“Entenda que isto é um sonho” — um poema de Allen Ginsberg traduzido por Pedro Augusto Luz (Coluna…
Coluna Travalínguas
“Entenda que isto é um sonho” — um poema de Allen Ginsberg traduzido por Pedro Augusto Luz (Coluna Travalínguas)

O poeta Allen Ginsberg (1926–1997)
Allen Ginsberg foi um homem de seu tempo. Ou mais que isso: uma lenda. Figura central da mundialmente influente Geração Beat — o bando de escritores e artistas desajustados que deu voz à rebeldia contracultural do pós-guerra e influenciaria uma série de movimentos sociais na segunda metade do século XX — Ginsberg foi o precursor da ousadia hippie-psicodélico-pacifista que marcaria toda uma época. Contrário ao militarismo, à Guerra Fria e a repressão sexual, o poeta trouxe para seus versos a vertigem das ruas, o grito dos marginalizados, o “uivo” daqueles buscavam novas formas de transcendência. Notória, sobretudo, pelo longo poema Uivo (1956), a obra de Ginsberg é uma escultura multifacetada de temas, imagens e referências diversas que se mesclam a uma linguagem ágil, vertiginosa e paradoxal, capaz de tragar o leitor para dentro do turbilhão poético que se inicia.
A seguir, trazemos o poema “Entenda que isto é um sonho” (Understand That This is a Dream), traduzido pelo nosso colaborador Pedro Augusto Luz, na estreia da Coluna Travalínguas — especializada em traduções:
Entenda Que Isto é Um Sonho — Allen Ginsberg
Tradução: Pedro Luz
Real como um sonho
O que devo fazer com esta grande oportunidade de voar?
Se eu posso sonhar que sonho, e sonhar qualquer coisa sonhável, posso sonhar que estou acordado? E porque faria isso?
Quando eu sonho num sonho que eu acordo, o que acontece quando tento me mover?
Eu sonho que me movo, e o esforço move e move, até que eu mova, e o meu braço doa.
Daí eu acordo, magoado, eu estava sonhando que andava enquanto sonhava parado, ainda agora.
E tentar lembrar, da próxima vez em sonhos, que estou sonhando.
E sonhar qualquer coisa que quero quando estou acordado.
Quando estou desperto, o que eu desejo?
Eu desejo preencher a minha barriga emocional.
Meu corpo inteiro, meu coração nas pontas dos dedos em júbilo com velhos prazeres.
Páginas de rimas celestiais queimando palavras-fogo
indeléveis mas desaparecem.
Pergaminhos arcanos meus, do universo e da resposta.
Barriga com barriga e joelho com joelho.
O jorro quente do meu corpo para ti e ti.
velho rapaz, Earl dos meus sonhos; você, príncipe de Paterson, agora rei de mim, perdido
Haledon
Primeiro sonho que me fez abaixar as minhas calças
urgentemente, para mostrar os carros de corrida deslizando circuito abaixo.
Passado tanto tempo, o que me lembro, senão o rosto do líder da gangue,
que era loiro e que me amava; um dia nos degraus de sua casa, quarteirões de distância,
passei a tarde inteira contando-o sobre meu Feitiço mágico
eu posso fazer o que quiser: milhões de palácios, conjuntos de química, galinheiros, cavalos brancos e porões de tortura, eu inspeciono as minhas vítimas nuas
acorrentadas de cabeça para baixo, as pontas dos meus dedos, em júbilo, aprovam suas coxas com nádegas brancas e sem pêlos, eu posso beijar o quanto eu quiser,
conforme a minha vontade até o cair dos panos.
Eu passo com meus fortes acólitos, estou pelado,
abaixando-me com a bunda de fora,
para seus tapas, para seus beijos, de reprovação; ó calor do desejo,
lambam merda no meu cu. A estranha gangue,
do outro lado da rua, por todo o mercadinho, no beco da madeira, do lado de fora, na rua, na esquina.
Porque eu menti para o Dentista sobre o telhado do galinheiro, a ardósia roubada de sua garagem
por mim e pelo garoto que eu amava, que me puniria se soubesse que eu o amava.
Que agora eu tenho este garoto de volta em outra forma
Peter Orlovsky, um adolescente chinês em Bangkok, 10 anos ou 20 anos [atrás]
Recrutamento Militar no campus, púbis branca e dourada, minha boca abriga beijos
cheia com o seu pau, meu cu ardendo, cheio com seu pau
tudo que eu faço é desejar. Em sonho e desperto,
este meu belo corpo respondeu a tudo que eu desejei,
amores íntimos, de olhos abertos, revelam enfim, as roupas
no chão.
Cueca, a mais reveladora, abaixada, num movimento que começa abaixo do umbigo. Na cama. É isso, é isso, sim, sim, os paus moles, as picas avermelhadas, o pelo pubiano gentil,
sozinhos comigo;
meu feitiço mágico. meu poder, o que eu desejo, o que depois de trinta anos eu tenho para sempre, depois de trinta anos, satisfeito o suficiente com Peter e com tudo que eu sempre quis;
com muitos homens, eu conheci uma geração inteira, nosso esperma passando por nossas bocas e barrigas, lindo quando eu amo, entregue.
Agora que o sonho envelhece, eu envelheço, meu cabelo sem corte faz um ano, meu aniversário de trinta e oito anos
se aproximando.
Sonho que sou careca, estou desaparecendo, o campus está irreconhecível, Avenida Haledon será coberta em neon, motéis, supermercados, ferro substituindo a madeira nas varandas quando eu voltar, para ver Earl de novo, Ele estará careca, um paizão suculento, e eu poderia seduzi-lo na garagem, se ainda houver uma garagem na colina, no planeta quando eu voltar.
Da Ásia.
Se eu pudesse me lembrar do nome ou rosto dele, ou encontrá-lo.
Quando eu tinha dez anos talvez ele existisse, de alguma forma.
Com uma barriga e um cinto e um carro,
Qualquer fosse seu último nome eu nunca soube, na lista telefônica os Registros Akáshicos.
Eu escreverei a minha Inspiração para que a humanidade se lembre,
minha Ideia, na caverna secreta no armário, aquela casa provavelmente destruída e não sobrou nada para que se retorne, tudo se foi, somente a minha ideia que está desaparecendo, até mesmo em sonhos, pilhas cinzentas de poeira e aniquilação instantânea da Segunda Guerra Mundial e todos os canhões-de-aço-bocas-brilhantes sem manchas, muito menos eu e meus beijos de escola de gramática, eu nunca beijei em tempo, e saí beijando sonho afora e adentro pela rua como se fosse para sempre.
Não resta sempre! Mesmo meu mais velho sempre se foi, em Bangkok, em Benares, arrebatado com palavras e corpos para dentro do marrom Ganges, passando pelas terras crematórias e adentrando o estado policial.
Minha mente, minha mente, se você tem dois metros de terra para roçar então por que não lembrou de plantar a semente da Lei e colher os brotos
do Porquê.
o dourado desabrochar de qual ideia? Se eu sonho que eu sonho, qual sonho devo sonhar em seguida? Riquixás a motocicleta, brilho derradeiro de lâmpada, táxis pequenos e ferraduras de cavalos
nesta rua de Saigon à meia noite, Angkor Wat à frente e as velhas faces hindus da cidade arruinada
e havia um sonho sobre Eternidade. O que eu devo sonhar quando despertar? O que restou para sonhar, mais “carne” chinesa? Mais Feitiços mágicos? Mais jovens
para amar antes que eu mude e desapareça?
Mais palavras de sonho? Agora que sei que estou sonhando, o que resta para você, Allen? Correr até o Palácio Presidencial cheio de morfina. Os galos cantam, caminhões ao amanhecer, qual é a pergunta?
Eu preciso dormir, agora que há luz na janela?
Eu vou dormir, desconectando até a próxima ideia; a van de mudança chega
vazia
na casa do Dentista, cheia de mobília chinesa.
Understand That This is a Dream — Allen Ginsberg
Real as a dream
What shall I do with this great opportunity to fly?
What is the interpretation of this planet, this moon?
if I can dream that I dream / and dream anything dreamable / can I dream
I am awake / and why do that?
When I dream in a dream that I wake / up what
happens when I try to move?
I dream that I move
and the effort moves and moves
till I move / and my arm hurts
Then I wake up / dismayed / I was dreaming / I was waking
when I was dreaming still / just now.
and try to remember next time in dreams
that I am in dreaming.
And dream anything I want when I’m awaken.
When I’m in awakeness what do I desire?
I desire to fulfill my emotional belly.
My whole body my heart in my fingertops thrill with some old fulfillments.
Pages of celestial rhymes burning fire-words
unconsumable but disappear.
Arcane parchments my own and the universe the answer.
Belly to Belly and knee to knee.
The hot spurt of my body to thee and thee
old boy / dreamy Earl / you Prince of Paterson / now king of me / lost
Haledon
first dream that made me take down my pants
urgently to show the cars / auto tracks / rolling down avenue hill.
That far back what do I remember / but the face of the leader of the gang
was blond / that loved me / one day on the steps of his house blocks away
all afternoon I told him about my magic Spell
I can do anything I want / palaces millions / chemistry sets / chicken
coops / white horses
stables and torture basements / I inspect my naked victims
chained upside down / my fingertips thrill approval on their thighs
white hairless cheeks I may kiss all I want
at my mercy. on the racks.
I pass with my strong attendants / I am myself naked
bending down with my buttocks out
for their smacks of reproval / o the heat of desire
liek shit in my asshole. The strange gang
across the street / thru the grocerystore / in the wood alley / out in the open
on the corner
Because I lied to the Dentist about that chickencoop roofing / slate stolen off
his garage
by me and the boy I loved who would punish me if he knew
what I loved him.
That now I have had that boy back in another blond form
Peter Orlovsky a Chinese teenager in Bangkok ten years twenty years
Jo Army on the campus / white blond loins / my mouth hath kisses /
full of his cock / my ass burning / full of his cock
all that I do desire. In dream and awake
this handsome body mine / answered
all I desired / intimate loves / open eyed / revealed at last / clothes on the
floor
Underwear the most revealing stripped off below the belly button in bed.
That’s that / yes yes / the flat cocks the red pricks the gentle public hair /
alone with me
my magic spell. My power / what I desire alone / what after thirty years /
I got forever / after thirty years / satisfied enough with Peter / with all I
wanted /
with many men I knew one generation / our sperm passing
into our mouths and bellies / beautiful when I love / given.
Now the dream oldens / I olden / my hair a year long / my thirtyeight
birthday approaching.
I dream I
am bald / am disappearing / the campus unrecognizable / Haledon Avenue
will be covered with neon / motels / Supermarkets / iron
the porches and woods changed when i go back / to see Earl again
He’ll be bald / fleshy father / I could pursie him further in the garage
If there’s still a garage on the hill / on the planet / when I get back.
From Asia.
If I could even remember his name or his face / or find him /
When I was ten / perhaps he exists in some form.
With a belly and a belt and an auto
Whatever his last name / I never knew / in the phonebook / the Akashic
records.
I’ll write my Inspiration for all Mankind to remember,
My Idea, the secret cave / in the clothes closet / that house probably down /
Nothing to go back to / everything’s gone / only my idea
that’s disappearing / even in dreams / gray dust piles / instant annihilation
of World War II and all its stainless steel shining-mouthed cannons
much less me and my grammar school kisses / I never kissed in time /
and go on kissing in dream and out on the street / as if it were for ever.
No forever left! Even my oldest forever gone, in Bangkok, in Benares,
swept up with words and bodies / all into the brown Ganges /
passing the burning grounds and / into the police state.
My mind, my mind / you had six feet of Earth to hoe /
Why didn’t you remember and plant the seed of Law and gather the sprouts
of What?
the golden blossoms of what idea? If I dream that I dream / what dream
should I dream next? Motorcycle rickshaws / parting lamp shine / little
taxis / horses hoofs
on this Saigon midnight street. Angkor Wat ahead and the ruined city’s old
Hindu faces
and there was a dream about Eternity. What should I dream when I wake?
What’s left to dream, more Chinese meat? More magic Spells? More youths
to love before I change & disappear?
More dream words? For now that I know that I am dreaming /
What next for you Allen? Run down to the Presidents Palace full of Morphine /
The cocks crowing / in the street / Dawn trucks / What is the question?
Do I need sleep, now that there’s light in the window?
I’ll go to sleep. Signing off until / the next idea / the moving van arrives
empty
at the Doctor’s house full of Chinese furniture.
Pedro Augusto Luz nasceu no final de 1997, natural de Vitória da Conquista, Bahia, mas cresceu em Salvador. É comunicólogo, escritor, colagista, oraculista, redator e fica no aguardo de qual outro ofício o destino lhe dará. Escreve por amor, prazer e conexões. É otimista, mas não sai por aí mostrando facilmente. https://pruxto.medium.com (Medium) — @ipsiloneduplo (twitter) — @pruxto (Instagram).
메타데이터
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