Antes que tomem o carrinho das mãos
Entre exames, cuidadores e filhos que começam a inverter os papéis, este conto encosta num medo difícil de nomear: o de envelhecer e deixar…
Antes que tomem o carrinho das mãos
Entre exames, cuidadores e filhos que começam a inverter os papéis, este conto encosta num medo difícil de nomear: o de envelhecer e deixar de ser dono da própria vida.

Meus filhos começaram a cuidar da minha vida sem que eu pedisse.
De uns anos pra cá, eles não perdem a chance de tentar enfiar uma estranha aqui em casa. Ficam à espreita, esperando qualquer deslize para me apontar o dedo. Falam comigo como se eu fosse filho deles. — Tá vendo, pai? Você tá começando a esquecer as coisas. Não é bom você ficar assim, sozinho. Deixa a gente contratar uma cuidadora pra te ajudar.
Me ajudar, que nada! Só me faltava essa: alguém plantada ao meu lado, observando cada passo que dou. Será que acham que não sou capaz de tomar meus remédios ou esquentar a própria comida?
Essa história toda começou porque um dia esqueci que fui de carro jogar poker na casa do Arnaldo e voltei de Uber pra casa. No dia seguinte, achei que meu carro tinha sido roubado.
Na verdade, nem foi bem assim. Eu só não lembrava onde tinha deixado. Mas isso acontece com qualquer um.
Foi o suficiente pra Luiza convocar os irmãos, como se ela mesma não fosse muito mais esquecida do que eu, e me fazerem passar por uma batelada de exames.
Queriam até me tirar do volante. Mas daquela vez, coloquei todos no lugar: se até o médico do Detran me considerou apto a dirigir, quem eram eles pra dizer o contrário? No começo do ano, fiz novo exame pra renovar a carteira e não tive a mesma sorte. Carimbaram minha carteira com um monte de restrições e, sem alternativa, aceitei o motorista que contrataram. Não essa história de cuidador.
Felizmente, o César é um rapaz reservado, muito bem educado. Quase não noto a presença dele em casa. Às vezes esqueço que ele está ali. Às vezes acho que ele acabou de chegar.
Outro dia, ele me ofereceu um copo d’água e eu levei à boca, bochechei automaticamente e cuspi no chão. Só percebi que não estava escovando os dentes ao ver os olhos arregalados dele, me encarando como se eu o tivesse insultado.
Não sei por que fiz isso. Talvez estivesse com a cabeça em outra coisa. Ou tivesse acabado de escovar os dentes, não lembro.
Implorei que não contasse pra ninguém, nem pros meus filhos. Mas tenho a impressão de que agora me observam como se eu fosse uma chama instável, a qualquer sopro prestes a se apagar.
Eles cochicham. Param quando eu entro. Acham que eu não percebo. Percebo tudo. Hoje, César me levou ao supermercado. Pedi que empurrasse o carrinho enquanto eu riscava os itens na lista do meu caderninho.
A lista estava diferente da minha letra, ou talvez eu tenha escrito com pressa.
Saindo do caixa, encontramos a filha do Paulo. Advoguei a vida toda pra família dele. Tentei apertar o passo, essa menina fala demais. Pior: gosta de falar da vida dos outros.
Não adiantou. Ela me interceptou na saída:
— Nossa, você está com o César! Ele é ótimo. Melhor cuidador que meu pai já teve. Que bom que está com ele.
Não corrigi. Sorri, ou algo parecido, peguei o carrinho das mãos dele, e saí empurrando.
Este conto faz parte da minha série de textos sobre cotidiano, memórias e afetos. Se quiser acompanhar novas publicações, inscreva-se também no meu Substack.
메타데이터
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