A casa
Ela sabia exatamente como ele tomava seu café.
A casa
Ela sabia exatamente como ele tomava seu café.
Duas colheres de açúcar, dois dedos de leite.
O horário de regar as plantas era sempre o mesmo.
A temperatura para assar o bolo de laranja.
O formato exato que o corpo deixava na poltrona surrada.
O cheiro dos cigarros de palha largados pelos cantos da casa.
Cuidadosamente varridos, sempre dos mesmos cantos escuros. Era quase como se a vassoura soubesse seguir seu caminho sozinha.
Depois, esfregar com o sabão em pó. Que sempre fazia com que seu nariz fungasse.
Espantar as moscas da cozinha, que faziam sua trajetória diária ao redor das bananas na fruteira.
Às 15h35 o cachorro preto manco passava ganindo na frente do portão.
Dali mais aproximadamente uma hora e meia, dois programas de rádio que listam mais uma vez quantas mulheres apanharam do marido (ou morreram) esse mês, ele chegaria em casa.
Tomaria banho, comeria o feijão entardecido do fogão.
E ambos em silêncio, mastigariam o pão fresco.
Céu escurecido, cheiro de cânfora. O ranger da cama alta e um beijo estalido na bochecha.
E enquanto ela dormia, via o matagal, impregnado com um cheiro de curral, esterco, café moído e solidão, que não tem cheiro, mas aperta os ossos.
A igrejinha, lustra móveis, naftalina e fraldas de pano. Descascam os dedos como laranjas.
A presença de um pai sem rosto, e uma mãe fantasma. Tanto acolhiam como sufocavam.
Às vezes, quando os ouvidos estavam bem abertos, o latido calcificado dos cachorros no cemitério debaixo da mangueira. Derrubaram na terra um cheiro podre e doce.
Apertavam o nariz quase como se se afogasse na terra.
No dia seguinte, tudo outra vez.
Conversa no portão, a vizinha bate e chave na grade cinzenta na cadência da voz, o marido vai enfartar de novo, semana passada bateu cabeça na pia da cozinha.
O carro de churros passou às 17h e a bola de futebol balançou o muro do quintal até as 18h.
O gato laranja da vizinha toma sol na calçada.
Uma vida silenciosa, como a noite.
Depois de passar o café, ouvir o rádio, descascar a laranja, mastigar o pão.
Depois que o corpo encontra seu lugar na cama mais uma vez. Os calombos do colchão são um conforto de familiaridade.
Também a noite fala.
Num dia a água ferve até evaporar.
No outro, o bolo queima até virar carvão no forno.
Acabam-se as pilhas do rádio, mas, por algum motivo, ele continua tocando.
As laranjas se esquecem de serem descascadas.
A comida não está mais esperando no fogão.
O pão não quer mais ser mastigado.
O pôr do sol te confunde.
Os cantos escuros da casa se esqueceram das vassouras.
Agora eles só aumentam, cada dias mais próximos de engolir o pé de manda, as ossadas, o gato do vizinho, a panela no fogão, o rádio, as laranjas e os buracos do colchão.
Eles te perguntam.
E você, quem é?
E seu marido, já voltou?
Mas ninguém mandou avisar seu pai, que você se casaria com um tipo desses?
Se esta é sua casa, então onde está o banheiro?
Se esta é sua casa, por que você está sozinha?
Se é seu marido, como não lhe reconhece o rosto, o sexo.
Como ele pode não lhe dar filhos? Se está remendada, é por que?
Como poderia você não saber.
Onde estão os pratos, os copos.
Quem regou as flores.
Quem fechou as portas, e apagou as luzes.
Se foi você, peço que me diga.
Preciso saber, eu me esqueci.
Se Deus me abandonou.
Não era verdade, o leite cru, a mata e a cidade?
Se é verdade, então por que Deus não me responde?
Me mostre todos os cantos dessa casa, até essa senhora no espelho.
É você.
Mas eu não sou ninguém, ainda não me deram um nome.
Será que alguém poderia me dar um nome? Nada existe nessa terra antes de ser nomeada.
Você do espelho, sabe mais do que eu sei.
De quem é essa casa e quem a construiu?
Quem me abandonou aqui?
Não conheço as manchas desse teto e nem o cheiro desses lençois.
Quem fez esse cenário todo, estava tentando me enganar.
Foi você quem fez.
Disse a senhora, do meio das sombras.
E ninguém aguenta mais essa lamúria.
Se eu te respondesse, como se lembraria?
Vou te contar, hoje nasceu em São Paulo, ontem em Minas Gerais.
E amanhã, quem sabe?
Você bem que foi feliz, se quiser ir embora, peça.
Ela pediu, e pediu, até ficar sem voz.
Pediu até escurecer.
Mas você me promete, que eu fui boa?
E que, daqui, vou estar sossegada, saciada e quente.
Eu prometo.
Então ela pediu um pouco mais.
E quando escureceu, cessou.
Dormiu.
Sonhou.
Boa noite, que Deus lhe abençoe.
메타데이터
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