Quarenta
[Sugestão de música para leitura — La Lom — Maravilla]
Quarenta
[Sugestão de música para leitura — La Lom — Maravilla]
“Toda vez que uma mulher solteira por volta dos quarenta anos introduz na conversa a questão do amor, vem à tona, repetidamente, a suposição, enraizada no pensamento machista, de que ela está “desesperada” por um homem. Ninguém pensa que ela está apenas intelectualmente interessada no assunto. Ninguém pensa que ela está rigorosamente envolvida numa empreitada filosófica na qual está se aventurando a entender o significado metafísico do amor na vida cotidiana. Não: ela é vista apenas como alguém em busca de uma “atração fatal”.” bell hooks — Tudo sobre o Amor
É unanimidade para todos aqueles próximos à mim o quanto eu verbalizo o peso dos meus quarenta. (traduzindo, sou a chata fatalista reafirmando essa minha idade). Não é fácil estar nesse número longe de todos os marcos sociais que nos são atribuídos desde nossos primeiros entendimentos de vida. (Aparentemente, os marcos sociais e eu não nascemos um para o outro, eu andei quebrando todos, sem excessão, rs — divórcio, términos, mudança de carreira, troca de estabilidade por felicidade, etc, etc).
É bem exótico estar solteira aos 40 anos nesse presente. É comum no meu infinito particular. É estranho aos olhos da sociedade (e familiares?). E eu não estou desesperada para não ser uma solteira aos 40. Os anos de terapia extensiva, com um foco preciso no meu crescimento e amadurecimento emocional me ajuda/ou muito a não ter essa sensação de desespero. Me ajudou a ter clareza daquilo que é caro e importante para mim. Mas não impede que tenha medo. Sim, eu tenho medo. Medo dos momentos em que me sinto sozinha, medo de não ter aquele parceiro/companheiro, medo de não ver realizados alguns projetos de vida que sim, eu idealizei. Quer dizer que eu vivo com medo? Não, pelo contrário, ele vem em poucos momentos justamente porque essa base foi intensamente trabalhada e sustentada.
Como bell hooks disse no trecho que copiei acima, existe sim um interesse genuíno da minha parte em entender essas novas dinâmicas de relacionamento, entender e viver o amor nessa atualidade, entender as questões de gênero que ainda nos atravessam. Existe curiosidade. E essa curiosidade não vem de mão dadas com a carência. Essa última tem sido bem identificada e trabalhada. E essa consciência tem me tirado de situações que talvez, em outros momentos, eu me espremeria todinha para caber (mesmo que eu ainda faça isso por um tempinho). Mas como uma boa observadora, curiosa, eu gosto de observar essas dinâmicas, ler sobre, conversar sobre. E nesses devaneios me preocupa sim a escuta do outro, a opinião do outro, a aprovação do outro. Eu queria querer menos isso. E ter menos medo da minha autenticidade. Aqui, no quentinho do meu coração, eu sei que essa preocupação não vai aparecer quando eu estiver diante da pessoa certa. Ou se aparecer, vai logo ser acolhida para permitir que eu continue sendo assim, desse jeito, aos quarenta anos. (que estão quase virando quarenta e um, Senhor!).

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