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Quando o mundo líquido de Bauman, uma música d’O Terno e a escrita digital se encontram

Lancei um desafio para meus companheiros/alunos da disciplina de Teoria e Prática de Escrita Digital, do curso de Escrita Criativa…

Marison Ranieri · 2025-04-04 13:17 · 0 claps · 2.9 min read
#bauman #mundo-líquido #escrita-digital #melhor-do-que-parece #byung-chul-han
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Quando o mundo líquido de Bauman, uma música d’O Terno e a escrita digital se encontram

Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês

Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês

Lancei um desafio para meus companheiros/alunos da disciplina de Teoria e Prática de Escrita Digital, do curso de Escrita Criativa: conectar a música “Melhor do que parece” (da banda O Terno), o conceito de modernidade líquida de Bauman e, ao mesmo, compartilhar com o mundo suas impressões sobre a escrita digital. Trago aqui um resumo com alguns destaques importantes das respostas que recebi das alunas Maria Ceci e Janete Nogueira.

Maria Ceci enfatizou como a escrita digital dentro do contexto do mundo líquido é volátil, e a conectou com as mudanças incessantes que dificultam a percepção de ameaças e oportunidades.

“Diante do ‘mundo moderno’ atual, somos conectados por mudanças, que nos faltam tentáculos para detectarmos as ameaças, em tempo hábil.”

Quando desafiada a relacionar esse conceito com a música, ela enfatiza a insatisfação do eu lírico e a busca por um prazer perdido, principalmente nos versos “Será que fiquei viciado em novidade e agora o tédio me enlouqueceu?” e “Eu não consigo ouvir um disco ou ver um filme e um livro eu claramente não vou ler”.

Sobre a escrita digital, ela destaca os desafios do excesso de informações, o impacto dos algoritmos e a necessidade de um olhar crítico diante da avalanche de conteúdos irrelevantes.

“Algumas plataformas fornecem um calhamaço de informações, impondo e postando material que não acrescenta, são “achologistas” de plantão. Não há outro jeito, senão ter um olho bem aberto e uma mente antenada para se desviar das margens, que levam a nada.”

Destaco também sua otimista conclusão diante do tema:

“Só podemos afirmar que os ganhos da ciência e tecnologia, notadamente na escrita digital, são surpreendentes. Não há como regressar, o que temos como fundamento é o avanço, o desenvolvimento e descobertas no campo digital.”

Em um sentido similar, Janete Nogueira foca na ideia de excesso e transitoriedade como características centrais do mundo líquido. Em uma abordagem distinta, destaco sua menção a Byung-Chul Han em seus escritos *No enxame — Perspectivas do digital e A crise da narração*.

“A questão atual talvez seja o excesso, os vários excessos. E um deles é o de informação. Não que essa seja uma conclusão minha, mas me parece razoável. Byung-Chul Han […] conduz a ideia de que, a partir de um determinado ponto, a informação não é mais informativa e passa a ser deformadora, nos privando da capacidade de distinguir o essencial do não essencial e nos fixando num eterno presente, pela prioridade dada à arbitrariedade e à duração de curto prazo.”

Byung-Chul Han, filósofo alemão

Byung-Chul Han, filósofo alemão

Janete propõe que a escrita, especialmente a literária, pode ser um refúgio contra a fragmentação criada por essa deformação mencionada por Byung-Chul Han, nos trazendo de volta o “desejo perdido e a paciência para curtir”, em um aceno à letra da música. Em um exercício de reflexão ante a própria escrita, ela alerta que vislumbrar a escrita como esperança pode ter um viés utilitário. Sobre isso, ela conclui:

“Então, talvez o melhor seja desconsiderar tudo isso e torcer para que um dia a gente possa conferir à escrita, em qualquer meio, o direito de ser ‘apenas’ arte e, a nós, o de apreciá-la ‘somente’ por isso, o que certamente pode aliviar o peso de estar nesse mundo líquido, pois como ensinou Virgínia Woolf, em seu Perambular pela rua, ‘o olho possui essa

estranha propriedade: só descansa na beleza’. ”

Fico satisfeito com a provocação do exercício porque vejo que, a partir de uma convergência das duas (o excesso de informação, numa inspiração direta de Bauman e a partir da música), elas trouxeram uma perspectiva diferenciada sobre o tema, o que é esperado e estimulado para um ambiente acadêmico.

Maria Ceci é enfermeira e escritora, com 4 livros de poesia publicados. Nascida em São José do Egito, começou a escrever aos 9 anos e sempre conviveu com a poesia.

Janete Nogueira nasceu no sertão e reside no litoral. Possui formação em Direito e trabalha como servidora pública. Prefere ler a escrever. Mas escreve.


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