O ódio está à solta: isto ainda é só o começo?
Montagem crítica sobre alegadas ligações de dirigentes do Chega a movimentos neonazis
O ódio está à solta: isto ainda é só o começo?

Montagem crítica sobre alegadas ligações de dirigentes do Chega a movimentos neonazis
Grupos neonazis atacam à luz do dia com a confiança de quem se sente protegido
Primeiro vieram os insultos, agora vêm os murros
Primeiro vieram os insultos. Os chavões repetidos nos debates, os vídeos que viralizam, as provocações lançadas em direto. Disseram que era só retórica. Que fazia parte da democracia ouvir todos os lados. Depois vieram os gestos, as saudações, os autocolantes nos bairros, as ameaças veladas. Disseram que era só simbólico. Melhor ignorar. Agora vieram os murros. Vieram o sangue, os gritos, as nódoas negras. E ainda há quem diga que são apenas episódios pontuais. Os mesmos que banalizam a extrema-direita são aqueles que tentam colar estes grupos neonazis a militantes comunistas. Como se os comunistas andassem a espalhar mensagens de ódio ou violência. Essa normalização da extrema-direita está a custar caro e poderá vir a provocar grandes choques às liberdades do presente, até de quem faz comentário político.
Lisboa, Porto, 25 de Abril: a violência saiu à rua
No Dia de Portugal, um ator foi espancado à porta do Teatro A Barraca em Lisboa. A peça não chegou a começar. Cartazes racistas, provocações a colegas, uma agressão planeada. No Porto, no dia seguinte, duas voluntárias foram atacadas enquanto distribuíam comida a quem tem fome. Foram culpadas por ajudar quem, segundo os agressores, devia ser deixado à margem. Não esquecer que no 25 de Abril, grupos de extrema-direita tentaram tomar as ruas, desafiaram a polícia, insultaram quem ali estava para celebrar a liberdade e agrediram quem lhes fez frente. Até um miúdo de treze anos foi apanhado a bater num manifestante antifascista, como se já tivesse interiorizado quem são os inimigos. Os confrontos deixaram feridos, detenções e a marca clara de que algo se está a reorganizar com confiança e impunidade.
O medo deixou de se esconder e agora anda solto
Esta violência já não se limita aos cantos escuros da internet. Está no centro da cidade, à luz do dia, nas datas mais simbólicas da democracia. Já não se limita a palavras. Procura palco. Quer intimidar quem pensa, quem cuida, quem se expõe. A cultura e a solidariedade tornaram-se alvos porque são ferramentas de resistência. Quem as ataca quer fazer passar a mensagem de que pensar dá direito a um murro, e que ajudar o outro é uma ameaça à nação.
Não é só um protesto, é um plano político
Durante anos venderam-nos a ideia de que o Chega era só um protesto contra os partidos do sistema. Um desabafo. Um partido como os outros. Mas os grupos neonazis não voltaram às ruas por acaso. Encontraram espaço para crescer à boleia de discursos normalizados, de inimigos bem definidos, de desinformação amplificada. Hoje já não se escondem. Desfilam com símbolos de ódio, organizam-se em movimentos identitários, ligam-se à política institucional. Um partido legitima, os outros toleram, e o resto cala-se com medo de parecer exagerado.
Não são todos iguais. Não há simetria possível
Há quem diga que tudo é extremismo. Carlos Moedas e Miguel Morgado caem no ridículo de afirmar que a esquerda e a direita radical se anulam mutuamente. Que são faces do mesmo problema. Mas quem diz isso não anda nas ruas. Não vê quem é que está a bater, quem é que ameaça, quem é que organiza agressões com datas simbólicas escolhidas a dedo. A esquerda pode ser incómoda, desorganizada, até intransigente. Mas em Portugal nunca espanca ou mata quem pensa diferente. Nunca celebrou o medo como método. Nunca atacou uma atriz, um sem-abrigo ou um voluntário para fazer passar uma mensagem política.
A janela está a fechar-se
Portugal não está imune. Já houve sangue. Já houve silêncios. Já houve quem achasse que era melhor não reagir para não dar palco. Mas o palco foi tomado por quem tem menos pudor. Por quem cresceu com o silêncio cúmplice. Por quem acredita que a democracia é uma fachada onde se pode jogar com ódio, desde que tenha uma sigla e um voto. A cada episódio que banalizamos, a cada falsa equivalência que repetimos, a cada concessão feita em nome da moderação, a janela da democracia fecha-se mais um pouco. E quando nos dermos conta, será tarde para a empurrar de novo.
Não se trata de exagero. Trata-se de olhar à volta e perceber que o que está a acontecer não é isolado nem espontâneo. É coordenado, é político e é perigoso. Se ainda vamos a tempo, é porque há quem continue a resistir. Mas já não chega resistir no silêncio. É preciso nomear o que está a crescer. E enfrentá-lo com a mesma firmeza com que outros tentam destruir aquilo que ainda nos une.
메타데이터
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