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Percepções

Lá pelo final da década de 60 do século passado, um dos meus passeios favoritos, quando estava sozinho, era andar pela Rua Augusta.

Fausto Vieira de Moraes in Ninho de Escritores · 2021-04-21 11:32 · 24 claps · 2.0 min read
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Percepções

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Lá pelo final da década de 60 do século passado, um dos meus passeios favoritos, quando estava sozinho, era andar pela Rua Augusta, na capital paulista, olhando as vitrines para ver se conseguia entender por que aquele trecho de calçada era tão badalado e concorrido. A minha percepção era de que a rua sem asfalto na Vila Eutália onde morávamos até 1 anos atrás seria muito mais interessante do que essa de então, pois lá podíamos descer a ladeira em carrinhos de rolimã sem o perigo de sermos atropelados por trólebus ou automóveis barulhentos.

Numa dessas andanças e divagações me chamou a atenção uma vitrine onde uma jovem arrumava roupas, bolsas e sapatos em manequins estáticos.

Olhei através do vidro, mas nem os manequins nem a jovem vitrinista perceberam a minha presença, somente eu percebia meu reflexo no vidro, distorcido e misturado aos manequins estáticos que adquiriam expressões de desdém. Senti um repentino calafrio quando percebi que minha presença entre eles era simplesmente despercebida pelos manequins e pela moça que continuava seu trabalho sem perceber a mim e aos manequins que “sorriam” um sorriso sarcástico, impiedoso e perdido, simplesmente ignorando minha agônica decepção.

Passaram-se mais de 50 anos desse fato e minha percepção de mim mesmo já não é a mesma, já não há mais decepção quando minha presença é despercebida, muito menos agonia, apenas um leve fio de tristeza. Tristeza por não ter feito o suficiente para ser percebido, pelos que me cercam, com a mesma lente que me percebo.

Mas uma questão me faz estremecer mais uma vez: será que eu me percebo como realmente sou?

Toda questão vem acompanhada de uma resposta, mesmo que seja a mais infantil de todas.

Quando fui criado, simples e ignorante, era extremamente fácil de ser percebido pelo simples fato de ser simples. Ironicamente não poderia me perceber pois que, sendo ignorante, não tinha sentidos que pudessem me fazer perceber a mim ou a outrem, assim como a mocinha da vitrine da Rua Augusta.

Hoje já não sou tão simples como outrora, sou um ser complexo, multifacetado pelas múltiplas experiências vividas nessas múltiplas idas e vindas nesse planeta e nessas múltiplas vitrines onde um simples vidro nos impede a percepção das múltiplas interligações entre “o dentro e o fora” de múltiplos ambientes.

Essa tristeza que me invade me faz refletir e questionar a cada dia e, a cada dia as respostas são diferentes. Será que é porque a cada dia percebo a vida com uma lente diferente ou com a percepção intuitiva de uma das multifacetas que se deixa transparecer, como um manequim estático, através do vidro de uma vitrine?

Quando a paz virá apaziguar esse conflito multipersonalístico que corre revoltoso como uma poderosa corrente marítima sob as águas plácidas de um mar aparentemente calmo?

Quando se quebrará o vidro da vitrine que distorce a percepção do ser?

Quando poderei perceber o ser integral que sou?

Quando será?


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