Odisseia verde e preta: A viagem épica que levou o grito da LOUD ao outro lado do mundo
Aos 18 anos, Davi Andrade cruzou o planeta, rodou 5 mil quilômetros e encarou barreiras linguísticas e logísticas para levar a paixão…
Odisseia verde e preta: A viagem épica que levou o grito da LOUD ao outro lado do mundo
Aos 18 anos, Davi Andrade cruzou o planeta, rodou 5 mil quilômetros e encarou barreiras linguísticas e logísticas para levar a paixão brasileira aos palcos do League of Legends na China.

A jornada de Davi, hoje com 20 anos, não é apenas a história de um fã de esportes eletrônicos, é a materialização da ideia de movimento em sua forma mais ambiciosa. Aos 18, ele trocou o conforto de sua casa pela incerteza de uma viagem de 25 dias e 5 mil quilômetros pela China, movido por um único objetivo: ver a LOUD disputar o Mid-Season Invitational (MSI) de League of Legends.
A decisão de Davi de ir à China acabou sendo uma convergência de desejos: “aproveitei que estava com um dinheiro sobrando, sempre quis conhecer a China e sempre quis ver um evento internacional de LOL”, ele conta. No entanto, o tempo para transformar o sonho em realidade foi um desafio por si só. Apenas 25 dias antes da viagem, ele precisou correr contra o relógio para obter o visto (que na época ainda era necessário) e amarrar um roteiro que passava por sete cidades diferentes.

O projeto de viagem se tornou, na prática, um exercício etnográfico. Davi planejou sua rota chegando à cidade com o voo mais barato, conhecendo os pontos turísticos até o local do jogo da LOUD e retornando por uma rota alternativa, totalizando quase 5 mil quilômetros rodados. O planejamento estava tão “amarrado” que qualquer atraso seria basicamente um desastre.
No campo da mobilidade, a China apresentou barreiras e surpresas. O maior desafio prático, no entanto, veio antes mesmo do embarque: a moeda. “Na minha cidade, a casa de câmbio só tinha 1.300 Yuans, valor que não seria suficiente para a viagem de 25 dias”, relata Davi. Além da escassez, as taxas de câmbio eram bem altas.
A solução mais moderna só foi descoberta na chegada: o país asiático utiliza um sistema de pagamento digital bem semelhante ao Pix brasileiro, tornando o papel-moeda quase que obsoleto e o câmbio antecipado em casas brasileiras uma das piores formas de gerir o dinheiro.

Outro ponto de deslocamento logístico foi a comunicação. Com 11 horas de fuso horário, a interação com o Brasil era bem dificultada, e no solo chinês, a barreira do mandarim exigiu adaptação imediata. Davi dependeu quase integralmente de um aplicativo de tradução, munido apenas de um “olá” (nihao) e um “obrigado” (xiexie) aprendido previamente.
“O fuso horário foi um grande problema para me comunicar com o Brasil, pois são 11 horas de diferença, então quase sempre que minha família estava acordada eu estava dormindo.”
Hospitalidade e solidão da torcida
Apesar das dificuldades de comunicação, o contato humano revelou a faceta mais acolhedora da jornada. Longe de encontrar um ambiente hostil, Davi se deparou com uma hospitalidade que superou a barreira linguística. As pessoas nas ruas do “reino do meio” demonstravam paciência ao aguardar a tradução e chegavam a oferecer ajuda direta.
Em Chengdu, por exemplo, ele foi presenteado com um suco de laranja por uma família de chineses em um restaurante, que intercedeu quando o estabelecimento não tinha troco para a nota de 100 Yuan. Em outra ocasião, ao ficar doente, a equipe de um hostel liberou seu check-in mais cedo, sem cobrar taxa extra.

Para as hospedagens, Davi optou por hostels, refletindo a mentalidade de um viajante solo de 18 anos que prioriza a experiência sobre o conforto. Essa escolha permitiu um micro-deslocamento cultural e social: ele dividiu quarto com um chileno em Pequim, e a amizade nasceu em inglês, se tornando um minúsculo ponto de encontro global para a paixão latina pelos esports.
Da tela ao palco: a transformação do torcer
O ápice do movimento de Davi foi a chegada ao MSI. Se o objetivo simbólico era levar o apoio, ele conseguiu. No evento, Davi era uma “figurinha rara”, o único torcedor brasileiro visivelmente presente, a ponto de alguns torcedores chineses pedirem para tirar fotos com ele, com seu rosto verde em homenagem à Loud.

“Tenho pra mim que, sempre que estiver presencialmente com o time, eu não tô lá pra ‘assistir’ o jogo… eu tô lá pra ajudar o time, nem que seja em 0,1% a ganhar. Do outro lado do mundo, em um campeonato muito mais difícil, eu preciso como torcedor e fã ‘torcer’ mil vezes mais.”
A cultura local, mais silenciosa, realçou o fervor do jovem brasileiro. No segundo dia de jogo, a LOUD enfrentou a GAM uma equipe do Vietnã. Observando a intensidade de Davi, alguns torcedores chineses se juntaram a ele nos gritos de apoio. Aquele grito solitário brasileiro forçou o movimento da torcida local.
O que o retorno trouxe além da bagagem

Ao retornar, a jornada da paixão exigiu um momento de reflexão. A eliminação precoce da equipe gerou raiva e decepção, mas o tempo transformou a experiência.
A viagem, que inicialmente foi um investimento, se tornou uma lição de vida e lealdade: “Eu cheguei a pensar ‘não vou mais torcer pra essa bomba de time não’, porém fui percebendo que torcer na vitória é muito fácil, e o que faz ser um torcedor de verdade são as derrotas e má fases”, conclui.
Para Davi, a travessia de continentes não foi apenas um ir e vir. Foi um deslocamento interno que o transformou, reafirmando sua identidade de fã. O esforço de cruzar o planeta e encarar o choque cultural provou que a paixão pelos esports é capaz de reescrever mapas e mover montanhas, fazendo de um fã o verdadeiro embaixador da torcida brasileira no palco global.
메타데이터
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