AINDA ESTOU AQUI
É TEMPO DE (RE)LEMBRAR
AINDA ESTOU AQUI
É TEMPO DE (RE)LEMBRAR

Um final sem desfecho e uma história que se repete e perdura até os dias de hoje. É a história de uma família, a partir do relato sensível de Marcelo Rubens Paiva. “Ainda Estou Aqui” é uma parte da história do Brasil, de um país sem memória e que ainda carrega o seu legado de uma ditadura, em que os arquitetos foram anistiados, enquanto as vítimas foram deixadas em segundo plano. Os resultados disso ainda estão aqui.
Este é um filme de memória, mas também de resistência, encarnada na figura de Eunice Paiva (interpretada pelas brilhantes, Fernanda Torres e Fernanda Montenegro) que, após o desaparecimento de seu marido, Rubens Paiva (interpretado por Selton Mello), busca por meios de chegar a um ponto final. No entanto, essa história ainda continua aqui. O corpo de Rubens Paiva e de outros que desapareceram nesse período, ainda não foram encontrados.
Esse caso, essa história da família Paiva, em um país que continua a conviver com tentativas de golpe de Estado e que teve, somente no final de 2024, o primeiro general do exército da história brasileira preso, é um Brasil diferente, mas que ainda guarda uma memória dispersa daquilo que aconteceu a pouco mais de 60 anos.
As histórias sobre a ditadura não são tão comuns no Brasil, mas já ganharam repercussão no final do século passado, com o filme “O que é isso companheiro?” (1997), indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro e que trata do sequestro do embaixador norte americano em 1969, caso também recuperado por Marcelo em seu livro. Nesse sentido, a sua história, que é trazida ao cinema pelo olhar de Walter Salles, carrega uma força tremenda, seja ao impulsionar o cinema nacional novamente aos holofotes nas principais premiações do mercado internacional; assim como para conectar o país, que precisa de histórias como essa, ainda circulando nas discussões cotidianas, para que não venham a ser esquecidas.

As memórias embaralhadas do Alzheimer conduzem a maneira com o que o livro é escrito, como um fluxo de pensamento, que une os acontecimentos já muito pensados e repensados de um passado distante, junto de passagens mais recentes, não tão bem formadas, ainda dispersas. Dessa forma, Marcelo adota uma perspectiva que parte da doença da mãe, para contar essa história de Eunice Paiva a partir de suas lembranças. Assim, as descrições partem de uma visão muito particular dele sobre seus pais e irmãs. Tendo como ponto de partida o tempo presente, com a mãe acometida pelo Alzheimer, até o passado da família, sua infância e juventude — indo de São Paulo ao Rio de Janeiro —, até o desaparecimento de seu pai, Rubens Paiva, e o andamento do caso com o passar dos anos.
O filme adota um recorte, que parte da perspectiva de Rubens, em um primeiro momento e, durante a maior parte da rodagem, de Eunice. Dessa forma, vemos nesse período anterior ao seu desaparecimento a convivência tranquila e aquele sentimento de normalidade, que aos poucos é afogada com a chegada de homens armados que iriam levar Rubens para responder algumas perguntas e devolvê-lo logo depois. Porém, ele nunca retornou.
A partir desse momento, o grande destaque do filme vai para a Eunice, que encarna essa figura implacável na busca de respostas ao desaparecimento do marido. Em meio a todas essas questões, ela pouco deixa-se abater pelo desamparo em frente de seus filhos, pelo contrário, sorria e (re)existia. Nesse sentido, ela molda a sua vida particular, assim como a carreira, no Direito, em busca de um desfecho para a história do marido. Afinal, quem foram os responsáveis? E, se ele havia morrido, onde estava o corpo?

Tal história, no entanto, a de Rubens Paiva e de outros desaparecidos no mesmo período, ainda não tem um ponto final. Entre os esforços e as pequenas conquistas, ainda a mais emblemática é a emissão da certidão de óbito*, que deu um destino oficial à vida de Rubens Paiva, em 1996.
Desde esse marco, no entanto, Eunice convivia com anos sem mais notícias e as memórias se perdendo com o avanço do Alzheimer, mas sua presença a tornava a prova vida de que aquela história não tinha partido. Por meio de Marcelo, essa narrativa ainda existe mesmo depois da morte de sua mãe, de forma a reforçar sua importância, como parte da história de um país que parece também ter se esquecido. Com isso, a produção é, ao mesmo tempo, a saudade de um futuro interrompido e o trauma de um passado ainda não resolvido.
Desse modo, o filme e o livro agem como um complemento um ao outro, buscando organizar essas lembranças e proporcionar uma nova presença àqueles que dão fundamento a essa história, os que não estão mais aqui. Assim, evoca-se o elemento da memória como um traço que permanece, seja através da documentação ou da oralidade, para que esse passado não venha a se repetir. Por isso, sempre é tempo de (re)lembrar.
*Corrigida em 2025
메타데이터
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