Entre Pontes e Abismos
Eu costumava caminhar em linha reta. Era mais simples assim: um ponto, depois outro, e o caminho se fazia claro. Mas um dia, percebi estar…

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Entre Pontes e Abismos
Eu costumava caminhar em linha reta. Era mais simples assim: um ponto, depois outro, e o caminho se fazia claro. Mas um dia, percebi estar sempre entre dois mundos. E talvez minha missão nunca tenha sido seguir adiante, mas atravessar de um lado ao outro. Ser ponte.
Foi numa manhã de terça, daquelas mornas e vagas, que vi o professor de filosofia debatendo com o sargento reformado na lanchonete da esquina.
— A fé é um delírio bem organizado! — Exclamava o professor, com os óculos tortos escorregando pelo nariz.
— Delírio é achar que sem disciplina um povo sobrevive — rebateu o sargento, batendo a caneca de café no balcão como quem assina um manifesto.
Eu, no canto, segurava minha Bíblia surrada com a mão esquerda e um livro de física quântica com a direita. Meus olhos iam de um ao outro, como num jogo de pingue-pongue sem fim. Será que eles percebem que estão dizendo o mesmo com outras roupas?
A fé que tenho, aprendi a guardar para mim diante de Deus (Rm 14.22a) — como um lume pequeno, constante. Mas não como um segredo. Como um altar.
Já estive em auditórios onde os aplausos eram para o progresso, e fui questionado por citar o nome de Cristo. Já estive em cultos em que sugerir um diálogo com a ciência soava quase como heresia. No entanto, eu os amo a todos. Porque todos eles tocam uma parte do que sou. E mesmo quando se repelem, eu os compreendo. Não sem dor.
Certa vez, num congresso sobre tecnologia, alguém me perguntou:
— Como você concilia fé e razão?
Sorri e respondi:
— Com respeito. Elas são as duas margens de um mesmo rio. E eu… caminho sobre a ponte que elas sustentam juntas.
O homem me olhou como se eu tivesse dito algo em sânscrito.
Há dias em que me sinto exausto. Ser ponte é resistir ao peso de muitos pés que passam por cima sem olhar para os lados. Ser ponte é ser chão e céu, estrutura e invisível. Quem olha para a ponte, afinal?
Mas há também os dias de glória. Quando vejo um jovem que cresceu no ceticismo levantar a cabeça e dizer:
— Talvez haja algo além.
Ou quando uma senhora de oração sorri ao ouvir sobre os últimos avanços da inteligência artificial e responde:
— Deus se revela de muitas formas, não é?
— Sim, é!
Outro dia, fui convidado a falar numa escola pública. Tema: “Fé e Educação”. O ambiente era tenso. Alguns professores franziram a testa. Os estudantes cochichavam. Comecei com uma história, não com doutrina. Falei do menino que duvidava de tudo, até que encontrou um sentido não em respostas, mas no caminho de perguntas honestas.
— O problema não é duvidar — disse eu. — É desistir de perguntar.
Ali, naquele silêncio atento, senti que uma ponte havia se erguido. Por instantes, o abismo recuou.
Há algo de divino em aceitar que não precisamos convencer ninguém. Somente viver com inteireza.
Como disse Paulo:
— Bem-aventurado é aquele que não se condena naquilo que aprova (Rm 14.22b).
Aprovo o diálogo. A escuta. O confronto respeitoso. Aprovo a beleza da dúvida e a coragem da fé.
Hoje, enquanto escrevo, ouço os gritos da rua — protestos, buzinas, ideias em guerra. Fecho os olhos e respiro fundo.
Não estou aqui para erguer muros. Estou aqui para sustentar travessias.
E mesmo que poucos percebam… continuo sendo ponte.
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