Passarinha
Olho para a parede da minha sala que há anos está com uma infiltração e uma rachadura. Como a intimidade de um corpo à mostra que expõe os…
Passarinha

Olho para a parede da minha sala que há anos está com uma infiltração e uma rachadura. Como a intimidade de um corpo à mostra que expõe os ossos, a fissura na minha casa escancara minhas particularidades. O interior de um lar sempre tem seus segredos.
No ano de 2019 comprei um ar condicionado do meu irmão e o encostei num canto da minha sala pensando na troca do meu que na ocasião estava ultrapassado. Esse dispositivo passou o primeiro semestre inteiro e uma parte do segundo de 2020 ocupando um bom espaço bem na entrada da minha casa. Creio que nos mês de outubro o instalei o e me dei conta do quanto ele era grande, e como demorei para tomar uma simples atitude: contratar alguém para colocá-lo.
Minha ideia era aproveitar o ensejo da troca do ar e já arrumar uma infiltração e rachadura da parede. Conversei um amigo da família para começar o serviço. Tirei todos os meus objetos da sala, retirei meu tapete mas não fui adiante com a pequena obra. Hoje, 11/01/2021, já em pleno ano novo, estou com minha sala sem tapete, sem enfeites e com a fisga ali.
O que me faz ser tão apática em atitudes? Minha avó Tata diz que meu avô Milton era passarão, termo que denominava sua atitude de sempre deixa passar algo, sempre deixar para depois. Acho que sou uma passarona, ou se quiser pegar mais leve, uma passarinha.
Essa passarinha se dedica muito ao trabalho. Dificilmente atrasa contas ou se atrasa em compromissos com os outros. Fica preocupada de deixar os outros a esperando. Se desgasta emocionalmente para que o relógio não a traia, correndo mais do que deveria. Mas quando diz respeito a algo dela, deixa de lado. Sempre posso deixar pra amanhã o que deveria ter feito ontem.
Será que puxei isso do meu avô? Será que isso tem a ver com minha total disponibilidade para o outro sem me valorizar? Tenho uma pessoa muito importante na minha rede de afetos que me diz que precisa trabalhar comigo a questão da minha aceitação em receber elogios. Ontem estava ao seu lado ouvindo um áudio emitido por uma amiga querida. Neste áudio, ela me elogiava devido a uma atitude profissional que tive. Não notei nada enquanto ouvia esse áudio, mas Rodrigo me disse que balancei a cabeça não aceitando o elogio de minha amiga. E, de novo, me disse: “Juliana, temos que trabalhar isso em você”.
A demora em resolver a rachadura na parede talvez seja o espelho de alguma fissura que está dentro de mim, precisando também ser reparada. Abro meu peito e separo o pincel, a tinta, a argamassa. Estou pronta para recomeçar.
메타데이터
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