na gestão da presidente. Ela é uma mulher que faz um trabalho incrível”, comenta.
65 MINUTOS DE DESFILE, UM ANO TODO DE TRABALHO
As escolas de samba geralmente são lembradas no período de carnaval, mas o desfile é resultado de um processo que dura um ano inteiro. Além disso, as escolas, como o próprio nome diz, ensinam e proporcionam coisas que vão além das vistas na avenida.
Cleyton Rocha, por exemplo, chegou na escola com 17 anos e já passou pela comissão de frente, por coordenação de ala e atualmente, como diretor de harmonia, comenta que a Mocidade lhe ensinou a viver.
“Todos os princípios de comunidade, sociabilidade, amizade, tudo foi construído aqui. Todos os alicerces da minha vida estão diretamente ligados à Morada, inclusive o meu lado profissional”, afirma Cleyton.
O amor pela escola é uma característica comum entre os integrantes da Mocidade Alegre, que se dedicam ao máximo para apresentar o melhor na avenida. Independentemente da função ou posição, todos demonstram um carinho muito grande pela comunidade, como mostram os depoimentos abaixo.
“A Mocidade está na minha vida desde a minha vó. Toda a minha família está aqui, então a escola é basicamente a minha vida!” (Matheus Passiani, integrante da bateria, 27 anos)
“A Morada entrou em minha vida em um momento que eu não via mais cor, mais brilho, eu achava que o carnaval já não me complementava mais. A Mocidade veio pra me transformar e curar algumas feridas” (Diego Motta, 1º mestre-sala, 36 anos)
“A Mocidade me trouxe muita alegria. A escola é como se ela fosse um filho pra mim, é uma emoção inexplicável, só quem está aqui entende. Na hora em que eu entro na avenida, o coração pulsa e o corpo todo arrepia, é demais!” (Carlos Roberto, copiloto de motorista de carro alegórico, 45 anos)
“Parece que sempre é a primeira vez. Quando a sirene toca, é uma emoção muito grande! Dá até vontade de chorar” (Elmira do Carmo, integrante da ala das baianas, 74 anos)

Ala das baianas no último ensaio técnico (16/02) da Mocidade Alegre do carnaval 2025. Foto: Bruno Trentin
Os ensaios técnicos acontecem entre janeiro e fevereiro e, geralmente, cada escola tem de um a três ensaios. No último, as agremiações checam os detalhes que faltam para que o desfile seja exatamente do jeito preparado.
“A gente não pode errar, está tudo combinado para acertar. É um preparativo que vem desde agosto, quando a gente escolhe o samba. A Mocidade ensaia bastante e tem excelente qualidade de trabalho, então a gente está preparado”, conta o diretor geral, Junior Dentista.
Tudo começa com a escolha do enredo. As ideias partem dos carnavalescos das escolas, que já apresentam sugestões de temas, com arte, propostas e explicações, poucos dias depois do fim dos desfiles. Depois da apresentação, as lideranças e a presidência definem o enredo. A partir daí, os chamados enredistas entram no processo. Todos os detalhes, cores, fantasias e o samba são direcionados por eles.
“O carnavalesco monta uma sinopse e detalha o que quer apresentar na avenida, com a história e todas as partes do samba. Depois disso, o enredista faz a cronologia de como tem de ser o samba. Em cima dessa proposta, a gente escreve a música. É como ler um livro e fazer um resumo, mas no lugar do texto a gente coloca verso e prosa”, explica o compositor da Morada, Orlandinho Silva, de 64 anos.
São escritos vários sambas que passam por uma avaliação que define qual será o melhor. “O samba vencedor é o que a gente ensaia, com a dança, o canto, o corpo, e a coreografia. Uma parte da escola cuida disso e a outra constrói as fantasias, os carros alegóricos”, afirma o jornalista Fernando Estima.

Carro ‘Altares das Irmandades Negras’, do carnaval 2025 da Mocidade Alegre. Foto: Giselda Bertolini
A bateria é a parte responsável por transformar o samba escrito em ritmo e melodia. Com os instrumentos e o canto, o pulso da escola é formado. Há 30 anos à frente da bateria, Mestre Sombra explica que funciona como numa empresa.
“Você precisa administrar, trabalhar o dia a dia e cuidar dos detalhes com um planejamento, uma agenda. Precisa organizar a rotina como se fosse realmente uma empresa.”
Outro desafio é levar à avenida centenas de integrantes sem perder a organização. “A direção de harmonia dentro de uma escola de samba é responsável por todo o preparativo, a estratégia e toda a execução do desfile na avenida. Nós somos responsáveis por colocar o primeiro componente e tirar o último da pista, dentro do tempo do regulamento”, explica o diretor de harmonia, Daniel Sena.
Quem também ganha atenção especial são o mestre-sala e a porta-bandeira, responsáveis por uma das notas da escola. “É um trabalho muito tenso e muito delicado, porque uma ala, por exemplo, tem em média 80 componentes. Já o casal, como o nome diz, tem só duas. Então nós precisamos conversar bastante, ter uma estratégia muito boa para trazer o casal para perto e viver a vida do casal, ‘ser o casal’. São oito meses de ensaio todos os dias e todas as noites, e o resultado final é o espetáculo que apresentamos na avenida”, conta o diretor de casais, Jocimar Martins.
Natalia Lago e Diego Motta formam o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Morada do Samba. Para eles, defender um quesito é muito tenso, mas ao mesmo tempo bastante prazeroso.
“A questão de defender a nota de uma escola de samba como a Mocidade Alegre é uma grande responsabilidade. Por outro lado, a comunidade nos apoia o máximo, então acaba ficando leve”, conta Diego. “No dia do desfile eu fico nervosa, claro, porque é o momento que a gente precisa apresentar o trabalho de um ano todo e não sabe como vai ser. Então dá aquele frio na barriga. Mas eu entro com a certeza de que tudo que eu tinha pra fazer já foi feito e ali é a consequência de todo o processo”, completa Natalia.

Natalia Lago e Diego Motta no último ensaio técnico (16/02) da Mocidade Alegre do carnaval 2025. Foto: Bruno Trentin
FÉ E FESTA SE UNEM NA MOCIDADE
Além de pesquisador, Fernando Estima é integrante da Mocidade Alegre desde 2007 e está concluindo um doutorado na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP com o título Mocidade Alegre: Encruzilhada de Saberes. Questionado sobre o escolha do tema da pesquisa, Fernando responde que seu maior interesse é espalhar as belezas da escola para outras pessoas.
“Na primeira vez que vim à escola, parecia que eu estava chegando num lugar que estava me esperando havia muito tempo. Quando entrei, escutei uma voz falando: ‘Que bom que você chegou, eu estava te esperando’. Aquilo me emocionou de um jeito que me emociona até agora. Seria contraditório demais ter recebido tudo isso e não proporcionar conhecimento a outras pessoas. Então isso me leva cada vez mais a estudar, a pensar. Tenho interesse legítimo em mostrar a todos a importância dessa organização social e cultural em nossas vidas.”
A mística e a fé são elementos muito presentes na escola desde sua fundação, como afirma Pai Tinho, diretor espiritual da Morada: “A Mocidade foi fundada em 27 de setembro de 1967, dia de Cosme e Damião. Então a religiosidade sempre foi uma marca da nossa agremiação, que possui muitas tradições, dentre elas a fé.”
“Eu moro no Limão há mais de 40 anos e tenho casa (de candomblé) no bairro há mais de 30. A mesma comunidade que frequenta a escola é a que frequenta a minha casa de candomblé.”
CONFIRA O SAMBA-ENREDO 2025 DA MOCIDADE:
Compositores: Aquiles da Vila, Fabiano Sorriso, Marcos Vinicius, Marcio André, Salgado Luiz, Daniel Goulart, André Aleixo, Fabian Juarez, Leandro Flecha, Tomageski, Beto Colorado e Chico Maia. Participação especial: Eder Miguel
É coisa de preto! Mistério e magia Herança do legado ancestral Abrigo de cada oração Sinônimo de proteção Macumba trazida no peito Feitiço nas mãos Em Mali o povo eternizou Rosário trouxe Opelê-Ifá A chama não se apagou E “re-existirá”! Na vida, é preciso acreditar
O gingado atrevido exala da cor Tem mandinga nas ruas de são salvador Os balangandãs, pra enfeitar… abençoar
Chega de esconder! Não vamos aceitar A face da cruel ignorância Gira baiana, evoca os ancestrais Derrota a intolerância! Nossa família, imenso cordão Enfim, chegou a hora Fé… na terça, o terço na mão É… o dia da consagração Dez! Mais uma estrela no pavilhão!
Firma o batuque, ecoa um canto de fé! Mocidade é negritude… axé! É corpo que arrepia, a força a nos guiar Quem não pode com a morada, não carrega patuá
Bruno Trentin é aluno de Jornalismo da FAAP
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