Dia 03- A missão continua( Amazonia)
Novo dia, novas experiências, novas pessoas, outras necessidades.
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Novo dia, novas experiências, novas pessoas, outras necessidades.

Olhando ainda do barco pela manhã a diferença geográfica é a grande em relação a primeira comunidade.
Nessa as famosas casas de palafita que margeiam o Rio aparecem.
Uma vila de pescadores.
Uma família que vive do que o rio dá para eles.
Viver em uma casa sabendo que o rio vai subir e que é possível, e provável, que entre água na casa. Sabendo que pode ser que tenham que se mudar enquanto a cheia não passa, uma vez que a água toma conta de tudo. Eu me pergunto: Por que essas pessoas escolhem essa vida?
O primeiro dia já me ensinou que eles são um povo acolhedor que gosta de uma conversa.
Já cheguei puxando um papo com eles. Pergunto se tem na comunidade alguma pessoa acamada que não conseguiria vir até a escola. Me dão duas indicações.
Já prevendo a necessidade de um médico, peço que reservem um horário para essas visitas. Pedido atendido. Que alegria, hoje a Amanda, médica da família, vai visitar as famílias. Ontem ela me falava da vontade de acompanhar nossa caminhada. Parece que Deus ouve diferente aqui na Amazônia.
Primeira casa. Uma senhorinha de setenta e poucos anos. Dona I., teve uma complicação por conta de uma cirurgia e perdeu a fala e a mobilidade. Assustada com a nossa chegada, ela chora.
A família conta que ela aprendeu a se comunicar como consegue com eles. Fala algumas coisas, se senta para fazer as refeições. A filha e a nora tentam fazer com que ela tenha uma vida “normal”. Muito bem cuidada, pele hidratada, cabelo penteado, roupinha limpinha. Naquela casa tinha amor. O marido do lado, a filha, a nora, todos cuidando da matriarca.
Amanda examina, afere pressão. Enquanto isso conversamos com eles. A nora, T. me conta que é nascida na capital, mas que se casou e optou por vir morar aqui, onde é tranquilo, é bonito, e é perto da família. Eles amam o rio, até quando sobe.
Eles criam gado, as vezes plantam, mas vivem bem da pesca.
O patriarca da casa não consegue nos ouvir direito. Amanda e sua mala mágica tem os instrumentos certos para olhar e identificar que aquele ouvido precisava de uma boa lavada. A família parecia bem cuidada. A única criança da casa, filha de T., é uma menina linda. Bem arrumada e tem um sorriso encantador.
Eles contam que a lancha chega com médicos e remédios uma vez por mês, e que quando precisam eles tentam atendimento em Manaus. A comunidade é relativamente perto.
Perguntamos sobre pedidos de oração, T. olha e respira, Bruna sentiu que ali tinha algum pedido especial, insiste na pergunta e ela se abre.
A filha da senhora acamada perdeu um filho, menino com um ano e meio, há três anos. Ela nunca conseguiu superar. Como superar? Oramos, conversamos com ela. Sentimos sua dor. Choramos juntos. Pedimos que ela procure a psicóloga que está com nossa equipe na escola. É importante cuidar dessa dor latente. Esse era o motivo dessa visita.
Partimos para a segunda casa. Lá uma senhorinha tinha tido três AVCs. Cadeira de roda, mobilidade suficiente para ir até um banheiro. Mas pouca para descer a grande escada da casa.
Alguns minutos de conversa enquanto Amanda a examina.
São todos parentes. Na casa anterior e nessa. A matriarca aqui teve 20 filhos, metade da comunidade é filho e outra metade é genro.
Amanda fez alguns procedimentos com a família que precisava esse cuidado.
Sentei-me ao lado de uma das filhas, conversamos e perguntei a ela quantos filhos ela tinha, já que essa era uma pergunta bem comum para as numerosas famílias que eu tinha conhecido. Não tinha filhos, teve três perdas gestacionais. Professora em uma comunidade vizinha, trabalha com crianças desde muito nova. Ela me fala que está velha para ter filhos, no auge de seus 32 anos.
Converso com ela sobre os planos de Deus. Digo que ela ainda é sim nova e ainda pode ter filhos, pode ser que tenha e pode ser que não. Não sabemos o motivo de tudo, mas sei por experiência que maternidade não define uma mulher.
Conto a ela que conheço muitas mulheres maravilhosas que não tem filhos e são felizes assim, entendendo que o plano de Deus na vida delas é outro. Ela me olha diferente, vejo um brilho no olho. Digo a ela que como professora primária ela exerce sua maternidade de outra forma. E ela me fala como aquelas crianças ajudam com sua dor. Abraço ela de todo meu coração.
Perguntamos a família sobre pedidos de oração, sentimos uma angústia, os filhos pedem apenas pela saude mãe. Oramos por ela.
Na parte da tarde o pastor local que nos acompanhava nas visitas pediu que visitássemos uma senhora que tinha ficado viúva e tinha perdido a alegria. Ela não estava em casa, estava na escola recebendo atendimento.
Fomos até a casa do lado. Era o filho dela. Sofrido pela morte do pai.
Eles sentem as perdas na família com uma intensidade de quem dá valor a vida e a família. São a parte mais importante da vida deles, a família. Eles se cuidam com tanto amor que chego a me constranger por deixar que a rotina e o cansaço as vezes me façam dar menos atenção para a minha família do que de fato merecem.
Eles contam que a senhora cadeirante que conhecemos pela manhã não sabe, mas seu filho mais novo faleceu. O luto domina o coração de toda a família. Eles não sabem como lidar. Ficam depressivos. Eu admiro o amor que eles nutrem uns pelos outros. São muito unidos, eles sentem a dor um do outro de uma forma muito intensa.
A esposa, dona da casa onde estávamos, fala sobre sua depressão e fala sobre a sua insegurança diante de Deus de precisar buscar tratamento. Conversamos sobre isso, Bruna compartilhou sua experiência, eu compartilhei a minha, os pastores que nos acompanhavam também tiveram seu período de depressão. É uma fase. Tratando tudo passa. Vai passar. Vai ficar mais leve com o tempo. Oramos com eles.
Passamos rapidamente na casa da viúva. Orei com ela pedindo que Deus console seu coração e que ela fique em paz aqui pelo tempo que Deus permitir que ela fique nesse mundo. Que sinta o amor dos filhos, dos netos e que saiba que um dia nos encontraremos de novo no céu. É lindo ver que o amor deles era grande assim ao ponto dilacerar o coração da viúva que queria ter para sempre seu marido.
Saldo do dia: Um povo que honra pai e mãe. Que cuida dos seus velhinhos, que se importa como família. Que não quer deixar ninguém para trás. Que sofre com a partida. Que tem muito, mas muito amor para dar. Eles não sabem lidar com as perdas. Que Deus ajude a eles a lidar com seus lutos e console seus corações.
Hoje voltando do almoço falei pra um irmão no barco que aqui nessa comunidade a lancha com médicos chega. Eles estavam bem assistidos. Ele me disse com muito amor: “A lancha chega, mas o coração não. É disso que eles precisam.”
Eu como sempre, sigo ouvindo e aprendendo.

메타데이터
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- 2026-06-27 23:56:40