APRENDI A CONTEMPLAR
Quem viveu na roça e caminhou numa única estrada à noite sabe: a estrada da ida é sempre a mesma da volta. Para ir, é preciso saber voltar…

APRENDI A CONTEMPLAR
Quem viveu na roça e caminhou numa única estrada à noite sabe: a estrada da ida é sempre a mesma da volta. Para ir, é preciso saber voltar. Principalmente, ter para onde voltar.
E, se caminhou por essa estrada em noites sem lua, aprendeu a ver na escuridão. Na escuridão mesmo, sem nenhuma luzinha lá no fundo.
Acho que foi um dos primeiros aprendizados da minha vida.
Minha mãe segurava forte a minha mão e dizia: fecha os olhos, mantém eles apertados… depois abre. Não sei se era uma técnica dela ou um jeito de me ensinar a parar, respirar e depois olhar. Ensinava, na prática, a ver o todo.
Quando eu abria, vinha o medo, a desorientação, a visão do nada. Mas não um nada iluminado, desses que o cérebro produz. Era o nada da noite.
Depois, o olho se acostumava. O corpo também.
Eu começava a perceber silhuetas, movimentos, sons, os relevos do chão e até os mais distantes. Mas, sem muita certeza, ficava flutuando entre a realidade e a lembrança do que acreditava ter visto durante o dia.
Aprendi a confiar em outros sentidos além da visão imediata.
Não é que a escuridão deixava de existir. É que eu deixava de ser cega dentro dela.
Aos poucos, algo dentro de mim começava a enxergar de outro jeito: uma intuição, uma memória do caminho, uma coragem. E um coração acelerado a cada passo, porque eu não sabia exatamente o que meus pés iam encontrar.
É aí que a gente toma posse do próprio corpo. A cada passo pisa com um pé diferente para arriscar uma parte de cada vez.
E então, lembra de olhar para cima.
Ao olhar para o céu, vem a visão mais bonita. Depois, a adrenalina de ver o belo e a sensação de enxergar todas as estrelas do universo. Até aquelas que parecem poeira cósmica: um glitter prateado, fino, parado, distante e profundo.
Eu me lembro.
E, quando não tinha sono, era para esse dia que eu voltava: o dia em que, na roça, vi o céu estrelado pela primeira vez.
Lembro porque foi quando aprendi a contemplar.
Publicado em 26.03.2026 às 06:58, por Ana Aguiar Real Marinho, na terceira gaveta do ARMarinho das palavras, onde guardo aquilo que só se revela quando paro de tentar focar com os olhos e passo a sentir com os pés e com a intuição.
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