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Lacuna para o contraditório

A transformação “psicoquímicaespiritual” que o jornalismo faz em seus profissionais para criar neles dúvidas eternas

Felipe Pessoa · 2026-07-17 18:27 · 0 claps · 2.1 min read
#jornalismo #reporter #journalism
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Lacuna para o contraditório

A transformação “psicoquímicaespiritual” que o jornalismo faz em seus profissionais para criar neles dúvidas eternas

Já faz algum tempo, algo em torno de um ano e meio, que venho pensando nas mudanças que a formação em jornalismo faz em nós (em mim principalmente, uma vez que esse é o único ponto de vista a partir do qual posso emitir opiniões).

Teve uma vez em que estava conversando com uma amiga em um banco da faculdade. Falávamos de política. Ela é imigrante albanesa no Brasil. Seu país passou por uma ditadura comunista, algo que ela sempre cita quando reforça sua desconfiança para com políticos de esquerda. Ela discorria sobre perceber que tinha adquirido visões progressistas desde que começou o curso, e que agora se via como uma pessoa politicamente equilibrada, apesar de não isenta.

Foi quando eu opinei dizendo que o jornalismo cria em nós um espaço que reservamos para o incerto, para a dúvida, um espaço que cedemos à verdade, que, por sua vez, se torna prioritária. Essa percepção nunca me deixou.

Essa semana, li algo que pareceu ecoar essa noção, mas descrita de outra forma: uma jornalista que sigo no Twitter disse, em tom de piada, que o jornalismo não é só uma profissão: “é um tipo de pessoa — você olha pra um jornalista e pensa: puta que pariu, essa pessoa é jornalista”.

Pareceu fazer sentido para mim. Respondi dizendo, também em tom de piada, que, quando se forma, o jornalista se une a uma consciência coletiva de jornalistas, como na série Pluribus — produção do Vince Gilligan para a Apple Plus, onde uma mulher (Rhea Seehorn) é uma das únicas pessoas no planeta que não se uniu a uma consciência coletiva que misturou o intelecto dos seres humanos para transformar numa maçaroca positivista, servil e obsessivamente inofensiva.

É como se os apetrechos e as bugigangas espirituais e comunicacionais que o jornalismo provê ao estudante fizessem com que, em alguma medida, ele abdicasse de uma posição inflexível de existir e ver o mundo. Como se nos desse um ferramental sólido o suficiente para que concordássemos que, acima da nossa opinião ou das nossas noções de mundo, está o que tem de mais radicalmente contraditório na experiência humana. Acima disso estão, também, os fatos e a verdade.

Como é que cada um dos sujeitos que se formam nessa profissão gerencia essa lacuna é outra história.

Uns a ignoram, e por isso abrem mão da postura de priorizar uma visão de mundo completa e complexa em prol da confirmação e disseminação das próprias noções, sirvam elas às causas que servirem. Outros dão a essa lacuna a função de guiar sua conduta profissional e humana pelo resto da vida, e pode ser correto dizer que essa força motriz foi capaz de gerar os melhores profissionais que conhecemos no jornalismo. Uns terceiros podem tê-la eleito como um tipo de troféu ou vitrine, sem nunca dar a ela a função correta.

Não sei. São só algumas reflexões.


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