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O Polegar e a Página

Sabe aquela luzinha azul? Pois é. Está em todo canto. Um zumbido elétrico, chato, prometendo mundos e fundos (que nunca entrega). Eu fico…

Cláudia Catherine - Molho Inglês · 2025-11-16 11:07 · 0 claps · 2.2 min read
#leitura #livros #tela
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O Polegar e a Página

“That moment when you’re reading a book…” by mendhak is licensed under CC BY-SA 2.0.

“That moment when you’re reading a book…” by mendhak is licensed under CC BY-SA 2.0.

Sabe aquela luzinha azul? Pois é. Está em todo canto. Um zumbido elétrico, chato, prometendo mundos e fundos (que nunca entrega). Eu fico olhando os polegares da turma: scroll, scroll, scroll. Um negócio hipnótico, sem fim. E eu, cá com meus botões: “Meu Deus do céu.” A gente migrou. Simples assim. Trocou a santa paz do papel pelo tumulto da tela.

Dia desses, fui à livraria. (Sim, eu ainda vou. Algum dinossauro tem que sobrar, né?). Fui e comentei com a moça do caixa que o povo não para mais pra ler. Pausar, sabe? Fez-se um silêncio de missa. Parecia que eu tinha xingado a mãe dela. Ela, coitada, só ajeitou o óculos. “A gente vê.”

E é uma baita tristeza. Não é nem pelo romantismo da coisa, não. É que o livro te dá um sossego. Uma massagem no cérebro que aquele tiroteio de like e dancinha simplesmente não dá. Meu médico, um sujeito sem paciência pra frescura, mandou a real no inverno passado: “Larga o Rivotril. Lê um capítulo de qualquer troço que não brilhe.” O homem tem razão.

Mas aí vem a desculpa clássica. A universal: “Ah, não tenho tempo.” Sério? Aí você olha o celular do sujeito: três, quatro horas de tela. Tempo pra ver lixo digital, tem. Pra ficar fuçando a vida alheia, tem. O pulo do gato não é achar tempo. É fazer tempo. Na marra. Meu truque é esse. É uma rebeliãozinha particular. O livro vai na bolsa. Na fila do banco, no ônibus… Meu polegar fica quieto no canto dele.

Minha grande rebelião é de pijama: o alarme toca e, antes que o zap comece a gritar, eu pego um romance. Dez minutinhos. Eu e o café quente. O dia já começa ganho.

E tem a tal da “culpa de reler”. Que baita besteira. Uma professora minha, das antigas, me falou: “Gostou? Lê três, quatro vezes. Qual o problema? Vai gastar?” E é na segunda, terceira leitura que a ficha cai. É que nem ver filme de novo. Aliás, engraçado… Antigamente, eu torcia pela filha rebelde. Agora, dou razão pra mãe cansada. Ossos do ofício de envelhecer.

E audiobook? Putz. Eu achava que era trapaça. Jogo sujo. Mas uma amiga minha, escritora, que não tem tempo nem pra respirar, me falou: “É só outra porta pra mesma casa”. E é. Lavando louça, no trânsito… A voz do narrador te bota na história. Parece a mãe da gente lendo antigamente. Bom demais.

Mas o melhor conselho, a dica de ouro, foi essa: você não precisa terminar o livro. Isso mesmo. O livro é um porre? Larga. Ninguém vai ser preso por abandono de livro. Não existe “Polícia Literária”. Minha vizinha, que é prática até pra plantar samambaia, tem uma regra: “Tem menos de 50? Dá 50 páginas. Tem mais? Subtrai sua idade de 100.” Não gostou até ali? Tchau, obrigada. A vida é curta demais pra obrigação chata.

Então, pega um. Qualquer um. Velho, novo, emprestado. Manda essa luzinha azul catar coquinho no bolso. Começa a sua rebelião silenciosa. A cabeça, o coração e o seu estresse… Eles vão agradecer.

Um pinguinho de sossego, afinal. E cabe na mão. Coisa boa.


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