Um Conto de Natal — A Jornada ao Herói
“Ele disse que o Natal era uma palhaçada, juro! — exclamou o sobrinho de Scrooge — E ele acreditava piamente!”
Um Conto de Natal — A Jornada ao Herói
“Ele disse que o Natal era uma palhaçada, juro! — exclamou o sobrinho de Scrooge — E ele acreditava piamente!”
(Charles Dickens, Um Conto de Natal)

Imagem do filme da animação de “Um conto de Natal” de 2009
Bem, dessa vez não demorou tanto né! Admito que a vida adulta tem sido um pouco dura, mas acho que depois do desmame das alegrias da juventude, o resultado seja… tolerável. Por isso estamos aqui hoje, unidos em assembleia para discutir um clássico da literatura natalina, arraigado na mente da nossa sociedade ocidental de tal maneira que você provavelmente já viu ou leu algo relacionado. Por uma viagem a um mundo melhor, ao conto de Dickens do Natal
Em primeiro lugar quero declarar que este escritor é perdidamente apaixonado pelo Natal, então se você não gosta faça logo sua escolha. Deixe suas amarguras de fora dessa leitura ou ponha-se na rua! Feito esse pequeno filtro, retornei a esse texto de Charles Dickens pelo impacto que a animação de 2009 teve no meu pequeno eu, que até de maneira aterrorizada viu os diferentes espíritos rondarem a minha tela, contando uma história que mais funciona como uma fábula ou um conto de fadas do que como um desses contos que já resenhei aqui antes.
Apesar de não ser isso, gosto de ver essa pequena história de esperanças e projeções de um calejado Dickens como uma “jornada ao herói”, onde diferentemente do normal o herói não existe ainda e o objetivo da narrativa é tornar aquela criatura em um belo e brilhante paladino da bondade e justiça. Sem mais delongas vamos ao texto!
O Conto e suas Fadas
O melhor jeito de vocês entenderem as minhas críticas e apontamentos é descrevendo como o livro é, e claramente eu vou explicar o que acontece, então caso não tenha ainda consumido essa maravilha, por favor vá assistir ao filme de 2009.
Dito isso o livro se passa na Inglaterra, provavelmente ali em meados do século XIX no dia anterior ao natal, dia 24 de dezembro. Acompanhamos a vida de um senhor de idade, um homem carrancudo e ranzinza chamado Ebenezer Scrooge, esse homem é muito famoso por ter um escritório de contabilidade já bem velho e caindo aos pedaços que compartilhava com seu falecido melhor amigo e sócio, Marley.
Na véspera de natal, enquanto a Londres natalina pula de alegria no bairro, Scrooge se esconde no fundo de seu escritório, o clima frio entrando pelas frestas da porta e atormentando seu único funcionário Bob, que não pode nem mesmo pegar carvão para se aquecer com medo de que seu patrão o reprima, ou ainda o demita. O natal para Scrooge é apenas mais um dia, ou ainda pior, um dia em que todos se colocam como idiotas, perseguindo uma felicidade improdutiva e desimportante.
No dia Scrooge recebe 2 visitas em sua loja, a primeira de seu sobrinho, um homem bem apessoado e cheio de determinação, que chega para seu solitário tio e o convida para passar o natal consigo, se divertindo em sua casa. A qual Scrooge de maneira até violenta se recusa, apontando que o natal não seria nada além de uma “palhaçada!”. O sobrinho, mesmo contrariado, e até apiedado da condição do trabalho do pobre funcionário de seu tio sai sem resultados, mas ainda desejando o clássico “Feliz natal! E um próspero ano novo!” a seu tio.[2]
A segunda visita foi de dois homens que buscavam ajuda dos mais ricos para um fundo dos mais pobres, devemos nos lembrar que na Inglaterra, diferentemente do Brasil onde todo natal chove, o natal é uma época inclemente, o frio assola os mais pobres e muitos sem abrigo ou alimento morrem nas ruas. Os homens se apresentam pedindo alguma renda de Scrooge para ajudar os mais necessitados. Nosso herói não satisfeito em negar um tostão sequer a causa dos homens, também aponta que seria bom mesmo que aqueles que não tem morram, estão ocupando as ruas mesmo!
Em um pequeno parêntese aqui, Dickens joga muito com o seu contemporâneo, uma época em que políticas de assistência aos mais pobres eram respondidas pelas classes dominantes como “desperdício do dinheiro público” e os mais miseráveis muitas vezes eram encarados por estes assim como Scrooge se coloca.
Ao fim do dia, Scrooge grita com seu funcionário, grita que deve estar ali amanhã, que não existe folga no natal, e que o natal não é nada além de mais um dia de trabalho “É bom de você estar aqui amanhã! E no horário certo!”. O dia acaba com o velho indo sozinho para seu quarto, um que aparentemente fica em uma pensão e que não é ornamentado de grandes coisas. Na verdade, mora onde seu antigo sócio morava, uma casa que conseguiu com a herança deixada por Marley.
Naquela noite o velho achou um pouco estranhos demais os retratos de seu antigo amigo, estavam soturnos demais, encaravam com um olhar penetrante e pareciam o seguir pela casa, mas aquilo deveria ser sua imaginação, nada do que estava pensando era possível afinal não existem fantasmas!
Ao se aproximar do seu leito, Scrooge coloca um pijama e senta ao lado da fogueira, que coloca apenas um carvão para não gastar muito seus preciosos recursos. De repente, uma batida na porta, em seguida mais uma mais forte, e mais forte, um ar gelado percorre a espinha do idoso. A porta se escancara, revelando uma figura de tom pálido e pouco brilhoso, um idoso com óculos redondos e de pele azulada, o rosto muito próximo do que era seu único e finado amigo, aquele era o fantasma de Marley!
Marley com uma faixa envolvendo seu queixo e arrastando pesadas correntes fala com Scrooge, que seu amigo vivo deveria se salvar enquanto ainda é tempo para que não tivesse um destino igual ou pior que Marley. O velho não acredita, o que leva o fantasma a retirar a faixa do queixo, derrubando junto seu maxilar na altura do peito, para o horror dos vivos! As correntes de Marley, como elucidado pelo espectro, carregam muitos cofres, sacos de moedas, pilhas de documentos e livros-caixa, são tudo aquilo que acumulou durante a vida. O fantasma então passa uma profecia a Scrooge: “Três fantasmas virão na primeira badalada do relógio durante os próximos três dias! Escute o que tem a dizer e mude!”.
Nesse momento temos uma situação que me lembra muito a divina comédia. Dickens faz com que o espectro condenado voe para fora do quarto do vivo, quando Scrooge vai olhar para fora vê uma série de indivíduos, políticos, banqueiros, donos de indústria, todos os mesquinhos voando em uma cacofonia de lamentos. Talvez aqueles que já leram minha resenha sobre o Inferno de Dante Alighieri saiba do que estou me referindo. Dickens nesse momento coloca alguns indivíduos vivos e mortos de seu tempo no meio desse “inferno” ou penitencia que cria, já condenando seus opositores políticos burgueses pelos seus atos em vida.
A Fada do Passado
A partir de então as visitas começam. O primeiro a aparecer é uma criatura que o rosto lembra uma criança, ao mesmo tempo que lembra um idoso e um homem adulto, sua estatura não é muito grande e no topo de sua cabeça tem algo que lembra o sol. O primeiro espírito se apresenta como “espírito do natal passado” e carrega Scrooge voando para fora de sua janela.
O natal passado tem o intuito de demonstrar tanto para nosso herói em formação quanto para o leitor a vida do protagonista do romance. O velho carrancudo nem sempre foi carrancudo, ou velho, mas sim uma criança com pais que trabalhavam muito e que cresceu virtualmente sozinha. O velho, olhando a cena do seu eu do passado lendo solitário nos natais que passou em um internato tem um momento de humanidade e chora poucas, mas duras lágrimas de tristeza, lembrando da solidão que experienciou pequeno, enquanto todos seus amigos saíam da escola para o feriado, o pequeno Ebenezer ficava restrito ao colégio.
A segunda experiência do passado é uma festa de natal que Scrooge atende enquanto apenas um aprendiz de banqueiro. O homem que faz essa festa é seu antigo mestre, que fazia do natal uma época mágica para todos aqueles sob suas asas, com liberações para as famílias, salários mais robustos e muita alegria em suas festas. Se lembra dessa época e de seu antigo mestre como uma boa pessoa, sempre bem vista e que ele mesmo era muito feliz em trabalhar para. “Tudo isso por apenas alguns trocados a mais”.
A experiência final é um retorno a morte de Marley, 7 anos antes dos eventos atuais, onde acompanhamos uma mulher que tem 3 filhos diferentes e uma família bem feliz, mesmo que humilde. Essa mulher era aquela que tempos antes era a amante de Scrooge, mas que o tempo e o caráter mesquinho de Scrooge fizeram perceber que não havia sentido na continuidade daquele amor. Mesmo que distantes, a mulher ainda lamenta em parte a situação que seu antigo parceiro havia se colocado, declara que o final do romance foi apenas pois “em breve você vai perceber que isto que vivemos é apenas mais um empreendimento pouco lucrativo”.
O natal passado traz algumas reflexões a Scrooge. Sente que deveria ter sido mais gentil com o menino que tentou o entregar um jornal, sente que deveria ter sido mais gentil com seu funcionário, começa a se perguntar se não deveria ter estado mais presente para sua família. Será que ele era tão ruim? Será que se tornaria como Marley?
A Fada do Presente
O natal presente, por outro lado, tem outras funções narrativas. Após a ida do espírito, Scrooge cai em um sono exaustivo, que leva a acordar com a segunda badalada do seu relógio. Um homem gigantesco, jovem e parrudo, com apenas um robe como vestimenta, invade os aposentos do velho, o carregando para fora de sua casa novamente. Pelo que me lembrava da animação o natal presente era um dos que menos surtia efeito em Scrooge, porém não é assim que se coloca o livro.
O espírito vai passar majoritariamente em dois lugares nesse dia 25 de dezembro. O primeiro é a casa do funcionário de Scrooge, Bob, que vive com sua esposa, uma mulher gentil, mas dura, e com seus outros 3 ou 4 filhos. Durante a viagem, o patrão vê como o funcionário vive em condições realmente difíceis, que não são mais facilitadas pelo salário que recebe. Mesmo assim, Bob e sua família ainda celebram o natal, todos arrumam-se para as festividades, as comemorações com uma amiga e uma irmã da esposa de Bob também ajudando a preparar o pequeno casebre para uma noite de natal, a noite onde não pode haver ódio, onde não pode haver brigas, onde a felicidade é borrifada pelo próprio espírito do natal.
A miséria de Bob não é demonstrada apenas em diálogos de seu salário. A família nesse dia mágico claramente não tem dinheiro para comprar um peru, então comem uma torta de maça com um saboroso ganso comprado para comerem no dia. Além disso um elemento central na piedade de Scrooge é o filho mais novo de Bob, um rapaz franzino de aproximadamente 7 anos chamado “Pequeno Tim”, que por ter alguma doença usa aparelhos e apoios de ferro em suas pernas. Scrooge pergunta ao espírito: “O pequeno Tim vai ficar bem?”, a qual este responde “Se nada mudar, não vejo um futuro para ele…”.
Além disso o espírito viaja com o velho para outro local, a casa do sobrinho de Scrooge. Lá o natal não é tão soturno, não tem a miséria como fantasma pairando sobre a noite feliz, mas sim um lugar que brilha com alegria, a casa do sobrinho de Scrooge está completamente decorada, com amigos e familiares de sua esposa todos dispersados pela casa para comemorar a data feliz. Brincadeiras e o romance se instauram pelo ambiente iluminado pelo natal mais ideal e bondoso possível.
É importante destacar que durante todos esse momentos, especialmente durante as brincadeiras, o espírito faz Scrooge ficar naquele lugar, não apenas observando, mas o velho começa a participar daquelas brincadeiras como se pudesse ser visto e ouvido, a ponto de em alguns momentos em que o espírito faz menção a sair é pedido, implorado, que eles continuem ali por “só mais uma brincadeira”. Em um dos jogos de adivinha, o sobrinho de Scrooge diz que ele é um animal, ranzinza, agressivo e velho, que ronda as ruas de Londres com seus gritos maldosos, naquele momento sua esposa chega a adivinhar que quem ele estava fingindo ser era ninguém mais que seu próprio tio! Nesse momento aponta que por mais que não estivesse ali e fosse um homem mal humorado, propõe um brinde ao tio, e sua solidão que um dia tentaria impedir.
Feliz e prestes a declarar um discurso inaudível, Scrooge é arrebatado da casa de seu sobrinho pelo espírito do natal presente que estava morrendo (afinal o próprio natal presente estava acabando), e por isso precisava voltar para casa. O espírito se vai e o vivo se sente determinado a mudar, determinado a viver e a fazer as coisas certas.
A Fada do Futuro
O último espírito se apresenta. Diferentemente dos demais ele não fala nada, a única coisa que faz é apontar em uma direção e mais nada. Scrooge questiona o espírito, fala que está pronto para mudar e é solícito a suas reivindicações. A aparência do espírito é apenas um robe negro que cobre uma figura encapuzada, é impossível ver seu rosto e sua mão é pálida.
O espírito se transporta com Scrooge para a bolsa de valores, onde os homens mais ricos comentam sobre a morte de alguém. A morte de um homem importante, mas não o suficiente para ir ao velório, não o suficiente para chorar, não o suficiente para fazer qualquer coisa, nem mesmo parar o trabalho. Uma morte que aconteceu e seu maior impacto para aqueles homens foi uma conversa de 5 minutos.
O segundo cenário é uma loja de penhores, quase toda caída, onde se colocam 3 indivíduos, uma camareira, uma lavadeira e um coveiro. A conversa dos três se resume a eles tentando vender uma série de itens de altíssimo valor, uma camisa masculina, lençóis de qualidade e até mesmo as argolas que prendiam a cortina no aro que liga acima. Com o tempo, o diálogo vai se tornando sobre como conseguiram aqueles itens, todos sem exceção eram de um homem que tinha acabado de morrer. A camisa e os lençóis foram retirados da própria cama em que o morto estava, mudando a roupa do cadáver, tudo aquilo pois o morto era um homem desprezível e em alguma lógica Dickens constrói que isso seria uma resposta cabível aos seus crimes em vida.
Quero aqui deixar um adendo que essa é uma das cenas mais desprezíveis que eu já li na ficção, tudo bem que o morto de fato era uma pessoa ruim, mas retirar as roupas de um cadáver? Retirar o lençol de uma cama em que o corpo ainda está esfriando depois da morte? Me deu genuíno nojo desses personagens pela mesquinharia selvagem com que trataram outro ser humano, o vilipêndio em níveis cruéis e hostis dos personagens me trouxeram até uma empatia que antes não tinha do morto.[3]
O espírito antes de seu destino final mostra a casa de Bob, que volta do trabalho cabisbaixo e muito triste, naquele natal não havia mais o pequeno Tim. Um período que parecia de apenas alguns anos no futuro, seu filho mais velho pretendia sair de casa para se casar e o natal era um pouco mais triste que o normal, as muletas de seu pequeno encostavam no canto da sala como um pequeno altar. Mesmo com tudo isso, a família ainda brinda pela alegria do natal, em memória ao eterno caçula.
A sombra leva Ebenezer a um cemitério, o clima frio do natal é possível de ser sentido, mesmo que seja naquele momento apenas uma projeção. O mão, que esteve erguida esse tempo todo agora se posiciona em direção a uma lápide que, para a surpresa de quase ninguém, é do próprio Scrooge. O homem se assusta e implora ao espírito que vai mudar, que tudo será diferente e que não vai mais ser o mesmo homem que era antes. Tudo isso apenas para ser engolido pela escuridão e acordar com a luz do sol.
O Final Feliz
O final desse livro é como você esperaria um conto de fadas perfeito a acontecer. Quase como quando acordamos de um sonho em que estragamos da maneira mais perversa a vida de uma das pessoas mais importantes pra nós porque sim (?). É Scrooge em sua alegria máxima, um novo homem, que ao ver um menino o oferece uma grande quantidade de dinheiro para pegar o maior peru do açougue e leva-lo de surpresa para a casa de Bob. É Scrooge pagando taxas extras pela velocidade do rapaz, pagando um carrinho de mão para levar a carne para a casa de Bob, em um lugar afastado da cidade.
As bondades não se restringem a presentes. Encontrando os dois homens que tinha dito para se livrarem dos pobres no dia anterior, faz uma imensa doação a instituição de caridade que fomentam, surpreendendo até mesmo os donos.
Scrooge ao chegar em seu trabalho, espera Bob pacientemente, observando um atraso (lógico) de 17 minutos do horário estimado. Decide pregar uma peça em seu funcionário, o preparando para um discurso violento de como seria demitido se ocorresse de novo. “E como punição de que se atrasou… Vai receber um aumento! E deixe que cuido das despesas de seu filho, fiquei sabendo que ele está bastante doente.”, algo que Bob quase esbofeteia o patrão com medo que tenha se tornado louco!
Nosso herói, além de aterrorizar seu funcionário, com sua renovada personalidade também assusta a esposa de seu sobrinho, ao aparecer de surpresa na casa para a festa de natal, algo que não era esperado nem nos mais loucos sonhos da mulher. Aquela noite foi a primeira de muitos natais que reconstruíram a personalidade e curaram a alma de Ebenezer Scrooge, antigo usurário e vil banqueiro, que se tornou um exemplo da beleza e inocência do natal, uma época mágica que tanto eu quando Dickens gostamos muito.
A Estética do Natal
Existem alguns detalhes que gostaria de expor, em especial agora depois de acabada a explanação de como o livro decorre. Em primeiro lugar quero falar sobre a aparência de alguns personagens e o que eles significam, vou destacar os espíritos, e os personagens que tem alguma relevância, Bob, Scrooge e o sobrinho. Um pedaço final sobre as mulheres em geral que me chamaram atenção também.
Sobre os espíritos. Acho que podemos começar do passado em direção ao futuro, uma vez que o passado foi o que mais me chamou atenção. Ele é um espírito com um rosto que parece mudar, braços fortes e grandes, pernas finas e uma luz brilhante e forte que fica sobre sua cabeça, o espírito parece usar uma touca também que eventualmente pode “tapar sua luz”. Eu, enquanto historiador, acho muito interessante uma leitura não exata do passado, enxergar ele enquanto algo que pode ser ocultado, com o fato do capuz poder ser puxado para “apagar” o espírito, e ao mesmo tempo ele enquanto algo que é luminoso.
Além disso, não entendi exatamente os longos braços, que as mãos tinham um toque fino por sinal, e as pernas curtas. Talvez Dickens tenha colocado isso como uma forma de demonstrar que aquele espírito possuía força em relação a Scrooge e poderia eventualmente utilizá-la, uma vez que o velho resistiu mais ao primeiro espírito do que com relação aos demais. As pernas finas talvez queiram dizer a imobilidade do passado, como uma forma de entender que por mais que possa alterar a sua face, ainda assim está preso pelo seu grande corpo e pernas pequenas a um fato impossível de ser alterado.
Mas sem sombras de dúvida a parte mais interessante é o rosto. O espírito tem um rosto intercambiante, constantemente mudando, o que faz a alegoria com o fogo de uma vela (como o fantasma do passado do filme de 2009 é), e também com o fato de ser o passado, algo que muitas vezes não nos lembramos exatamente. Em especial por esse não ser o fantasma do passado, mas sim do natal passado, os rostos que apresenta provavelmente são todos de versões diferentes de um Scrooge ou de pessoas próximas que viveram em seus natais. O passado é visto como um amálgama de vivências infinitas, jovens, velhas, em idade madura, adultos, adolescentes, tudo e nada, afinal já se foi!
O natal presente para mim é bem interessante também (não tanto quanto o do passado obviamente!). Ele é um homem que Scrooge define como um “gigante”, com uma imensa barba e muito risonho, que pessoalmente eu vejo como o papai noel com uns 30/35 anos, a barba ainda ruiva e um físico que envolve a força como principal atributo. Usando apenas um robe ele voa pela cidade com uma espécie de cornucópia que solta pequenas poeirinhas de alegria.
Como é o presente, ele não tem uma responsabilidade passiva de apenas demonstrar para Scrooge sobre o que ocorre mas ativamente intervir no cotidiano das pessoas. Um exemplo é quando ao passar sobre a cabeça de dois homens que se trombam, e claramente estão em um clima de agressão, espalhando sua poeira mágica ele faz com que a beleza do natal aja sobre eles e ambos apenas se desejem calorosamente um feliz natal!
Para além disso, acredito que o menos criativo seja o espírito do futuro, um futuro que não apenas é ruim para Scrooge, mas o futuro do natal se vê ameaçado. O espírito do futuro claramente é criado para lembrar as figuras mais antigas da morte, apenas um ceifador sem foice, ou uma caveira que pode ser considerado um “coveiro”. Acredito que Dickens, mesmo materializando uma imagem para Scrooge, não se furta a fazer uma crítica dos acontecimentos da Inglaterra de seu tempo, apontando uma possível e iminente “morte do natal” devido a algumas conjunturas que falaremos em breve.
Os homens todos são caricaturas. Em primeiro lugar o protagonista é a caricatura do usurário, e uma tão grotesca que chega a inspirar nomes como o do próprio “Tio patinhas” da Disney, em que é mais um dos personagens mais ricos da ficção. Além disso o nome Scrooge também é sinônimo em inglês da palavra “usura” ou ganância, o que faz parte dos trocadilhos que Dickens gosta de colocar em seus textos.
Bob segue a linha dos trocadilhos. Durante a leitura Dickens escreve sobre como o salário de “Bob” possui seu próprio nome, ou quase não possui seu próprio nome. Isso é devido ao sinônimo de que uma das menores moedas inglesas da época tinha, que por muitos era chamada de “um bob”, assim Dickens cria um personagem que tem pobreza e miséria em seu próprio nome, tem seu salário em seu nome e por mais que não goste não consegue fugir de sua situação.
Um personagem que pessoalmente fiquei me perguntando o que seria é o sobrinho de Scrooge, um homem já adulto e com família, mas que como criança ainda tem esperança de que um dia o tio seja uma boa pessoa. Acho que Dickens, mesmo não colocando nome no rapaz, fez ele como um arquétipo do belo cristão, ou de um ideal cristão, que sempre busca perdoar/ ver o melhor nos outros, mesmo que sejam velhos rabugentos e sem amigos, como seu tio. Ele tem um dos papéis mais importantes na narrativa para mim, que é ter o “mesmo nível” de Scrooge e ser um exemplo a ser seguido e socializado, como se as altas classes também fizessem do natal algo válido. Resumindo, acho que ele “valida” o natal, que na época de Dickens ainda era visto como um evento mais voltado e apreciado pelos mais pobres.
A Vendeta de Dickens
Essa última sessão do texto vai ser destacada para a perspectiva de Dickens exclusivamente e para entender afinal o porquê do título. Além, é claro, de algumas reclamações minhas sobre o intuito desse conto e sua construção.
Inicialmente vamos pensar sobre o que era o Natal para Dickens. O autor nasceu em uma família pobre, e isso justifica em muito a teor classista de seus livros, que por vezes criticavam a alta classe inglesa enquanto um grupo mesquinho e violento de pessoas. Assim como dito anteriormente, o natal em geral era mais comemorado por grupos mais pobres de cidadãos, o que tornou em meados do século XVII o natal um crime. A lei em si na época de Dickens já estava sendo revista, mas tornar a comemoração do natal um crime fez com que apenas pudesse ser celebrado em segredo, algo que ainda era realizado.
Ligando a uma perspectiva do pequeno Dickens, o rapaz gostava muito do natal exatamente por ser esse momento em que as questões mais pesadas da vida eram esquecidas, mesmo que por uma noite, onde a família se reunia e tudo virava uma grande celebração e festa. Onde, como no próprio livro, aqueles que nos faziam mal recebiam um belo e longo brinde “em nome do natal”, tudo de ruim se dissipava e o que prevalecia era apenas a alegria.
O leitor bem entendido sabe que essa coisa toda mágica do natal não existe na prática, porém o mais bem treinado compreende que tudo é uma grande idealização de criança. O natal do conto é o natal que o pequeno Dickens gostaria de ter, tenho certeza que o fantasma do natal que o autor veria era assim como o fantasma do presente de Scrooge, um grande homem alegre e cheio de virilidade, como um super-herói que consertaria todos os problemas, pelo menos por aquela noite.
O natal não tem apenas um peso ideológico, mas é um momento em que o clima também fica mais inclemente. Juntar a família, uma vez ao ano em uma das noites mais frias, para se proteger e comer uma saborosa refeição era sim um diferencial, algo que unia aqueles que se sentiam mal e explorados o ano todo. Acredito que essa tenha sido uma das razões pela qual o natal é tão caro para os mais pobres ingleses e europeus do século XIX, o que envolve também o pequeno Charles Dickens.
Acredito que tudo isso gere um Dickens que tem esse pequeno poder, um poder de criação sobre sua própria obra e que exerça isso da maneira que deseja em seu livro. Mais acima no texto declarei que existem algumas partes em que Dickens escreve muito como Dante escreve na Divina Comédia, em especial quando coloca algumas cenas como a dos espíritos punidos voando e o diálogo com o espírito presente sobre os dias sagrados.
Retornando sobre a ideia do voo dos espíritos punidos. Dickens constrói, logo antes de mostrar a provação para Scrooge, um furacão de espectros que ficam do lado de fora da janela do velho vivo, nesse momento o personagem fictício Marley se junta a eles, carregando pesadas correntes, porém o autor como deus soberano de sua obra aproveita esse momento para eternizar seu desprezo por alguns acontecimentos de seu tempo, em especial destacando um espírito que se lamenta por não ter ajudado uma mulher com um bebê, afinal agora sofria para sempre pelas escolhas quando ainda estava vivo. Indica que em geral eram colegas e amigos de Scrooge, e que seriam aqueles políticos e banqueiros que tornam a vida dos pobres ainda mais miseráveis.[4]
Ao mesmo tempo a segunda movimentação é quando está voando por Londres, Scrooge questiona o espírito do natal presente sobre uma lei que estava sendo atribuída a vontade de Deus pelo parlamento inglês. A lei em questão seria respectiva ao não funcionamento de nenhum estabelecimento no dia de domingo, afinal era um dia sagrado, e no caso de alguém necessitar de alguma coisa nesse dia seria necessário ir a alguma loja dos mais abastados da sociedade para que estes vendessem o necessário. Uma vez que todos os espíritos servem a Deus, Scrooge aponta que a lei seria culpa daquele espírito, e isso enfurece o grande homem barbado representante do presente. A lei era uma movimentação de tentar tornar os estabelecimentos dos pobres ainda mais pobres e promover a exclusividade das grandes padarias e comerciantes mais poderosos.
O livro sai em 1843 e ganha muita popularidade durante os demais anos de vida de Dickens, até sua morte em 1870. Acredito que escrever em um conto simples e acessível as críticas que tinha, de maneira tão bem amarrada, em sua obra foi uma maneira do jovem e infantil Dickens que amava o natal contra-atacar a alta sociedade que buscava o enforcar. Acho que tudo o que faz é criar uma espécie de herói que não já começa herói, como qualquer “Jornada do herói”, mas sim um que se torna, ou que lembra que é um herói ou um homem. Assim entendo que Scrooge é aquele que vai se tornar um herói, aquele que tem uma “Jornada ao herói” ao invés de do.
Meu último apontamento é que apesar de criar isso, o final é muito desnecessário, algo como quase chutar cachorro morto mesmo, o velho já ia mudar e não precisava dizerem que ele morreria sozinho e sendo roubado caso continuasse daquele jeito, mas tudo bem. Acredito que dentro de algum outro contexto esse sonho possa ter até inspirado outro clássico de nome “O Sonho de um Homem ridículo” do Dostoievsky, que eu também já resenhei, mas confio em vocês para irem lá buscar as diferenças e igualdades que ambos os homens tem em suas viagens espirituais e astrais.
Toda vez que dormimos não sabemos o que vamos sonhar, muito menos então, como vamos acordar. Até a próxima e um Feliz natal!
[1] DICKENS, Charles. Um conto de Natal. Rio de Janeiro, Antofágica. 2022.
[2] Um detalhe interessante é que o “Feliz natal” em inglês “Merry Christmas” foi em grande parte popularizado devido a essa obra em específico de Dickens, que veio a colecionar diversas adaptações no teatro, cinema, séries, animações, entre outras mídias.
[3] E quem me conhece sabe que acho que de fato alguns indivíduos não merecem nada além do desprezo/exílio em termos ainda brandos do que penso. Mas acho que o fato de ele já estar morto e serem retirados itens que estavam no corpo do morto me chocou muito, a mesquinharia e o escárnio da cena não ajudam a empatizar para com os personagens que vendem os itens a loja de penhores.
[4] Para aqueles leigos no texto da divina comédia, em primeiro lugar recomendo que leiam minha resenha sobre o poema. Mas em termos simples e rápidos, a divina comédia, o Inferno em especial, é um livro sobre Dante descrevendo o inferno enquanto coloca como personagens de sua história, seus opositores políticos sofrendo das mais diversas maneiras. Acredito que Dante seja um dos homens que de maneira mais criativa eternizou seu desprezo por alguém.
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