O corre.
A venda tava fazendo sucesso, os menor subia o morro atrás do produto o dia inteiro e vinham sempre cheios de grana e com as mesmas…
O corre.
A venda tava fazendo sucesso, os menor subia o morro atrás do produto o dia inteiro e vinham sempre cheios de grana e com as mesmas perguntas “E aí, tio! Essa é da boa?”, “Tá bem servida?”, “Tem umas coisa mais da hora aí também?”. Claro que sempre tinha aqueles que pediam pra fazer fiado, mas, veja bem, o mundo tá vivendo uma crise, aqui na favela não é diferente, não dá pra gente vender os bagulho fiado e se o maninho não paga? Eu ia ter que cobrar e Deus sabe o quanto eu odeio ir na casa dos moleques cobrar eles, a família… Era horrível ver o desespero no olhar da mãe quando ela descobria que o filho tava devendo pra mim. Então era poucas, eu não fazia fiado, ou pagava na hora ou ia fazer seus corre pra conseguir uma grana. Produto aqui comigo não ia faltar.
O que tava embaçando mesmo era os playboy que descobriram que aqui era melhor e começaram a arrastar, esses cuzão da zona sul quando colava na favela servia só pra trazer uma viatura de polícia junto. E os bico tavam sedentos pra me pegar, viviam me parando, perguntando o que eu vendia, me revistando do pé a cabeça, achando que iam conseguir arrancar alguma coisa de mim, achando que os morador iam me denunciar. E esse bagulho irrita, eu só tava trabalhando, é foda ter que fugir do seu trampo só porque os bonitão lá dos condomínios decidiram que só é digno quem tem carteira assinada. Mas eu era ligeiro, fui criado pra ser inteligente e fazer meu corre sem prejudicar ninguém. Comprava comigo quem queria.
Esses dias a tia de um moleque veio atrás de mim falando que o sobrinho tava em casa, com o olho fundo de tanta vontade e que ela queria comprar três do que ele sempre pedia. Nessas horas de abstinência é só a família que tá do seu lado pra ajudar.
Na minha família não era diferente, meu irmão e três primos de ajudavam na produção, minha irmã era responsável pelo dinheiro que entrava e saia e minha mãe fazia questão de levar uma marmita pra mim enquanto eu tava na rua. O amor de mãe, mano, o amor de mãe supera tudo.
Quando você oferece um bagulho bom, um preço da hora e consegue fazer seus cliente viciar logo no começo é preciso se preparar pros contratempo, mas também se preparar pro sucesso. Essa vida é assim, você vai ficar conhecido, respeitado e procurado por tudo mundo.
Enquanto eu escrevia isso aqui uma menina chegou perguntando o que eu tava vendendo hoje, a menina devia ter uns 7 anos. Logo ela saiu com a sacola cheia, disse que era pra família toda. Eu nem questionei, quanto mais dinheiro entrasse melhor.
O problema foi que ela levou todos os geladinhos de Nutella…
Ser vendedor ambulante é isso, polícia caçando seu alvará, a comunidade se deliciando com o doce e você sustentando sua família. Vender geladinho gourmet é da hora.
메타데이터
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