O sonho de um Homem Ordinário
O sonho de um Homem Ordinário
Bonifácio era um homem ordinário. Não torça o leitor o nariz: emprego o adjetivo no seu sentido honesto, o de certo inglês gordo que dividiu o gênero humano em três classes e pôs na primeira as Pessoas, essa gente a quem devemos as cadeiras em que nos sentamos, as roupas que vestimos e as casas em que moramos. Bonifácio pertencia a essa classe com os papéis todos em dia. Achava graça nas crianças, achava o crepúsculo meio triste, e não conhecia espetáculo mais bonito que o de um homem sozinho enfrentando três. Era guarda-livros; hoje se diz analista contábil, que tem mais sílabas e menos alma. Trabalhava numa mesa ordinária, entre guias, carimbos e um café que esfriava sem pressa.
Foi nessa mesa, numa tarde de expediente morno, que o assaltou um pensamento extraordinário. Faltavam três meses para as eleições. Bonifácio, que somava débitos e créditos alheios com a paciência dos justos, fez de cabeça a soma do país e não achou saldo: não havia candidato em quem votar. Os dois prováveis dividiam entre si as pesquisas e as suspeitas, e escolher entre eles era escolher entre o sujo e o mal lavado. Não sentiu indignação, pois a indignação acorda; sentiu enfado, que adormece. Apoiou o queixo na mão, a mão no cotovelo, o cotovelo no livro caixa, e dormiu.
Sonhou. Não me peçam o mapa do sonho: sonhos não têm geografia, têm lógica, o que é bem pior. Era um país igual ao dele, com ruas, filas, repartições e eleições dali a três meses. Uma diferença apenas, mínima no enunciado, total na substância: naquele mundo, o bem e o mal tinham trocado de crachá. Não de natureza, note-se. Mentir, roubar, pisar no fraco continuava a ser exatamente o que é; apenas rendia aplauso. Amar, proteger, dizer a verdade continuava a ser o que é; apenas se praticava às escondidas, como entre nós se praticam os vícios.
Bonifácio, mesmo dormindo, estranhou. Lembrou-se de ter lido certa vez que povo nenhum, em tempo nenhum, levantou estátua a um homem por mentir bem, por fugir da briga ou por bater em mulher e criança; que até os meninos trazem de fábrica a ciência de separar o herói do vilão. Pois as praças daquele país estavam cheias justamente dessas estátuas, e os meninos eram matriculados cedo no desaprender.
A campanha fervia. Um candidato subira dez pontos por empurrar uma velhinha na saída do comício; a multidão, comovida, gritava-lhe o nome. Outro exibia em cadeia nacional a lista dos bens ocultos e das verbas desviadas, e o conceito público crescia na razão direta do desfalque. Nos debates, ninguém se acusava de crimes; acusavam-se de virtudes. “O senhor foi visto rezando”, disparava um; e o outro empalidecia, porque acusação daquelas, se provada, liquidava qualquer carreira. Todos escondiam a sete chaves o que lhes restasse de pureza, de justiça, de fortaleza; assessor bom era o que abafava esses boatos no nascedouro.
O grande escândalo da temporada fora a queda do favorito. Um fotógrafo o flagrou às quatro da manhã, num beco, dando esmola a um cego. A imagem correu o país em poucas horas. Ele ainda alegou montagem, jurou que a mão era de outro, que o cego era ator contratado; não adiantou. Despencou nas pesquisas e retirou-se da vida pública, desonrado pela caridade.
O povo fazia o que o povo sempre fez: obedecia por fora à moral vigente e desobedecia por dentro. As mães ensinavam os filhos a ler e a rezar de janelas fechadas, porque instrução era indício e piedade era prova. Quem sabia, escondia o que sabia; quem amava, mais ainda. Porque o amor, esse, ninguém conseguia deixar de sentir: a natureza, teimosa, continuava a fabricá-lo em escala industrial, e a sociedade apenas exigia que fosse usado por baixo da roupa. Praticavam-se às escondidas a justiça, a fortaleza e a caridade, de coração aos pulos, olhando para os lados, no terror delicioso do flagrante. E, para manter o conceito, cada qual cometia de quando em quando a sua maldade de fachada, pequena e pública, como quem paga imposto pelo bem comum.
Venceu, afinal, o que melhor fingiu. Não lhe dou o nome, que sonho não registra em cartório. Era, aos olhos públicos, o pior homem do seu tempo: inventava roubos que não cometera, encomendava dossiês provando crimes que jamais praticara, contratava figurantes para apanhar dele nas praças, e a cada semana se superava, porque o eleitorado era exigente e a concorrência, desleal. À noite, trancado, entregava-se ao seu vício secreto: era bom. Dava pão a um velho no beco, pedia perdão, verdadeiramente arrependido, a um Deus que ali era contravenção, chorava de vergonha da própria bondade; no dia seguinte, voltava à tribuna com a compostura dos grandes atores. Foi eleito no primeiro turno, por larga margem. No fundo, pensou Bonifácio dentro do próprio sonho, com essa lucidez que só se tem dormindo, o mecanismo era o mesmo de casa: ganha sempre o melhor hipócrita. Muda o figurino; o ofício, não.
Acordou em sobressalto, o cotovelo dormente, o coração fora do compasso. Primeiro veio o alívio: fora sonho. Depois veio a segunda conferência, que é a especialidade dos contadores, e as contas não fecharam a favor do alívio. No mundo dele, é certo, os candidatos ainda escondiam vícios para parecer virtuosos; a hipocrisia clássica seguia em pleno expediente. Mas havia lançamentos novos livro caixa do século, e não eram de conduta: eram de nomenclatura. Dizia-se, cada vez mais alto e em horário cada vez mais nobre, que a pureza era recalque; o recato, doença; a força, violência; a caridade, humilhação disfarçada; a religião, atraso; a fidelidade, aprisionamento. E na coluna oposta: a perversão, liberdade; a mentira, estratégia; a fraqueza, segurança; o engano, quando bem executado, talento. Ninguém votara naquilo. A troca vinha sendo feita por mãos pacientes, uma palavra por vez, como quem adultera um balanço sem mexer nos números: basta trocar as etiquetas das contas. O sonho, percebeu Bonifácio com um frio na espinha, não era o avesso do seu mundo. Era o retrato dele, com alguns anos de adiantamento.
Um homem célebre, num conto russo, sonhou com um mundo melhor e acordou disposto a pregá-lo até morrer. Bonifácio sonhou com um mundo pior e acordou com a suspeita, bem mais incômoda, de que já morava nele.
Subiu-lhe então à memória, sabe Deus de que sótão, um versículo ouvido em menino, num sermão atravessado de sono: ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem, mal; que fazem das trevas luz, e da luz, trevas. O profeta não apontava candidato, mas descrevia o processo. A coisa vinha de longe, portanto. Só nunca tivera, como agora, tão boa assessoria de imprensa.
Bonifácio voltou aos seus livros. Na contabilidade, ao menos, ninguém propusera ainda lançar os desfalques na coluna dos lucros; era um consolo, e ele desconfiou até dele. Faltavam três meses para as eleições. Continuava sem saber em quem votar; sabia apenas, agora, o que estava em votação.
Nessa noite, antes de deitar, teve vontade de rezar, coisa que não lhe acontecia desde menino. Rezou. Antes, porém, sem saber por quê, olhou para os dois lados.
Contexto da noetografia: Esta ideia tive de sobressalto, estava no banho. À época vinha estudando muito sobre virtudes e vícios, ética e moral, e em paralelo ouvindo muitos áudiobooks de contos; havia ouvido “O sonho de um Homem Ridículo” de Dostoievski, que foi o palco que utilizei de referência para esta noetografia; também ouvido muitos contos de Machado de Assis, os curtos, que dão o tom geral do enredo; e o compilado de artigos do Chesterton, “O Essencial de Chesterton”, publicado apenas no Brasil com este título, que ajudou na construção das personagens e em alguns aforismos. O clima de eleições é evidente, estamos às vésperas das eleições presidenciais no país e não há quem esteja contente com a política da Terra de Santa Cruz.
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