A divorciada
A divorciada

Enquanto assistia a um clássico da HBO, “Sex and The City”, não demorou muito para perceber que Charlotte sofre do transtorno de personalidade borderline. Essa constatação torna-se ainda mais clara a partir do quinto episódio da quinta temporada, quando ela se apaixona pelo advogado que cuida de seu divórcio. Charlotte encanta-se por um homem que nunca se encaixou em seus padrões, mas de repente, ela muda de ideia e passa a romantizar os defeitos dele, pois até então, ele conseguia atender a uma necessidade que os outros homens não conseguiam: dar-lhe atenção. Inicialmente, Charlotte sente vergonha de ser vista em público com o novo namorado, mas esforça-se, e gradualmente, abandona seus padrões. Ela até cogita deixar de ser anglicana para se tornar judia, após seu namorado mencionar que prometeu à sua falecida mãe que se casaria com uma.
Charlotte converte-se e prepara seu primeiro jantar judaico, mas percebe que seu namorado prefere assistir à televisão ao invés de prestar atenção na oração que ela decorou com tanto esmero, juntamente com todos os pratos que aprendeu a cozinhar. “Deixei Cristo por você!” Explode Charlotte e complementa: Quando será que você vai me propor? Assustado com a reação dela, ele termina o relacionamento, e Charlotte termina sozinha, e judaica.
Essa história fez-me pensar na minha amiga Ana, divorciada de um senador da República, membro de uma família tradicional de Brasília, que começou a namorar um paquistanês. Criada na Igreja Presbiteriana, Ana passou a frequentar mesquitas e a estudar o Islã, declarando que seus futuros filhos seriam muçulmanos. O homem com quem ela se relaciona é totalmente diferente de qualquer padrão que ela já considerou; na verdade, ela nunca teve um padrão, exceto “quero atenção”. Quando questionada sobre por que renunciou tantas coisas, inclusive sua fé, ela respondeu: “Tenho 40 anos, e nenhum homem jamais fez isso por mim. Ele viajou de longe para conhecer meus pais no Brasil, leva-me para visitar países que sempre sonhei conhecer e presenteia-me com flores toda semana.”
A carência é, de fato, um problema. Mas será que o preço para receber tudo isso não seria entregar a própria alma? Quando entregamos nossa alma para viver uma relação que acreditamos ser amor, não deveríamos sentir uma pontinha de desconfiança? O amor não deveria ser uma relação que nos inspira a manter a essência de nossas próprias almas?
Flores, viagens, perfumes caros, chocolates… Qual é a importância dessas coisas materiais em comparação com todos os nossos ensinamentos sagrados? A carência transforma mulheres em completas desesperadas. Mulheres desesperadas raramente são amadas; muitas vezes, são apenas usadas e facilmente descartadas.
Ana chegou até a fazer comparações entre a Bíblia e o livro dos muçulmanos. Assim como fez com a Bíblia, ela também declarou que ler minhas crônicas estava longe de ser suas prioridades. Ela diz estar desesperada para encontrar um emprego e uma casa para morar, mas esse desespero inclui encontrar um homem que a coloque em um altar, mesmo que seja de burca.
Bárbara Fontinele
메타데이터
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