Fortaleza que pulsa poesia
Em meio às correrias da cidade, saraus reinventam a vida cultural dos bairros da capital, proporcionando pertencimento, partilha e…
Fortaleza que pulsa poesia
Em meio às correrias da cidade, saraus reinventam a vida cultural dos bairros da capital, proporcionando pertencimento, partilha e visibilidade entre comunidades
Escrito por: Bianca Mota , Fernanda Duarte , Maria Gabriela Monteiro e Tiago Silva
Edição por: Kamilly Andrade e Taís Lustosa
Para a cadeira de Jornalismo de Cidades do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará (UFC)

Colagem Sarau Voz em Performance | Divulgação
Por Bianca Mota
Nas bordas da cidade, onde o mapa cultural oficial costuma falhar, a poesia insiste em acontecer. Em praças, calçadas, becos e equipamentos comunitários da periferia de Fortaleza, os saraus surgem como encontros que misturam palavra falada, leitura de livros, música e escuta. Em Fortaleza, cidade com cerca de 2,5 milhões de habitantes, não há palco elevado nem silêncio solene: há corpos atentos, microfone aberto e versos que carregam urgência. O sarau, ali, não é evento, é convivência.
Tradicionalmente associado a reuniões literárias formais, o sarau ganha outros sentidos quando atravessa os territórios periféricos. Passa a ser também espaço de denúncia, afirmação identitária e formação cultural. Na capital cearense, esse movimento se fortaleceu a partir dos anos 2000, impulsionado pelo surgimento de coletivos de poesia marginal, batalhas de slam e grupos que transformaram a oralidade em ferramenta política e estética. A literatura, por vezes distante, circula de mão em mão, ou melhor, de voz em voz.
Segundo a pesquisadora Maria Aurinívea Sousa de Assis, no estudo Saraus em Fortaleza: por outras semânticas do literário e do periférico (2020), os saraus tensionam a noção tradicional de literatura ao mobilizar experiências linguísticas que escapam aos padrões elitizados. Nesses espaços, a palavra deixa de ser mediada por uma erudição excludente e se aproxima da vivência cotidiana, rompendo com a ideia de que determinados grupos sociais não dominam ou não “possuem” a própria língua. Ao contrário, a linguagem falada e escrita torna-se um instrumento artístico acessível, apropriado coletivamente e capaz de expressar conflitos, memórias e desejos silenciados.
Esses encontros constroem, assim, um circuito próprio de produção cultural. Jovens e adultos compartilham textos autorais, declamam poemas consagrados, leem livros em voz alta e disputam slams que transformam a palavra em performance. Coletivos como o Pretarau, formado por mulheres negras, ampliam ainda mais esse deslocamento, colocando no centro narrativas que partem de uma experiência coletiva e questionam os limites impostos ao que se reconhece como literatura legítima.
Mais do que revelar novos poetas, os saraus reconfiguram o modo como a cidade lê, escreve e se reconhece. São espaços de criação coletiva, onde a literatura deixa de ser privilégio e passa a ser prática social. Esse movimento, cada vez mais visível, começa também a entrar no radar de políticas públicas culturais, seja por meio de editais, mapeamentos ou ações da Secretaria da Cultura.
Antes da luz acender

Foto: Jair Freitas
Antes que o microfone seja ligado e o primeiro verso ecoe no teatro, o sarau já acontece. Ele nasce nos bastidores, na troca de mensagens, nas listas improvisadas, na correria silenciosa de quem organiza tudo quase sozinho. É nesse momento, feito de encontros, ausências e expectativa, que o sarau se constrói como espaço de partilha, no qual a arte não espera o palco para existir.
E foi nesse “antes” que o Sarau Teatro de Expressões nasceu de uma inquietação comum a muitos artistas de Fortaleza: a falta de tempo e de espaço para ver o trabalho do outro. A ideia surgiu a partir de cobranças recorrentes entre colegas da cena artística, que se lamentavam por não conseguirem prestigiar exposições, shows, livros ou espetáculos uns dos outros.
Segundo o criador do sarau, Jair Freitas, essas ausências não vinham da falta de interesse, mas da rotina acelerada. “Está todo mundo correndo, todo mundo no seu mundo, sem tempo de ver o outro”, relata. A repetição dessas cobranças despertou nele a necessidade de pensar não em resolver o problema, mas em minimizá-lo. A solução encontrada foi criar um espaço coletivo onde todas as linguagens artísticas pudessem coexistir.
Foi assim que, em setembro de 2010, nasceu o primeiro Sarau Teatro de Expressões. Desde o início, a proposta era clara: reunir música, poesia, teatro, dança e artes plásticas em um mesmo ambiente, permitindo que artistas e público compartilhassem o mesmo espaço e ao mesmo tempo. A diversidade de linguagens se tornou um princípio organizador do sarau e permanece até hoje, mais de 30 edições depois.
A preparação do evento começa justamente pela curadoria dessa diversidade. Cada edição busca contemplar o máximo possível de expressões artísticas, incluindo exposições visuais logo na entrada do teatro e feirinhas de arte, ampliando o sarau para além do palco. “A gente sempre traz uma exposição para dentro do sarau”, explica Jair, reforçando que a proposta é fazer com que todos vejam todos.
Outro ponto central da organização é o caráter voluntário do evento. Desde a primeira edição, o sarau é de portas abertas e sem cobrança de ingresso. Artistas participam de forma espontânea, oferecendo sua arte como um gesto de partilha. Para Jair, essa escolha reforça o sentido de encontro e celebração que sustenta o projeto. “É um momento de compartilhar mesmo, de confraternizar, de se encontrar”, afirma.
Nos bastidores, porém, a preparação não é simples. Um dos principais desafios do Sarau Teatro de Expressões é a organização quase solitária. Jair acumula funções: enquanto apresenta um artista no palco, precisa correr para ajustar o som do próximo, lidando com uma sequência intensa de apresentações. Essa correria constante faz parte do processo preparatório e evidencia as limitações estruturais enfrentadas por iniciativas culturais independentes.
Junto ao crescimento do sarau, outro desafio se impôs: a alta demanda de artistas interessados em se apresentar. Inicialmente realizado a cada seis meses, o evento passou a acontecer de dois em dois meses, justamente para tentar atender às frequentes cobranças de quem não conseguia espaço nas edições anteriores. Ainda assim, nem todos conseguem se apresentar, o que segue sendo uma frustração para a organização.
A preparação do sarau também leva em conta seu público diverso. Além de jovens artistas e frequentadores da cena cultural, o evento conta com a presença significativa de pessoas idosas, que não apenas assistem, mas participam ativamente das apresentações. Esse encontro entre gerações reforça o caráter coletivo e inclusivo do Sarau Teatro de Expressões, pensado desde o início como um espaço de convivência.
Antes mesmo de as luzes se acenderem e o microfone ser ligado, o sarau já existe na intenção de compartilhar, de olhar para o outro e de criar um território comum para a arte. É nesse preparo feito de encontros, improvisos e muito esforço que os saraus fortalezenses constroem-se e resistem.
Durante o ecoar na canção nagô
Por Fernanda Duarte

Voz em Performance em apresentação no Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno (TUPA), em 18 de dezembro de 2025 | Foto Fernanda Duarte
Na noite de 19 de dezembro de 2025, o Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno (TUPA) aguardava ansiosamente o evento para o qual vinha se preparando. Já está arrumado: cadeiras postas, a cortina fechada e os técnicos de luz posicionados na cabine. Pouco a pouco, o local se enche de gente que vem de toda a cidade para ouvir o que aquele povo tem a dizer. Passam-se alguns minutos. As luzes se apagam. O espetáculo já vai começar.
Abrem-se as cortinas. De longe, uma música pode ser ouvida. O som de tambores ecoa nas paredes do TUPA. Tum, tum, tum. Um canto em uníssono segue as cerca de 15 pessoas que adentram o teatro, em roupas predominantemente brancas. “Me leva, meu bem, me leva pro maracatu”. Um deles espalha grãos de pipoca por onde passa. Outra usa um véu de crochê no rosto enquanto manipula uma marionete de pano. Um estandarte colorido revela a identidade daqueles personagens curiosos: Sarau Voz em Performance.
Entre eles, está Gil Brandão, professor do curso de Teatro da Universidade Federal do Ceará (UFC) e criador do projeto Sarau Voz em Performance, que completa 10 anos em 2026. Com características de maracatu, o sarau, guiado por ele, busca trazer vozes de poetas diversos, que não são devidamente reconhecidos. Com obras de autores indígenas e afro-brasileiros, a apresentação vai além dos escritores brasileiros mais famosos e estudados. Conceição Evaristo, Carolina de Jesus, Abdias do Nascimento e Solano Trindade são alguns dos nomes que inspiram a iniciativa.
Gil destaca a escolha dos autores como uma abertura para um conhecimento mais aprofundado da obra de poetas invisibilizados, ampliando a Lei nº 11.645 de 2008, que tornou obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas de ensino fundamental e médio.
O grupo continua a andar pelo teatro, agora subindo no palco. Sentam-se em um meio círculo, com apenas uma mulher no centro: Ana Beatriz. Ela é, então, coroada. No palco, a estudante de Teatro pode expressar os seus medos e angústias, mas sempre com um retorno feliz para a “Beatriz artista”. Ao público, ela espera transmitir sensações, tanto boas quanto ruins. “Espero que eles sejam afetados de alguma forma pela apresentação que está acontecendo. Esse é o objetivo: afetar eles”, afirma.
Para Beatriz, o Sarau Voz e Performance é uma oportunidade de dar abertura para outros poetas, amplificando os ambientes de apresentação e explorando as criações de seus participantes, como “um ambiente de laboratório”. Mais adiante, um dos participantes do sarau branda uma poesia, de autoria de Solano Trindade.
“Trem sujo da Leopoldina correndo, correndo parece dizer tem gente com fome dá de comer”
Uma sequência de aclamações toma conta das vozes que se apresentam. “Viva Zumbi. Viva! Viva Ailton Krenak. Viva! Viva Grande Otelo. Viva! Viva todos os poetas negros, negras e indígenas que fazem a nossa história acontecer”. Axé!
Mesmo com uma apresentação pré-definida, o sarau também abre espaço aos espectadores que desejam declamar um poema, cantar ou até dançar. “Cada performance, cada momento é uma pulsação. Por mais que seja para um grupo pequeno, é uma forma de a gente existir e resistir. É a vida em movimento”, descreve, ainda, Gil Brandão. Um a um, os participantes do projeto bravejam nomes das mais diversas personalidades brasileiras. “Linn da Quebrada. Presente! Leda Maria Martins. Presente! Gilmar de Carvalho. Presente!”
O grupo, então, finaliza o sarau da mesma maneira que ele teve início: cantando a canção nagô. As luzes voltam a ficar solitárias nos reflexos do palco vazio. O público aplaude o espetáculo.
Depois da festa
Por Tiago Silva
A Praça da Juventude, na Granja Portugal, era um espaço de expressão política da juventude periférica, representada por meio dos movimentos do reggae de praça, que inseriram no cotidiano do povo, estilos musicais como o hip-hop, a cultura das batalhas de rima e a força política de declamar poesia. Até que a violência chegou. “Com o avanço das facções, a sociedade e o Estado passaram a associar o problema à juventude periférica”, diz Caetano dos Santos, de 25 anos, ao comentar sobre a repressão dos movimentos culturais da periferia na cidade.
A associação da juventude — que reunia se em espaços públicos para criar e compartilhar cultura — ao aumento da criminalidade, logo mobilizou a retirada dos jovens do local. No vazio que se instalou no espaço, foi erguida uma base policial. “A partir disso, esse movimento cultural foi minado e iniciou-se uma diáspora”, conta Caetano. Uma diáspora que se estendeu para os bairros do Bom Jardim, Granjas Lisboa e Portugal, Siqueira, Conjunto Ceará e tantos outros.
Com essa dispersão, surgiu a pergunta: como praticar cultura sem ser assolado pelo medo da repressão estatal? “Criando uma Zona Autônoma Temporária”, revela Caetano, também conhecido como Dub-Boy, produtor cultural e cofundador do coletivo Rep Nazarea. Ele explica que uma Zona Autônoma Temporária “são espaços de arte que interrompem a vida cotidiana”, sendo baseada na ideia de ocupar espaços que escapem temporariamente do controle formal, como o poder público. A partir dessa perspectiva, o “espaço se constrói” quando vários indivíduos se reúnem com um objetivo em comum: fazer cultura. Foi assim que os saraus começaram a se multiplicar pelas periferias da cidade.
Caetano sempre questionou o modo como se consome cultura, pois, segundo ele, isso não pode ser visto como uma ação individual. “É totalmente político, porque foi através da cultura periférica que compreendemos que era preciso reconstruir uma noção de coletividade dentro dos nossos territórios”. Por esse motivo, a gênese de um sarau é o microfone aberto, partilhado de forma horizontal. Em virtude da extensa rede de afetos que surgem por meio do compartilhamento de ideias e sua ampla capacidade de mobilização política, Caetano é enfático ao dizer: “o sarau pra nós é uma forma de organização social”.
Esse movimento construiu-se especialmente através da fala, porque “o que impacta dentro de um sarau é a oralidade, a partilha da palavra falada”, ensina o poeta. Isso porque a escuta e a fala remontam à ancestralidade dos territórios, criando um senso de pertencimento coletivo. Nem sempre foi assim.
Caetano relembra que, antes da criação do Rep Nazarea, em 2024, os saraus eram lidos como uma mera atração, antes de se firmarem na cena cultural da cidade. Com o tempo, esses “espaços” de partilha e cultura passaram a ser ocupados de forma espontânea pelos moradores. “Essa é a nossa maior vitória”, celebra ele, “porque a gente ‘brisa’ muito na ideia de como um sarau pode mudar a paisagem de um bairro, se liga?”.
Mudar, foi isso o que também fez Caetano. Em 2020, ele mudou-se de São Paulo para Fortaleza. Morador do Parque Santa Rosa, a primeira coisa que fez ao chegar à cidade foi organizar um sarau. Filho de um pai poeta, a cultura sempre esteve presente em casa. Dela, Caetano também fez morada. Inserido nos movimentos de saraus desde os seus 13 anos, a sua primeira experiência foi no Sarau da Galeria, em Suzano, ainda em São Paulo. A partir daí, ele entendeu que o direito à cidade impactava na manutenção da cultura local e na construção de uma memória afetiva.
Um sarau não é festival. São movimentos culturais periféricos que estimulam a construção de uma subjetividade focada no coletivo. “Se a gente consegue organizar um sarau coletivamente, será que também não é possível propor mudanças no nosso território?”, indaga ele. Até que, a partir de 2020, as coisas mudaram… de novo. “A pandemia alterou o cenário cultural de poesia da cidade”, afirma Caetano. Com isso, segundo ele, vários coletivos foram descontinuados e, agora, tentam criar um processo de retomada desses movimentos por meio da institucionalidade. “Existe uma tentativa de cooptação muito grande dos movimentos culturais de periferia, se liga?”.
Apesar de trabalhar em um espaço institucional, Caetano resiste a essa prática e orienta os seus a resistirem também. “Essa cooptação estatal pode ser prejudicial, porque rompe um pouco com a independência política dos coletivos de periferia. No sentido de criticar, de se organizar quando necessário”, justifica. Entretanto, ele reconhece a importância dos editais de cultura do Estado, — como da Política Nacional Aldir Blanc — pois garantem, em certa medida, a resistência e a permanência desses movimentos, mas adverte: “A gente não pode esquecer a coisa que é básica, juntar amigos pra praticar cultura”.
– Caetano, e o que fica depois que um sarau acaba?
– Saudades.
– Por que?
– Porque eles significam meu desejo de construção de um novo mundo.
메타데이터
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- 2026-07-18 04:13:18