Mulheres na história da programação
Em fevereiro de 1946, o mundo conheceu uma invenção que mudaria para sempre a forma como a humanidade resolve problemas complexos: o ENIAC (Electronic Numerical Integrator And Computer), o primeiro computador eletrônico de uso geral e programável. A máquina era gigantesca, ocupava uma sala inteira e possuía cerca de 18 mil válvulas. Porém, sua importância ia além do tamanho, pois marcou o início da era digital.
O que os jornais não mostraram na época é que seis mulheres foram as responsáveis por programar essa obra-prima da computação: Jean Jennings Bartik, Marlyn Wescoff Meltzer, Ruth Lichtman Teitelbaum, Betty Snyder Holberton, Frances Bilas Spence e Kay McNulty Mauchly Antonelli.
Durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos contrataram mulheres com formação em matemática para atuarem como “computadores humanos”, encarregadas de calcular trajetórias de mísseis e realizar operações matemáticas complexas para o Exército. Foi assim que as seis programadoras do ENIAC entraram em cena.
Mesmo com um trabalho técnico extremamente sofisticado (envolvendo lógica booleana, criação de tabelas de funções e manipulação direta de hardware) elas foram, por décadas, ignoradas nos créditos da invenção. Seus nomes não apareciam nas reportagens, fotos oficiais nem nos livros de história.
As Garotas do ENIAC não foram as únicas mulheres a moldar a história da tecnologia. Devemos lembrar de outras pioneiras como:
- Ada Lovelace (1815–1852) — Considerada a primeira programadora do mundo, escreveu o primeiro algoritmo da história, pensado para ser executado pela Máquina Analítica de Charles Babbage.
- Grace Hopper (1906–1992) — Criadora da linguagem de programação COBOL, ela também cunhou o termo “bug” para erros de software, após encontrar uma mariposa presa em um relé.
- Betty Holberton — Uma das garotas do ENIAC, também foi responsável pelo desenvolvimento de conceitos fundamentais de linguagens de programação e pelo design do teclado QWERTY moderno.
Mais tarde, nos anos 1970 e 1980, as cientistas da Xerox PARC, como parte de uma equipe que incluía homens e mulheres, trabalharam em inovações cruciais como interfaces gráficas com janelas, ícones, menus e ponteiros, além de e-mails colaborativos, planilhas e conectividade em rede.
Outra história poderosa de mulheres programadoras e matemáticas é contada no filme “Estrelas Além do Tempo”, baseado no livro de Margot Lee Shetterly. O longa retrata a trajetória real de Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson, três cientistas negras que trabalharam na NASA durante a corrida espacial, nos anos 1960.
Sob o peso das leis de segregação racial e do machismo da época, essas mulheres foram fundamentais para os cálculos que levaram John Glenn a se tornar o primeiro astronauta americano a orbitar a Terra, em 1962. No início de suas carreiras, enfrentavam salas separadas, banheiros segregados e salários inferiores, mesmo com capacidades técnicas excepcionais.
O mais marcante é que elas vislumbraram o futuro da computação antes de muitos homens da área: aprenderam a programar o IBM recém-instalado na NASA, entendendo que a revolução tecnológica exigiria também uma nova linguagem da programação.
Apesar de toda essa contribuição, a história da tecnologia foi escrita, em sua maioria, por e para homens. As mulheres foram empurradas para os bastidores, mesmo quando ocupavam os cargos técnicos mais complexos. Nas décadas seguintes, com o crescimento da indústria de tecnologia, as barreiras de entrada aumentaram e as mulheres se viram cada vez mais excluídas.
Entretanto, isso está mudando, iniciativas como PrograMaria, PyLadies e Mais Mulheres em Tech, além de políticas corporativas e movimentos sociais, vêm resgatando essa memória e abrindo caminhos para novas gerações de mulheres programadoras.
Referências:
- Filme: Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures, 2016) — dirigido por Theodore Melfi. Indicado ao Oscar, mostra como três cientistas negras foram fundamentais para a missão de John Glenn.
- Documentário: The Computers (2014) — sobre as Garotas do ENIAC.
- HQ: Ousadas — Mulheres que só fazem o que querem, Vol. 1 e 2 — Pénélope Bagieu (Zahar). Traz biografias ilustradas de mulheres que mudaram a história em diversas áreas, inclusive tecnologia.
- Livro: Mulheres Incríveis — Kate Schatz (Editora Astral Cultural). Traz 44 perfis de mulheres extraordinárias, numa coleção de histórias que começa em 430 antes de Cristo e alcança os dias de hoje.

메타데이터
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