O Politeísmo como Fetiche Religios.
O politeísmo ao qual tanto nos dedicamos é fruto orgânico de uma espiritualidade espontânea ou pode ser, como tantas outras coisas no…
O Politeísmo como Fetiche Religioso
O politeísmo ao qual tanto nos dedicamos é fruto orgânico de uma espiritualidade espontânea ou pode ser, como tantas outras coisas no nosso ordinário mundo, resultado de construções idealizadas, sujeitas a necessidades econômicas e comerciais presentes em todas as relações humanas submetidas ao capitalismo? Talvez esse seja um tema que poucos tenham interesse em debater, pois joga um balde de água fria sobre todos que se encantam com o mundo da espiritualidade “pagã”. Inclusive eu mesmo, quando escrevo sobre isso, sinto-me aos poucos desiludido e sei que tocar em certos temas é desagradável e possivelmente infrutífero, mas ainda assim necessário — talvez não para todos, mas certamente para alguém.
Vou tentar trazer fontes que contribuam para a reflexão sobre o tema, embora tenha consciência de que fontes textuais não sejam tão apreciadas nos círculos em que nos encontramos. Ainda assim, considero-as indispensáveis para a construção de um argumento minimamente relevante. Vou separar o texto em algumas partes para torná-lo o mais didático possível, imaginando que possa ser um pouco cansativo para alguns, mas que certamente fará sentido ao final.

Nossa religião tem como fundamento uma necessidade comercial?
Passamos a vida acusando, com razão, o modo predatório como a Igreja explora a “fé” alheia, prometendo milagres, curas e alívio em troca de dinheiro e dízimos. Em particular, o povo brasileiro, já tão marginalizado e precarizado por um Estado distante e propositalmente ineficiente — que nunca proporcionou expectativas reais de melhora — vê-se, sobretudo nos últimos anos, cada vez mais desiludido com a vida. Não se trata de um problema recente, mas secular.
Nesse contexto desesperançoso, todos buscam, com razão, formas de sobreviver. E é justamente quanto maior o número de pessoas necessitadas que mais se cria um terreno fértil para o estelionato. Os mais experientes nisso são as igrejas, nas quais identificamos, por meio de discursos como a teologia da prosperidade, promessas de milagres, pânico moral, cura etc., estratégias para instaurar uma influência cada vez mais enraizada — o que é estranho de imaginar em um país onde a Igreja exerce domínio desde a conversão forçada e o extermínio da população indígena, com grande apoio e influência dos jesuítas desde a invasão do Brasil — , tendo como principal propósito o lucro. O melhor negócio do Brasil é abrir igrejas. Nada disso tem a ver com espiritualidade, mas sim com o lucro que uma empresa isenta de impostos consegue extrair do sofrimento dos mais precarizados.
Dito isso, pensamos ingenuamente que somos melhores, mais conscientes, mais éticos, mais valorosos e que, por consequência, não faríamos o mesmo em hipótese alguma. Contudo, para onde quer que eu olhe, vejo exatamente a mesma coisa, sem distinção. E convido qualquer um a fazer esse exercício de imaginação: quantas pessoas existem nas redes sociais prometendo os mais diversos trabalhos milagrosos, amarrações amorosas, prosperidade financeira e, em alguns casos, até salvação, em troca de dinheiro? Uma pesquisa rápida em lives do TikTok ou perfis no Instagram revela isso facilmente.
Não somos mais bonitos, morais, éticos ou inteligentes do que pastores e padres em suas instituições seculares e riquíssimas. Somos apenas uma escala menor, reproduzindo a mesma lógica capitalista de exploração das dores humanas mais básicas, prometendo coisas que sabemos que não podemos entregar. E, se por acaso acreditamos cegamente em nosso poder mágico pessoal de promover milagres amorosos, curas etc., não seríamos tão fundamentalistas quanto os cristãos que criticamos?
Sou oraculista há mais de dez anos e vejo o oráculo como uma forma de orientação junto às divindades, algo sagrado e essencialmente introspectivo. Já dei aulas de tarô, algo que não faço mais devido à irresponsabilidade com que muitas pessoas lidam com isso. Contarei brevemente essa experiência. Quando lecionava, orientava um período de três anos no qual o iniciante deveria utilizar o tarô apenas para si mesmo, evitando leituras para outras pessoas devido à falta de experiência. Esse período seria uma fase de introspecção, estudos e absorção da linguagem simbólica que o oráculo exige, além de um amadurecimento da própria espiritualidade e das responsabilidades para com seus respectivos deuses e guias. Orientar a vida de outra pessoa sem conhecimento profundo e sem estar amparado pela espiritualidade é uma irresponsabilidade e, de certo modo, uma perversidade, pois trata-se de alguém vulnerável, necessitando de ajuda e orientação, e nós, enquanto oraculistas, somos plenamente responsáveis por aquilo que dizemos. Orientamos, não palpitamos. E isso exige responsabilidade, comprometimento e conhecimento! Pois bem, após toda essa minha “palestrinha”, o que aconteceu? Pouco mais de um mês depois da aula de tarô, minha aluna ignorou completamente minhas orientações e foi vender de imediato tiragens no Twitter como se tivesse ampla experiência — por um preço irrisório, claro. E isso acontece o tempo todo nas redes sociais, não sendo um caso isolado; basta procurar por dois minutos por aí.
Todas as nossas relações foram submetidas à necessidade de comercialização dos trabalhos espirituais. Cada bolha do algoritmo, cada perfil, tem como finalidade vender algo: mapa astral, trabalho religioso, cura, feitiço, ritual coletivo etc. Estreitamos nossas relações de solidariedade e as convertemos em relações comerciais e de troca. Um bom negócio — não tão lucrativo quanto abrir uma igreja, mas ainda assim um bom negócio — operando sob a mesma lógica.
Max Weber, no início do século passado, explicou como a ética protestante moldou as relações humanas em relações metodicamente comerciais, a ponto de reformular nossa própria ética. É interessante notar que a ideia de “vocação”, que em Weber se refere à vocação profissional como elevação ética e religiosa, hoje não nos é estranha no paganismo, embora absorvida sob uma ótica mais mística: nossa vocação é ser bruxa ou mago, proporcionar feitos que possam ser convertidos em lucro. A lógica é bastante semelhante, pois a vocação religiosa torna-se também vocação profissional. Não há distinções muito claras feitas por quem está inserido nesse meio e se percebe como pertencente a essa autoimagem religiosa.
“O puritano quis trabalhar no âmbito da vocação; e todos fomos forçados a segui lo. Pois quando o ascetismo foi levado para fora das celas monásticas e introduzido na vida quotidiana e começou a dominar a moralidade laica, desempenhou seu papel na construção da tremenda harmonia da moderna ordem econômica. Esta ordem está hoje ligada às condições técnica e econômica da produção pelas máquinas, que determina a Vida de todos os indivíduos nascidos sob este regime com força irresistível não apenas os envolvidos diretamente com a aquisição econômica. E talvez assim a determine até que seja queimada a última tonelada de carvão fóssil. Na visão de Baxter, o cuidado para com os bens materiais deveria repousar sobre os “ombros do santo como um leve manto, que pode ser atirado de lado a qualquer momento” Mas o destino quis que o manto se tornasse uma prisão de ferro. Uma vez que o ascetismo se encarregou de remodelar o mundo e nele desenvolver seus ideais, os bens materiais adquiriram um poder crescente e, por fim inexorável, sobre a vida do homem como em nenhum outro período histórico. Hoje, o espírito do ascetismo religioso, quem sabe se definitivamente, fugiu da prisão. Mas o capitalismo vitorioso, uma vez que repousa em fundamentos mecânicos, não mais precisa de seu suporte. Também o róseo colorido do seu risonho herdeiro, o Iluminismo, parece estar desvanecendo irremediavelmente, e a idéia de dever no âmbito da vocação ronda nossas vidas como o fantasma de crenças religiosas mortas. Onde a plenificação da vocação não pode ser diretamente relacionada aos mais altos valores espirituais e culturais ou quando, por outro lado, não precisa ser sentida apenas como uma pressão econômica, o indivíduo geralmente abandona qualquer tentativa de justificá-la.” — A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Max Weber. Pag 86
O politeísmo, essencialmente e filosoficamente contemplativo, religioso e sacro, foi substituído por uma bruxaria utilitária, sempre útil e necessária à lógica do lucro e do trabalho. Algo extremamente cristão-calvinista, que via a utilidade das coisas na medida em que pudessem proporcionar riqueza.

Nossa espiritualidade é uma vitrine da web espiritualidade?
Em um mundo globalizado e homogeneizado pela cristandade, a internet, em princípio, descentralizou bastante a voz hegemônica de ideias e pensamentos que antes comprávamos como verdade absoluta. Claro, isso em princípio; não podemos dizer que ainda é assim, pois sabemos — e não seremos aqui ingênuos — que o algoritmo, nas últimas décadas, é pago e, por consequência, quem detém o poder econômico mantém a soberania da própria voz.
Entretanto, no começo, as redes sociais democratizaram o paganismo, conectando pessoas de todos os lugares e vertentes, principalmente em países de dimensões continentais como o Brasil. Pessoas de vários estados tiveram a oportunidade de se identificarem como politeístas e de se organizarem para a construção de uma identidade cultural e religiosa. Os bruxos foram pioneiros nisso:
“A internet é outro fator que expandiu a bruxaria muito além de suas fontes esotéricas. Uma das reais surpresas da década de 1980 foi a emergência de uma forte conexão entre bruxos, alta tecnologia e cultura computacional. Esse relacionamento veio à luz em 1986, na edição revisada do livro de Margot Adler, Drawing down the moon. Ao realizar suas pesquisas entre bruxos e neopagãos a fim de atualizar seus resultados, Adler descobriu que “seus perfis profissionais são bastante incomuns, com uma porcentagem espantosamente elevada nos campos científicos, técnicos e computacionais”. Esse elo anteriormente desconhecido tem diversas implicações, uma das quais é que houve praticantes, entusiastas e simpatizantes da bruxaria circulando pelo mundo da alta tecnologia desde o começo — consequentemente, essas mesmas pessoas assistiram ao nascimento da internet. Os bruxos americanos, portanto, encontravam-se entre os primeiros a desvendar o poder da rede para interligar indivíduos isolados dentro de uma entidade que é maior que a soma de suas partes. A internet foi um elemento central para o desenvolvimento do movimento da bruxaria por duas razões: reforça a atitude de tipos culturalmente marginais em geral, permitindo a conexão entre pessoas que, de outro modo, permaneceriam isoladas umas das outras e, ao mesmo tempo, garantindo a privacidade e o anonimato de cada um desses indivíduos.” — História da bruxaria — Jeffrey B.Russell Brooks Alexander. Pag 231
Seria isso bom, certo? Seria, se não fosse o fato de sermos completamente dependentes da lógica que opera nas redes sociais, a qual é sensacionalista, vazia, limitada em seu discurso (veja o número de caracteres permitido na maioria, ou os vídeos curtos e virais), mercantilista e extremamente construída em cima de uma representatividade estética artificial. O que quero dizer com esse último ponto é: seguimos quem nos atrai esteticamente, seja pela aparência visual, seja por discursos que corroboram com ideias com as quais já nos identificamos previamente. Nesse sentido, promovemos celebridades que dependem do nosso like, e nós dependemos dos seus produtos. É uma troca comercial perfeita. Nenhuma dialética, discussão, debate ou oposição é permitida nessa lógica, pois isso destrói o propósito e a eficiência do algoritmo. Gostamos de acompanhar, no Instagram, fotos de rituais, histórias mirabolantes de magia, possessão e tudo o que é fantástico, pois isso nos afasta do ordinário, do cotidiano. Não é diferente do que ocorre nos cultos pentecostais ou nos filmes de terror que gostamos de assistir. Essa lógica nos coloca como protagonistas de um épico espiritual, e passamos a ver os influencers místicos como sábios, mestres etc. Desejamos nos consultar com eles, ser admitidos em seus círculos, seja pela quantia que for. Trocamos nosso dinheiro por um pouco da atenção daqueles que admiramos e promovemos. É assim que funciona, tanto no web paganismo quanto em toda realidade religiosa à qual o capitalismo submeteu.
No final do século passado, bruxos tradicionais já se preocupavam com a banalização que a internet traria para a integridade de uma construção religiosa. No livro A História da Bruxaria, o autor nos conta como uma bruxaria criada a partir da internet corrobora todos esses problemas que apontei anteriormente:
“uma das incompatibilidades entre a bruxaria tradicional e a bruxaria da cultura pop consiste em sua abordagem em relação à cultura dominante. A bruxaria da cultura pop é vaga o suficiente em estrutura e conteúdo para qualificar-se mais como um “estilo de vida” do que como uma “religião”. move-se continuamente na direção da aceitação social por meio de sua reiterada exposição pública alimentada pelas versões midiáticas do próprio movimento (frequentemente superficiais e sensacionalistas). os bruxos tradicionais, por outro lado, assumiram o compromisso de se fazer legitimar junto à sociedade como “uma religião entre outras religiões”, com identidade formal, status e proteção legal. nesse sentido, a emergência da “bruxaria como estilo de vida” da cultura pop distorce a imagem que os bruxos tradicionais desejam criar de si mesmos.” — História da bruxaria — Jeffrey B.Russell Brooks Alexander. Pag 242
E aqui entramos na ideia central: existe, de fato, um politeísmo em construção nos últimos anos, ou o próprio veículo que utilizamos para expressar nossa espiritualidade nos reduziu tanto, que, matamos todo o conteúdo existente e transformamos o politeísmo em uma casca vazia? Uma casca linda, fantasiosa, chamativa e, acima de tudo, lucrativa, mas que não expressa em nada a real natureza do politeísmo.
O conteúdo central do politeísmo são suas respectivas tradições. Não como algo centralizado universalmente, mas sim centralizado em sua própria perspectiva e contexto: helenismo é helenismo, kemetismo é kemetismo, candomblé é candomblé, etc., cada um operando dentro de sua própria respectiva tradição. Mas vemos isso? Não! Se, nas décadas passadas, bruxos tradicionais (dos quais tenho uma longa crítica) disputavam legitimidade com a onda web-bruxa que surgia, podemos dizer que a segunda ganhou unanimemente em relação aos tradicionais. De tal modo que perverteu, destruiu e se apropriou de todas as outras tradições existentes, tornando tudo muito lucrativo em um terreno fértil: a vitrine das redes sociais.
O politeísmo autêntico eu vi em poucas pessoas: gente que luta pela tradição, com respeito, adaptação, piedade, estudo e preservação, e que geralmente não ganha nada com isso. Um politeísmo construído em cima de muitos livros e práticas, mas de poucas fotos para o Instagram. Enquanto todo o resto, ao meu ver, é um fetiche. Existem sim pessoas sérias e honestas, mas essas estão cada vez mais longe e hostilizadas pelas redes sociais.

O fetichismo religioso marginalizou e deslegitimou toda tradição politeísta?
É triste perceber que existe, em contradição com todo o contexto em que estamos inseridos, uma lógica de desprezo por tudo aquilo que é essencialmente politeísta. Nós não nascemos em um contexto e em uma sociedade politeísta; logo, para sê-lo, pressupõe-se, logicamente, a necessidade de estudo, reflexão, dedicação e absorção de uma cultura que, para nós, é inevitavelmente próxima apenas por meio de filmes e de influências distorcidas e indiretas: caricaturas. Ou, como vou me referir neste texto, fetiche.
Gostamos da pretensa sensação e do status que o politeísmo nos concede. E digo aqui “politeísmo”, embora esse sequer seja o termo da moda nas redes. Politeísmo é um termo demasiadamente acadêmico, que a maioria das pessoas não compreende adequadamente. Até nisso nos reduzimos: todas as tradições religiosas não cristãs e politeístas foram constantemente reduzidas e apropriadas como “bruxaria”, “wicca”, “ocultismo” ou qualquer outro termo que fosse impactante o suficiente. E isso é proposital. Ser diferente tornou-se necessário nas redes sociais: chamar a atenção, ser visto, possuir alguma autenticidade e legitimidade de modo rápido, sem muitos conceitos complicados. Nesse sentido, a bruxaria, termo amplamente utilizado na cultura pop, caiu como uma luva.
Reduzimos a identidade daquilo que, com boas intenções, buscamos reivindicar e preservar, criando uma caricatura de nós próprios. Ninguém se importa com a filosofia, com o estudo dos rituais, com ética, semiótica, lógica, história, teologia, antropologia e todos os demais campos do saber dos quais necessitamos para termos propriedade ao praticar nossa religião em suas respectivas tradições. Ninguém nasce sabendo, e, para praticar algo, é necessária responsabilidade; mais ainda, para ensinar algo, é necessário não apenas responsabilidade, mas, sobretudo, caráter.
Fazemos exatamente o contrário:
1. operamos em uma lógica na qual quem tem mais seguidores possui mais legitimidade para falar;
2. vivemos um profundo relativismo, em que cada perfil de influencer é um púlpito próprio, e a verdade é aquilo que é dito ali;
3. tudo o que é dito tem a finalidade de vender algo;
4. tudo faz sentido, desde que você queira — logo, não há linhas lógicas, tradições ou limites. Se você quiser, faz sentido: cultuar Afrodite e Lilith juntas, dizer que são a mesma deusa e feministas, e pronto, essa passa a ser a verdade absoluta;
5. tudo é artificial, construído a partir da vontade de alguém, sem se basear em absolutamente nada.
Portanto, tudo foi reduzido a um fetiche: o politeísmo é aquilo que nós queremos que ele seja, e não aquilo que foi construído por milênios de civilizações passadas e que serviu de inspiração para todos que vieram depois. Não estou aqui sendo saudosista, apenas admitindo minha limitação em poder adquirir determinado conhecimento do nada. Para saber algo, necessito estudar, compreender, ir ao passado investigar e, a partir disso, construir algo que tenha sentido para além das minhas próprias subjetividades.
“É verdade que qualquer um pode reivindicar qualquer coisa. No entanto, se alguém tem a capacidade de avaliar situações e/ou pessoas com precisão e aplica bom senso, pode facilmente distinguir entre a expressão natural de uma religião ancestral transmitida de geração em geração e as apropriações seletivas do passado ancestral dessa religião por indivíduos ou grupos que saqueiam um passado étnico ou o incorporam em seus próprios interesses, enquanto negam o termo “étnico”. Carregamos a tocha de nossa Religião Étnica e isso não preocupa nenhum curioso ou cínico negador ou saqueador externo, mas apenas a nós mesmos, que abraçamos nossa própria tradição.” — YSEE
Todos — e isso digo com tristeza e lucidez — os web pagãos odeiam o politeísmo. Odeiam seu conteúdo, sua filosofia, sua história, sua lógica, sua rigidez e sua tradição. Odeiam, mais ainda, a palavra “tradição”. Os web pagãos gostam, sim, do que a estética politeísta proporciona: um visual diferenciado, um vocabulário moderno, a sensação de protagonismo e de poder que a magia promete, e amam profundamente a autoridade religiosa que todo esse contexto oferece.
Nunca me considerei um tradicionalista. Pelo contrário, em mais de uma oportunidade sempre deixei claro o quanto precisamos adaptar rituais, pensamentos e tudo aquilo que a tradição nos proporcionou até hoje à modernidade e ao nosso contexto. Por conta disso, tornei-me profundamente antiplatônico nos últimos anos, por sentir que o platonismo não dialoga tão bem com o espírito helênico antigo e, principalmente, com as necessidades atuais. Para os helenistas tradicionais, minha postura é uma heresia, algo que encaro com certo humor. Ainda assim, fui chamado algumas vezes de ortodoxo, rigoroso e até de fascista, apenas por afirmar que devemos sempre olhar para a tradição como um referencial de estudos — de estudos religiosos, não como um referencial de vida.
O fascismo teve e ainda tem, como tentativas sucessivas, a captação de elementos nacionalistas, a fim de lhe conferir legitimidade. Entretanto, qualquer pessoa mais atenta perceberá que o fascismo nunca teve compromisso com a verdade, a autenticidade ou a preservação das culturas que toma como alvo de seu saudosismo. Pelo contrário, trata-se de um movimento nefasto no qual, entre tantas características negativas, destaca-se a apropriação e a distorção de culturas ancestrais, sem qualquer compromisso real com os povos antigos de fato. Ou seja, o fascismo direciona às culturas politeístas um olhar fetichista e caricato, desprovido de contexto e esvaziado de significados, reinterpretando suas simbologias de acordo com a ideologia fascista e transformando tudo em propaganda. E sabe quem também faz isso? Toda comunidade politeísta nascida nas redes sociais que não possui compromisso algum com a cultura que pretende valorizar. O fetichismo tem níveis — admito — , mas todos eles passam por anacronismos, jogos de interesse e caricaturas.
Ainda assim, fui atacado diversas vezes pela alcunha de fascista. Acho que os últimos dez anos da minha vida foram dedicados à luta contra o fascismo, seja politicamente, religiosamente ou contra a Igreja; já apanhei em várias frentes. Foi uma surpresa ouvir isso justamente da comunidade à qual venho me dedicando há anos. E foi a partir daí que percebi que usar, observar ou mesmo recorrer esporadicamente à tradição religiosa à qual supostamente nos dedicamos é ofensivo para todos aqueles cuja vivência religiosa nas redes sociais é movida pela subjetividade, pelo algoritmo e pelo púlpito virtual dos influencers.
Não sei ao certo o que motiva a comunidade a chamar qualquer pessoa de fascista, sem sequer refletir sobre o sentido do que diz. Pode tratar-se apenas de difamação pública, birra ou completa ignorância. O motivo, na verdade, pouco importa, pois o fato é que aqueles que utilizam o fascismo como acusação reproduzem o mesmo comportamento: reinterpretam culturas antigas de acordo com seus próprios interesses — incorrendo em anacronismos — , incorporam estéticas desprovidas de significado e transformam todo o restante em máquina de propaganda, potencializada pelos algoritmos.
Nesse contexto, ficamos todos reféns de mentiras e desinformações. Muitos têm preguiça de ler e estudar e preferem informações “mastigadas”, de fácil acesso, que frequentemente são, na verdade, falsificações. Como consequência, todos nós saímos perdendo. Trata-se de um ambiente extremamente propício ao estelionato e, infelizmente, muitos ainda perderão muito mais à medida que continuarem a depositar confiança em fontes e pessoas questionáveis. Se um influencer afirma X, podemos discordar com base na tradição que historicamente prova o contrário. O resultado é previsível: a tradição é hostilizada, marginalizada e perde sua legitimidade diante da palavra de alguém com muitos seguidores. Ou seja, amamos um politeísmo fetichizado, que não corresponde à realidade histórica, que não possui legitimidade nem respaldo histórico algum. Amamos uma casca vazia, que corrobora para a construção de uma identidade e de uma subjetividade virtual, com a finalidade de gerar conforto por meio da lógica da prestação de serviços.
O politeísmo do qual tanto nos dedicamos, talvez esteja morto. E passamos a adorar uma caricatura idealizada de nós próprios!
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