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Representatividade negra nas novelas

A estreia de Garota do Momento marca um momento histórico: pela 1ª vez, as três novelas da TV Globo são protagonizadas por mulheres negras

rayannesilv in Luz Negra · 2024-11-06 19:27 · 4 claps · 8.7 min read
#reportagem #representatividade-negra #novelas-brasileiras #tv #rede-globo
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Representatividade negra nas novelas

Foto: Divulgação/TV Globo

Foto: Divulgação/TV Globo

A ano de 2023 representou um marco importante para representatividade negra na televisão brasileira: pela primeira vez, todas as novelas da Rede Globo tiveram protagonistas negros. Em Amor Perfeito (18h), Diogo Almeida interpretou o mocinho Orlando; Vai na Fé (19h) teve como casal protagonista Sheron Menezzes e Samuel de Assis, como Sol e Ben, respectivamente; e na trama Terra e Paixão (21h), Bárbara Reis viveu a corajosa Aline.

Além disso, as novelas também contavam com outros negros em destaque nas tramas, com destaque para Vai na Fé, que contou com 70% dos atores e atrizes mostrando a diversidade racial que compõe o Brasil.

Em 2024 não foi diferente, mas dessa vez com as mulheres em destaque. Nesta segunda-feira (dia 4), estreou a nova novela da TV Globo, Garota do Momento (18h), trazendo Duda Santos como protagonista. Atualmente, as três novelas no ar na emissora contam com protagonistas negras: Duda Santos, na trama de Alessandra Poggi; Jéssica Ellen, em Volta por Cima (19h), obra de Cláudia Souto; e Gabz, em Mania de Você (21h), de João Emanuel Carneiro. A estreia de Garota do Momento marca um momento histórico: pela primeira vez, as três novelas da Globo são protagonizadas por mulheres negras.

Duda Santos, Jéssica Ellen e Gabz Foto: Divulgação/TV Globo

Duda Santos, Jéssica Ellen e Gabz Foto: Divulgação/TV Globo

Isso significa um avanço na diversidade e inclusão nas produções televisivas, um campo historicamente dominado por personagens brancos. O ano de 2023 foi significativo para dar visibilidade a histórias e personagens que representam melhor a pluralidade racial do Brasil, 56% da população brasileira se declara preta ou parda, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em maio de 2023, um jornal britânico exaltou a representatividade negra nas novelas da Globo. A reportagem do The Guardian destacou que as três tramas no ar contavam com protagonistas negros e ressaltou a diversidade racial presente nos elencos. A matéria também relembrou um caso polêmico da teledramaturgia brasileira, em Segundo Sol, novela escrita por João Emanuel Carneiro, transmitida pela TV Globo em 2018. A trama, que se passava na Bahia, estado mais negro do Brasil, contava com um elenco majoritariamente branco. Isso gerou críticas por parte dos telespectadores.

Historicamente, além da predominância de atores brancos em papéis principais, atores negros eram relegados a papéis secundários ou estereotipados, como empregados, motoristas ou personagens com pouca complexidade. Essa sub-representação refletiu as desigualdades raciais presentes na sociedade brasileira.

Nas últimas décadas, houve uma crescente demanda por maior diversidade nas tramas e personagens. Embora hoje seja possível notar a presença de negros em papéis de destaque, é importante destacar que um caminho difícil e duro foi construído por importantes nomes na luta pela representatividade negra na televisão, para que esses atores e atrizes possam brilhar hoje nas telas. Vejamos alguns nomes primordiais para esse grande avanço na teledramaturgia brasileira.

Figuras importantes

Yolanda Braga foi a primeira atriz preta a interpretar uma protagonista em uma telenovela no Brasil, em 1965, na trama "A Cor da Sua Pele", da TV Tupi.

Yolanda Braga com Leonardo Villar em “A Cor da Sua Pele” (TV Tupi, 1965). Foto: Reprodução

Yolanda Braga com Leonardo Villar em “A Cor da Sua Pele” (TV Tupi, 1965). Foto: Reprodução

Outro nome de grande destaque nessa luta é Ruth de Souza. A atriz estreou como a primeira mulher negra protagonista de uma telenovela da Rede Globo. Em 1969, ela atuou na novela “ A Cabana do Pai Tomás”. Na trama, o ator Sérgio Cardoso, que era branco, se pintou para dar vida ao escravo Tomás, usando a técnica de blackface. A atriz rompeu o racismo na TV em uma época em que um protagonista negro foi interpretado por um ator branco pintado de preto.

Ruth Souza e Sérgio Cardoso em “A Cabana do Pai Tomás” (1969). Foto: Memória Globo

Ruth Souza e Sérgio Cardoso em “A Cabana do Pai Tomás” (1969). Foto: Memória Globo

E como falar de representatividade negra nas novelas sem mencionar Taís Araújo? Vinte e sete anos depois de A Cabana do Pai Tomás, a atriz se tornou a terceira mulher preta a ser protagonista de uma novela, ao estrelar Xica da Silva na extinta TV Manchete. A personagem, baseada em uma figura histórica, era uma mulher negra escravizada que entrou para a história por ter ascendido socialmente durante o período do Brasil Colonial. O enredo da trama pode ser problematizado em diversos aspectos, especialmente em relação à representação da mulher negra e à forma como questões raciais e de gênero são tratadas.

Xica foi retratada como uma mulher negra que usa sua sexualidade e astúcia para ascender socialmente. Embora isso possa ser interpretado como uma forma de empoderamento, a narrativa reforça o estereótipo da 'mulher negra hipersexualizada', um estigma que ainda persiste.

Em 2004, já na Globo, Taís Araújo protagonizou a telenovela “Da Cor do Pecado”. O título gerou controvérsias na época entre os telespectadores, por reforçar estereótipos negativos ligados à cor da pele. A expressão "cor do pecado" historicamente carrega uma conotação racista, vinculando a pele negra ou escura a algo pecaminoso. Essa problematização se torna especialmente relevante ao considerar que a protagonista, Preta, vive um romance central na trama, mas o título parece sugerir que sua cor está associada ao conceito de pecado ou erro, o que pode reforçar uma visão eurocêntrica e racista.

Em 2009, Taís estrelou como a modelo internacional Helena, em “Viver a Vida”. O desempenho da atriz foi marcado por uma interpretação que gerou debates e críticas. Embora Taís Araújo tenha sido elogiado por sua presença em cena e por sua habilidade em trazer profundidade para um personagem complexo, houve também críticas à construção do personagem. Alguns telespectadores e críticos sentiram que o enredo e o desenvolvimento de Helena na trama foram limitados, o que impediu Taís de explorar todo o seu potencial como atriz na novela. Entre as principais críticas, destacaram-se a percepção de que seu personagem não foi bem desenvolvido e que o roteiro não o favoreceu, limitando a atuação da atriz. O enredo foi considerado por alguns como raso em relação a outras "Helenas" que tinham histórias mais densas. Apesar das críticas, a atuação de Taís Araújo ajudou a abrir caminhos para a discussão sobre representatividade e diversidade racial em papéis de destaque na televisão brasileira, e sua participação em Viver a Vida é lembrada como um passo importante para a inclusão na teledramaturgia

A atriz também interpretou outros personagens notáveis, como Penha, empregada doméstica em “Cheias de Charme” (2012); Verônica Monteiro, destemida repórter investigativa em “Geração Brasil” (2014); Vitória, uma advogada em “Amor de Mãe” (2019); e, mais recentemente, em "Cara e Coragem" (2022), onde interpretou dois papéis, Clarice e Anita. Taís Araújo é considerada uma das atrizes negras pioneiras a protagonizar uma novela no horário nobre da TV Globo

Taís Araujo interpretando a empresária Clarice e a massoterapeuta Anita em “Cara e coragem” (2022). Foto: Reprodução

Taís Araujo interpretando a empresária Clarice e a massoterapeuta Anita em “Cara e coragem” (2022). Foto: Reprodução

Além dos nomes citados, é importante relembrar outros atores que lutaram para que, hoje, atrizes e atores negros possam brilhar em papéis de protagonismo. Pessoas como Chica Xavier, Milton Gonçalves, Zezé Motta, Léa Garcia, Jacyra Silva, Haroldo de Oliveira e Isaura Bruno batalharam por seus espaços nas telas e fizeram história na teledramaturgia brasileira.

Zezé Motta

Em específico, Zezé Motta uma das figuras mais importantes para a representação negra nas novelas e na cultura brasileira como um todo. Sua trajetória é marcada por seu talento, ativismo e pioneirismo, sendo uma das primeiras atrizes negras a conquistar papéis de destaque em produções televisivas e cinematográficas em um país onde o racismo estrutural impõe barreiras para artistas negros. Ela quebrou barreiras ao interpretar personagens complexas e significativas. Sua atuação em novelas como "Corpo a Corpo" (1984) e sua estreia em "Bandeira 2" (1971) foram marcos importantes para a representatividade negra na televisão.

Zezé Motta enfrentou episódios de racismo durante sua participação na novela "Corpo a Corpo" (1984), onde fazia par romântico com o ator Marcos Paulo. Na trama, Zezé interpretava uma professora negra, Sônia, que se apaixonava por Cláudio, um engenheiro branco vivido por Marcos Paulo. Esse relacionamento interracial gerou reações racistas por parte de alguns setores da sociedade na

época. Zezé chegou a relatar que recebeu cartas de telespectadores com manifestações preconceituosas, incomodados com a ideia de uma mulher negra ser par romântico de um homem branco em horário nobre. No entanto, a novela abordou temas como racismo e desigualdade, e a interpretação de Zezé foi amplamente elogiada.

Zezé mota e Marcos Paulo em “Corpo a Corpo" (1984) Foto: Memória Globo

Zezé mota e Marcos Paulo em “Corpo a Corpo" (1984) Foto: Memória Globo

Zezé abriu portas para futuras gerações de atores negros e ajudou a mudar a narrativa das novelas, que antes retratavam personagens negros de forma marginalizada. Sua trajetória inspira muitos artistas e continua a influenciar o debate sobre racismo e representatividade no Brasil. Ela não só rompeu com a

limitação dos papéis destinados a atores negros, mas também alcançou protagonismo em obras que abordam questões sociais, raciais e de gênero. Seu papel como Xica da Silva no cinema (1976) trouxe-lhe visibilidade internacional e fez dela um ícone da luta contra o racismo e a objetificação da mulher negra.

Lázaro Ramos

Em “Cobras & Lagartos" (2006), da TV Globo, Lázaro Ramos deu vida ao cômico e trambiqueiro personagem Foguinho. O ator, roteirista, diretor e escritor é outro nome de grande representatividade no cenário artístico, e também se destaca como uma figura fundamental para a luta pela visibilidade e valorização de artistas negros.

Lázaro Ramos em 'Cobras e Lagartos', 2006 — Foto: Renato Rocha Miranda/Globo

Lázaro Ramos em 'Cobras e Lagartos', 2006 — Foto: Renato Rocha Miranda/Globo

Camila Pitanga

A novela “Cama de Gato" (2009) também contou com uma grande figura representativa: Camila Pitanga, que protagonizou a faxineira Rose. Anos depois, a atriz interpretou a modelo e dona de restaurante Regina em “Babilônia” (2015) e a empresária Maria Tereza em “Velho Chico” (2016). No entanto, um de seus papéis mais lembrados, que ganhou status de protagonista, foi a garota de programa Bebel em “Paraíso Tropical” (2007)

Camila Pitanga como Rose em “Cama de Gato”. (Foto: Globo)

Camila Pitanga como Rose em “Cama de Gato”. (Foto: Globo)

Aline Dias em “Malhação: Pro Dia Nascer Feliz” (2016)

Aline foi a primeira protagonista negra da história de "Malhação", e levou 21 anos para que esse feito acontecesse na trama teen. A atriz interpretou Joana, uma típica mulher brasileira, cheia de sonhos e determinação, em “Malhação: Pro Dia Nascer Feliz”, novela da TV Globo.

Aline Dias como Joana em “Malhação”. Foto: Globo

Aline Dias como Joana em “Malhação”. Foto: Globo

Heslaine Vieira em “Malhação: Viva a Diferença” (2017)

Em 2017, a novela teen “Malhação” apresentou ao público uma trama com cinco protagonistas com histórias de vida diferentes. Dentre as personagens do quinteto, Heslaine Vieira interpretou Ellen, uma jovem da periferia que é um gênio da computação e programação.

Heslaine Vieira como Ellen em “Malhação”. (Foto: Globo)

Heslaine Vieira como Ellen em “Malhação”. (Foto: Globo)

David Junior como Ramon em "Bom Sucesso" (2019)

David Junior teve seu primeiro papel como protagonista na novela “Bom Sucesso” (2019), da TV Globo. O ator deu vida ao personagem Ramon, um atleta formado em Educação Física e apaixonado por basquete.

David Junior como Ramon em “Bom Sucesso”. (Foto: Globo)

David Junior como Ramon em “Bom Sucesso”. (Foto: Globo)

Já na Record, Lidi Lisboa conquistou o protagonismo na novela “Jezabel” (2019). Esse foi o papel de maior visibilidade na carreira da atriz, que interpretou a poderosa e cruel rainha fenícia. É primordial destacar que Lidi foi a primeira atriz preta a protagonizar uma personagem em uma novela bíblica.

Lidi Lisboa como Jezabel em “Jezabel”. (Foto: Record TV)

Lidi Lisboa como Jezabel em “Jezabel”. (Foto: Record TV)

A última novela das 19h da TV Globo, “Família é Tudo", contou com dois personagens negros em papéis de destaque. Ramille Bellon protagonizou Andômentra Mancini, dona de uma autoestima inabalável, a jovem foi criada cheia de mimos e que sonhava em ser cantora.

Ramille como Andrômeda em Família é Tudo. Foto: Globo/Paulo Belotte

Ramille como Andrômeda em Família é Tudo. Foto: Globo/Paulo Belotte

Isacque Lopes interpretou Plutão Mancini, um rapaz responsável e dedicado. O skatista foi incentivado pela avó, Frida Mancini (Arlete Salles), a investir no esporte. No entanto, completamente independente, recusou a ajuda financeira dela e levava uma vida simples, longe dos luxos da família, sonhando em ser o melhor atleta da modalidade no país.

Isacque Lopes como Plutão Mancini em “Família é tudo". Foto: Globo/Manoella Mello

Isacque Lopes como Plutão Mancini em “Família é tudo". Foto: Globo/Manoella Mello

Embora tenha havido avanços, como o aumento de atores negros em papéis principais e uma maior diversidade de histórias, ainda existem desafios. Muitos atores e atrizes negros continuam a relatar dificuldades em conseguir papéis de destaque, e a representatividade plena ainda é um objetivo a ser alcançado. No entanto, a pressão da sociedade civil, dos movimentos sociais e do público tem incentivado uma mudança gradual nas narrativas, e mais produções começam a refletir a diversidade racial do Brasil de maneira mais fiel.

Expediente:

Texto e reportagem: Rayanne Silva — rayannesilv

Edição: Gabryele Martins

Supervisão editorial: Rostand Melo — Rostand Melo


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