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Capítulo 2: A lista de critérios e a minha primeira cicatriz

Reger o coral de jovens aos 16 anos foi um dos momentos mais bonitos da minha juventude. Quando eu subia naquele altar, soltava a voz e via…

mulheres que escrevem · 2026-07-08 00:35 · 0 claps · 2.8 min read
#relacionamentos #religião #preconceito
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Capítulo 2: A lista de critérios e a minha primeira cicatriz

Reger o coral de jovens aos 16 anos foi um dos momentos mais bonitos da minha juventude. Quando eu subia naquele altar, soltava a voz e via aqueles jovens cantando sob a minha liderança, eu sentia que estava no lugar certo. Eu era a menina “povão”, extrovertida, cheia de amigos. Por fora, tudo parecia perfeito.

Mas a verdade é que, nos bastidores da igreja, existia um tribunal silencioso. Um tribunal que avaliava as meninas não pelo coração delas, mas pelo sobrenome e pelo status da família. Eu não sabia, mas o meu sonho de ter uma família estava prestes a bater de frente com a rigidez dos critérios humanos. E a pancada deixaria a minha primeira cicatriz.

Depois de assumir o coral e começar a trabalhar de fato na obra de Deus, muitas coisas começaram a acontecer. Na igreja, eu vivia uma bênção: sorrisos e alegria. Em casa, o cenário era de tristeza, nervosismo e tensão. Minha vontade era passar o tempo todo lá na igreja.

Quando chegava o quinto dia útil do mês, eu já entrava em desespero. Eu sabia que meu pai não voltaria para casa se não fosse bêbado e agressivo. Ele sempre foi um bom homem — tanto que até hoje somos grandes amigos — , mas, na época, a bebida o transformava. Minha única defesa era proteger a minha mãe das agressões. Para uma menina de apenas 16 anos, carregar esse peso era doloroso demais.

O coral foi aumentando e o tempo foi passando. Como eu havia sido ensinada, chegou o momento em que eu deveria começar a orar pelo tão sonhado “varão”. Mas como fazer isso? Segui a cartilha: jejum, oração, escola bíblica dominical, campanhas e mais campanhas. E sim, ele apareceu.

Vamos aos requisitos dele: filho de obreiro, músico, cantava também e estudava. Parecia o pacote perfeito. Porém, como comentei no capítulo anterior, a perseguição começou justamente porque eu não me encaixava em um dos requisitos invisíveis da igreja: o meu pai não era crente.

Mesmo com suas lutas, meu pai permitiu o namoro e nos deixava conversar em casa todas as quartas-feiras. Sair de casa para passear? Nem pensar. Nossa rotina era de casa para a igreja. Nas escalas dos grupos de louvor, eu precisava estar em casa impreterivelmente até as 23h. Isso quando meu pai estava sóbrio. Quando ele bebia, a noite virava uma batalha: ele mandava o rapaz ir embora, me mandava entrar e a confusão começava.

O Preconceito

Lembro da minha primeira visita à casa da minha sogra como se fosse hoje. Ela foi preparar o chimarrão e virou a erva toda no chão. Ela me olhou friamente e disse: “Limpa! A nora boa é aquela que lambe até o chão que a sogra pisa”. Fiquei completamente sem jeito. Para piorar, todos na sala sorriram da situação. Ali começou o meu calvário.

Em outro dia, ela disparou sem nenhum pudor: “Meu filho deveria ter escolhido namorar a filha do pastor”. O detalhe mais doloroso? A filha do pastor, na época, era a minha melhor amiga.

E, por fim, como era de se imaginar, esse namoro teve um fim depois de uma situação muito triste. Meu pai, embriagado, empurrou meu namorado para fora de casa e o mandou embora. O rapaz, é lógico, terminou o namoro comigo imediatamente, para a alegria da família dele.

Para rasgar ainda mais a minha tristeza, o grupo de louvor que eu tanto admirava e onde eu tanto aprendia resolveu me retirar das escalas. A desculpa deles? Disseram que o meu pai era agressivo e que poderia ser um risco me ter ali.

Feche os seus olhos e imagine a cena… Uma menina de 16 anos, cabelos longos e escuros, que usava apenas saia comprida e não fazia a sobrancelha — totalmente dentro de todos os critérios da doutrina da época — sentada no chão do quarto, com as mãos apertadas contra a boca, chorando escondida. Eu abafava o choro com todas as minhas forças para que o meu pai não ouvisse o tamanho da dor que eu estava sentindo.


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