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Um diagnóstico da modernidade

Esse trabalho tem como objetivo uma análise da modernidade a partir dos escritos de três autores: Anthony Giddens, Zygmunt Bauman e Ulrich…

Maria Lohmann · 2026-05-26 03:50 · 1 claps · 6.6 min read
#sociology #sociologia #trabalho #modernidade
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Um diagnóstico da modernidade

Esse trabalho tem como objetivo uma análise da modernidade a partir dos escritos de três autores: Anthony Giddens, Zygmunt Bauman e Ulrich Beck. Seus trabalhos são de suma importância para o entendimento da era moderna e para sociologia em geral, contribuindo inclusive para o desenvolvimento da sociologia do desastre, como é o caso de Beck. O comparativo de suas obras deve trazer à tona algumas características importantes da era moderna. Suas divergências e, acima de tudo, convergências explicam bem o funcionamento dessa nova ordem e como viemos parar aqui.

Na tentativa de definir o que seria a ‘pós-modernidade’ os autores percebem que ainda não passamos desse ponto, uma vez que para isso seria necessário uma ruptura entre o estilo de vida moderno e o que estamos vivendo no momento. Giddens então propõe a radicalização da modernidade. Ainda não rompemos algumas barreiras para poder dizer que ultrapassamos essa era, mas, como apontam os autores, talvez já tenhamos chegado a um ‘ponto sem retorno’ dessa radicalização. Suas características estão se tornando cada vez mais marcantes, suas formas de dominação mais fortes e o sistema vigente, cada vez mais sólido.

Uma característica dessa ‘nova ordem’ é a aversão ao passado e a tradição, bem explicada por Bauman e sugerida por Giddens. Bauman se apropria dos escritos de Marx e Engels em O Manifesto do Partido Comunista para explicar o ‘espírito’ dessa nova era — desde sempre a ideia foi se desfazer de velhas tradições que pudessem limitar o homem, “liquefazer os sólidos” e, futuramente, substituí-los com uma nova ordem ainda mais sólida, que trouxesse segurança e uma base forte para o avanço racional da sociedade. Mas “pode a mente humana dominar o que a mente humana criou?” (BAUMAN, 2000). É aqui que começamos a análise da modernidade. Entender em que ponto deixamos de ser uma ideia revolucionária e promissora de autores que mudaram o curso das ciências sociais, para sermos objeto de estudo de toda uma nova área da sociologia focada em desastres socioambientais. Essa questão de tornar tudo mais líquido e manipulável acabou por se tornar um tiro no pé daqueles que um dia acreditaram que poderiam mudar o mundo para melhor. Conforme nossas relações se tornam cada vez mais líquidas, mutáveis e, acima de tudo, instáveis, mais o sistema vigente se solidifica. Desse modo, a própria ideia de Marx de “derreter os sólidos”, liquefazer a modernidade, na esperança de erguer uma nova ordem ainda mais sólida se vira contra ele. De fato construímos algo sólido, quase indestrutível, mas que só distancia os indivíduos, tornando quase impossível qualquer tipo de revolução. Como o próprio Bauman propõe:

“ninguém ficaria surpreso ou intrigado pela evidente escassez de pessoas que se disporiam a ser revolucionários: do tipo de pessoas que articulam o desejo de mudar seus planos individuais como projeto para mudar a ordem da sociedade.” (BAUMAN, 2000)

É também com o advento da modernidade que outro grande sólido se rompeu — o tempo espaço — se dividindo em dois — o tempo e o espaço. Giddens e Bauman concordam que, quanto mais criamos mecanismos para encurtar nosso tempo, mais ampliamos nosso espaço. É sobre a ideia de não demorar mais tanto tempo para chegar de um lugar a outro, dominamos o espaço à nossa volta de tal maneira que o tempo se tornou um mero complemento e depois, dinheiro. Para Giddens, tempo e espaço são diariamente recombinados e postos a prova. Com a internet e transações bancárias como o pix fomos capazes de dar um passo além e quase extinguir a ideia de tempo nas nossas vidas. A modernidade radicalizada não tem tempo, e o tempo que tem é precioso. Em O Preço do Amanhã, vemos isso de maneira exagerada, dramatizada. Em uma cena vemos uma mulher morrer diante do motorista de ônibus por não ter tempo suficiente para pagar a passagem, tempo esse visto como moeda de troca na realidade distópica mostrada no filme. Mas o que seria a arte, senão um retrato da realidade? Aqueles que possuem dinheiro estão cada vez menos interessados na durabilidade de seus pertences, vivem de maneira mais leve, desprendidos do tempo. Usemos como exemplos três moradores do município de São Paulo: o primeiro possui carro e, como tem um cargo elevado na empresa, tem horários mais flexíveis de trabalho. O cidadão pode facilmente se livrar do trânsito chegando no trabalho em no máximo vinte minutos. O segundo morador mora no ABC Paulista — cidades dormitórios que rodeiam a capital — e precisa, todos os dias pegar um trólebus (linha ônibus elétricos que ligam todo ABC e a capital) e dois metrôs para chegar na mesma empresa, porém devido seu cargo, ele deve estar no local as oito da manhã. Sua viagem demora cerca de uma hora e passa pelo famoso horário de pico da capital. Além disso, essa viagem diária custa dez reais — cinco do trólebus e cinco dos metrôs. O terceiro cidadão vê as complicações do horário de pico pelo jornal da manhã, tomando seu café com calma, no conforto de sua casa, que também é seu local de trabalho. Ele faz home office, tem seu próprio horário de trabalho, mas escolheu o horário comercial por questões culturais. Ele acordou às oito da manhã e entrou em uma reunião às nove. De certo todos aqui possuem as mesmas 24 horas diárias que não podemos escapar por ser uma concepção bem mais antiga que a modernidade. Mas será que eles têm verdadeiro e igual domínio sobre elas? Tempo, espaço, dinheiro. São todos conceitos que agora podem ser separados e recombinados à vontade. Essa é uma marca da modernidade radical. Até mesmo dentro de um mesmo espaço, o tempo parece passar de maneira diferente e significar coisas completamente diferentes para cada indivíduo. Talvez essa seja até a palavra chave para descrever essa era: individualidade.

Essa individualidade atinge o seu pico quando vemos que ela contempla até a racionalidade, tão apreciada pela era moderna. A modernidade radicalizada é, segundo Giddens, marcada por múltiplos saberes fora a ciência/racionalidade. O uso de drogas e seus efeitos, a ideia de queimar florestas inteiras para “passar a boiada”, o domínio da mulher sobre seu próprio corpo. São todos assuntos que hoje parecem ser mais discutidos em jantares de família, espaços religiosos, congressos e parlamentos, do que em seus verdadeiros espaços de estudo. O próprio conhecimento perito foi substituído pelo ‘conhecimento’ individual e moldado pela moral. Não podemos confiar no conhecimento individual guiado por valores, uma vez que não existe base racional de valores. Eles não são moldados pelo conhecimento científico, criando uma ‘razão’ instável/mutável. Beck então fala sobre a politização da ciência. Esse ponto da modernidade em que passamos a ter um advogado como ministro do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável, que em suas próprias convicções individuais e partidárias acreditava que o melhor para o desenvolvimento sustentável nacional seria se aproveitar de uma catástrofe mundial para desenvolver a agricultura do país que ele mesmo já disse que era a única coisa que funcionava por aqui.

A comparação entre Beck e Giddens traz à tona essa dicotomia entre confiança e desconfiança da era moderna. Anthony Giddens primeiramente escreve sobre como os sistemas peritos — sistemas de esgoto, energia, etc. — e as fichas simbólicas — dinheiro e moeda — “envolvem confiança, enquanto distinta de crença baseada em conhecimento indutivo fraco.” (GIDDENS, 1991). De certa forma, vivemos em um estado de fé, uma vez que o indivíduo moderno não liga para o funcionamento dos sistemas peritos ou como o sistema econômico funciona. Só espera que a água saia quando ligar seu chuveiro, e que a crise não atinja seu precioso estilo de vida. Vive em um estado de apatia, bem descrito por Bauman. Beck por outro lado nos mostra a outra face dessa confiança cega. Os sistemas falham, os riscos são frutos dessa confiança característica da modernidade. Nós confiamos em nossos políticos para que tomem as melhores decisões por nós, confiamos nas empresas de logística e mineradores que barragens não se rompem com tanta facilidade, confiamos em nossos cientistas que é sim uma alternativa segura o uso de energia nuclear.

Apesar de não romper com a lógica capitalista de distribuição de riqueza, já passamos do ponto em que separamos por classes aqueles afetados ou não pelas consequências dos riscos tomados. Os riscos afetam a todos, vão além das classes sociais. De certo, algumas classes têm a oportunidade de contornar algumas das consequências, ou o privilégio de ignorá-las, mas não podem fugir para sempre. As mansões construídas nas praias privatizadas certamente serão as primeiras a serem atingidas pelo aumento do nível do mar causado pelo derretimento das calotas polares. Estamos todos sujeitos aos mesmos riscos.

Outro ponto importante sobre a modernidade é sua capacidade de auto reflexão ou, segundo Giddens, sua reflexividade. Com a era moderna e o nascimento das ciências sociais, pudemos começar a nos observar como parte de um todo muito maior que nós indivíduos, a sociedade. Mas a lógica das ciências sociais não foge da de nenhum outro campo científico, uma vez que a intervenção do observador muda o que está sendo estudado. O mero conhecimento das nossas condições enquanto indivíduos, ou o entendimento do sistema “altera intrinsecamente as circunstâncias às quais eles originalmente se referia” (GIDDENS, 1991). Ou seja, o próprio advento das ciências sociais e a possibilidade de podermos refletir sobre nós mesmos é algo próprio da modernidade e a altera profundamente. Mas o fato é que, assim como nas ciências naturais, não temos total controle sobre os resultados ou sobre nosso objeto de estudo em si.

Sendo assim, o diagnóstico que proponho para a modernidade é esse: estamos fora de controle. O que podemos fazer é apenas analisar e tentar minimizar os danos, talvez desacelerar os processos. Mas de fato já passamos do ponto de retorno. As ciências sociais parecemparece vir mais para entender do que para mudar qualquer coisa. É como estar em um barco, em direção a uma cachoeira. Já não dá mais tempo de pular dele, apenas se preparar para a queda.

BIBLIOGRAFIA

GIDDENS, A. As consequências da modernidade. Paulo: Unesp, 1991.

ULRICH BECK. Sociedade de risco. São Paulo: Editora 34, 2011.

ZYGMUNT BAUMAN. Modernidade líquida. [s.l.] Rio De Janeiro Jorge Zahar, 2000.


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