As estratégias políticas das Eleições 2024 e o “futuro, a Deus pertence” para 2026
Quais foram os recados que as eleições deram aos partidos, sobretudo, os de esquerda, e o que será o futuro, uma vez que 2026 está batendo…
As estratégias políticas das Eleições 2024 e o “futuro, a Deus pertence” para 2026
Quais foram os recados que as eleições deram aos partidos, sobretudo, os de esquerda, e o que será o futuro, uma vez que 2026 está batendo a porta
Por Jhonny Chavão
As eleições finalizadas em 29 de Outubro de 2024, concretizaram algo esperado na política brasileira: a manutenção de poder e de mandato entre alguns partidos. Mesmo que o principal cargo político do país esteja nas mãos do Partido dos Trabalhadores (PT), não foi a esquerda a grande vencedora dessas eleições. Tampouco foi a direita. A direita neste caso, a liderada pelo Partido Liberal (PL) e pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. O grande vencedor dessas eleições foi o chamado centro político, ou “centrão”.
De todas as mais de 5.500 prefeituras pelo Brasil, o Partido Social Democrático (PSD) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) são os partidos que mais têm municípios pelo país. Enquanto o PSD conquistou 887 cidades, o MDB conquistou 854. Entre as capitais de estado, o PSD ganhou cinco capitais: Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG), Curitiba (PR), São Luís (MA) e Florianópolis (SC). O MDB também ficou com cinco capitais: São Paulo (SP), Porto Alegre (RS), Macapá (AP), Belém (PA) e Boa Vista (RR).
Baleia Rossi e Gilberto Kassab, presidentes de MDB e PSD, respectivamente — os partidos foram os maiores vitoriosos das eleições 2024 (Foto: Montagem/Agenda do Poder)
Já os partidos de esquerda tiveram bastante dificuldade em emplacar grandes nomes e grandes campanhas, mesmo tendo a figura do Presidente Luis Inácio Lula da Silva (PT). O próprio PT, acabou ao final das eleições, conquistando 252 municípios pelo Brasil. Dentre os partidos de esquerda, o Partido Socialista Brasileiro (PSB), é quem terá mais comandos de prefeituras — ao todo são 309.
Considerando os partidos de esquerda, PSB e PT são os únicos a terem capitais de estado. Enquanto o PSB tem Recife (PE), depois da vitória de João Campos, o PT, na bacia das almas, garantiu Fortaleza (CE), em uma disputa de tirar o fôlego, vencida por Evandro Leitão, com 50,38% dos votos.
As alianças, as escolhas políticas
As escolhas políticas do PT, por exemplo, foram feitas pensando nas eleições de 2026. Em algumas cidades do Brasil, o partido optou por apoiar candidatos de centro, como foi o caso da disputa no Rio de Janeiro (RJ), com o prefeito reeleito Eduardo Paes (PSD). Para o cientista político e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) José Paulo Martins Júnior, essas alianças apesar de abrangentes, ainda não romperam barreiras estruturais. “O PT teve uma política de alianças muito mais ampla e diversa do que o PL, por exemplo, mas isso não resultou em um avanço expressivo,” analisa.
A vitória do Prefeito do Rio Eduardo Paes (PSD) representou também uma vitória ao Presidente Lula (PT), pois barrou o avanço do bolsonarismo na capital fluminense. (Foto: Poder 360)
O professor da UFF ainda destaca que: “o PT, optou por um leque de alianças com diversos partidos, desde partidos de esquerda mesmo, como o PDT ou o PSB, ou, em alguns casos, o PSOL, como foi o caso de São Paulo. Mas muito também, apoiando e sendo apoiado por partidos de centro e de direita, especialmente. Mas não só o MDB e o PSD, indo até mesmo o União Brasil e o Republicanos”.
Já para o professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro Bruno Schaefer (IESP-UERJ), essas alianças do PT com partidos de centro foi um método para não entrar em cisão com as siglas, uma vez que elas fazem parte da sustentação de apoio ao Governo Federal. Ele pontua que “essa estratégia de tentar acomodar ou não entrar em choque com outras candidaturas, e em alguns contextos, não lançar candidatos, apoiando outros candidatos mais centristas”.
Dificuldades na comunicação
Para o Professor José Paulo Martins, a esquerda sempre teve uma certa dificuldade em se comunicar com o eleitor. Ele atribui isso também ao fato da mídia tradicional pender mais ao lado da direita, dos candidatos mais liberais. Por outro lado, ele vê uma esquerda mais recuada, como forma de comunicação e também para atrair o voto. Para ele, “a esquerda tem se limitado bastante, tem recuado, de recuo em recuo, e a direita vai ocupando esse espaço. Eu vejo que a mídia tradicional deu destaque a esses esforços de recuar.”
E o professor ainda destaca o trabalho que o então candidato Guilherme Boulos (PSOL) precisou fazer para se tornar palatável à população, como o não apoio à descriminalização das drogas. E isso é um prato cheio para os seus adversários. “A extrema-direita deita e rola, porque não só pelas mentiras que costuma proferir sempre nas campanhas eleitorais, mas também em cima desses recursos que a esquerda vem colocando na tentativa de convencer o eleitorado”, afirma Martins Júnior.
“A esquerda tem se limitado bastante, tem recuado, de recuo em recuo, e a direita vai ocupando esse espaço”**
José Paulo Martins Júnior, Professor da UFF
Já para o professor Bruno Schaefer, o impulsionamento de campanhas foi algo que marcou essa eleição. Houve o caso mais conhecido no qual o candidato à Prefeitura de São Paulo (SP) Pablo Marçal (PRTB) em vídeo, ensinava os seguidores como impulsionar uma campanha. De acordo com Schaefer, isso acontece pois tanto a direita, quanto os candidatos de direita estão a mais tempo no mundo virtual.
“A direita tem uma vantagem competitiva nesse caso porque ela tem personalidades que já são conhecidas na internet e daí entram na política. A esquerda tem muita gente que é ao contrário, gente que está numa carreira política consolidada há bastante tempo e daí tem que entrar no mundo das redes sociais, e faz isso geralmente no momento das eleições ou falando para convertidos”, pontua Schaefer.
O candidato Pablo Marçal tentando ensinar aos seus seguidores formas de impulsionamento de conteúdo — medida é ilegal e passível de multa pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). (Foto: Poder360)
Eleição Pró-Incumbentes
Em eleições municipais, a taxa de reeleição costuma ser alta, por muitos fatores. Um deles, é a capacidade de utilização da máquina pública a favor do incumbente que está no poder. Só em 2024, esse número obteve um recorde — 83% dos incumbentes, isto é, os prefeitos que estão no cargo, conseguiram a reeleição. De 2.918 candidatos nessa situação, 2.414 conseguiram ganhar um novo mandato.
De acordo com o Bruno Schaefer, essa eleição foi pró-incumbentes e de continuidade. Ele pontua que “as eleições que são em contextos muito diferentes, são 5.560 e poucas disputas, então também o contexto dessas disputas importa bastante. A gente não tem uma disputa tão nacionalizada nas prefeituras. Então é muito do contexto daquele momento, daquela cidade, quais são as preferências e as prioridades dos eleitores”.
A taxa de reeleição bateu recorde nas eleições 2024–83% dos candidatos a um novo mandato, conseguiram ganhar o pleito. (Foto: Istoé)
“Foi uma eleição muito pró-incumbentes e de continuidade […] A gente não tem uma disputa tão nacionalizada nas prefeituras.”
Bruno Schaefer, professor e cientista político do IESP-UERJ.
O futuro…a Deus pertence
O futuro, para o professor José Paulo Martins Júnior, dependerá da performance do Presidente Lula até 2026. Seja se for ele o candidato a uma possível reeleição, ou para indicar outro nome. Na visão dele, são vários fatores que podem indicar uma possível vitória daqui a menos de dois anos. “Então, vários fatores macroeconômicos contam, se a economia vai estar bem em 2026, se a inflação vai estar sob controle, se o desemprego vai continuar em queda, se o PIB vai continuar crescendo. Tudo isso pode ajudar a candidatura de esquerda para 2026.”, aponta Martins Júnior.
Sobre apoios ou possíveis coalizões, José Paulo pontua que “na disputa presidencial caso o Lula venha a ser candidato à reeleição, ao mesmo que ele apoie alguém, (ele) deve conseguir atrair os principais partidos de esquerda e deve buscar também uma aliança com partidos de centro, e porque não, também de direita, uma vez que tem sido assim que a esquerda tem chegado na Presidência da República”.
Lula-Alckmin: Chapa vencedora nas eleições de 2022, exemplo de aglutinar candidatos que não tenham posições políticas extremadas. (Foto: Ricardo Stuckert)
Já na visão do professor Bruno Schaefer, a questão econômica vai impactar profundamente os possíveis resultados em 2026. E que os partidos do centrão estão muito à frente no quesito candidaturas. A partir das eleições 2024, deputados dos partidos de centro, assim como senadores, acabam por garantir bases eleitorais e votos para novos mandatos. Nas palavras dele, partidos como União Brasil e Progressistas, assim como o PL e o PSD estão com maior robustez para o aumento das bancadas no Congresso Nacional, a partir das eleições de 2026.
Para Bruno é importante se atentar “em que medida vão ser as estratégias nos diferentes tipos de disputas. Vai ter disputa, por exemplo, para o Senado na qual são duas vagas. Então, é importante que tenham candidaturas viáveis de esquerda para o Senado em todos os estados, além reforçar as candidaturas a deputado federal e ver quem vai sair de deputado estadual para deputado federal”.
Com os desafios de comunicação, o peso do pragmatismo eleitoral e as incertezas do cenário político, a esquerda brasileira se encontra em um cenário de “o futuro, a Deus pertence”, como no ditado popular. As estratégias adotadas em 2024 podem ser fatores determinantes para 2026, em um país cada vez mais dividido e em constante transformação.
메타데이터
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