FUGIR É SÓ PRA FRENTE
Você já tentou correr de si mesmo? Já tentou escapar da própria sombra? Nesse pique-pega eterno, a nossa única rota de fuga é para frente…
FUGIR É SÓ PRA FRENTE
Você já tentou correr de si mesmo? Já tentou escapar da própria sombra? Nesse pique-pega eterno, a nossa única rota de fuga é para frente. Já desisti de muita coisa nessa vida, mas ainda não desisti dela.
Há uma semana, anunciei a saída do meu último emprego. Lá não pagava mal, também não pagava bem. O trabalho era uma correia digna de pronto-socorro de hospital federal. Mas, às vezes, tinha bolo e fofoca.
Tomei essa decisão por vários motivos, que soaram muito bem na minha cabeça quando os encontrei: falta de perspectiva profissional e pessoal; muita exploração, chefe que tinha os problemas de chefe, inteligência artificial e por aí vai. As razões
eram claras e um tanto quanto óbvias, mas a decisão só veio quando a frase “eu preciso voltar a sonhar” saiu do meu peito.
Quando desembarquei na minha última aventura, percebi-me realizado. Tinha trabalho, dinheirinho, vale-transporte e até um VR que bancava minhas cervejas no final de semana. Tudo ia bem. Tudo normal. Cerveja, samba, mas acabei com meu carnaval.
Minhas idealizações profissionais são o meu martírio. Penso sempre que posso conseguir algo melhor: ser mais feliz, ganhar mais e ter mais tempo. Esses pensamentos, que soam mais como ilusões, são o que me move. São a minha vela, que se abre para alcançar novos portos e desembarcar em novas experiências. Porém, ela nunca esteve tão fechada quanto antes.
Parei de sonhar, deixei de querer. Sumi. Minhas ideias viram prompts. Minhas frases se tornaram dados para IA. Meu desejo de trabalhar com criatividade e escrita foi rasgado pela realidade do mercado publicitário. “Nada se cria. Tudo se copia”. Essa é a máxima que encontrei em meu breve como redator em uma agência de marketing.
Eu tentei. Mais uma vez eu tentei. Fui ser professor, historiador, arquivista, jornalista; até cozinheiro já tentei ser. Eu sou o culpado? Dessa vez, penso eu, o erro foi acreditar que a ilusão de progressão de carreira e estabilidade fosse tornar possível um emprego que nunca foi a minha cara. Era lindo imaginar que, em pouco tempo, seria efetivado, teria uma CLT, alugaria um apê com um amigo e ainda teria uma graninha para gastar.
Eu queria mostrar que estava bem e, finalmente, no caminho certo. Que me tornei adulto, com compromissos, carreira e salário. Eu adorava dizer: “Não posso, estou no trabalho” ou “Estou de home office hoje”. Frases ditas com frequência que mostravam como eu me orgulhava por estar ocupado e indisponível. Tudo muito bonito, se não fosse a realidade.
A conta chegou. Vender meu tempo, minha força de trabalho e, acima de tudo, minha alma criativa por alguns trocados não deu certo. Vazio e desmotivado, tornei-me apenas mais uma pessoa batendo em teclas, cumprindo listas e escrevendo prompts.
O trabalho criativo tornou-se industrial. Senti-me uma farsa de mim mesmo. Uma cópia, buginganga, do que eu já fui um dia. Como pude ser tão covarde ao ponto de acreditar que escrever posts para Instagram fosse me realizar? Eu nem uso essa porra direito!
Cansei de ser medíocre, no sentido original da palavra mesmo, de qualidade mediana, comum, trivial, mais do mesmo. Se fosse para ser assim, teria feito contabilidade, direito ou administração. Me casaria com a Fernanda do RH, teria filhos ainda aos 20, faria crossfit e tatuaria um leão de franja no braço. Seria tudo mais simples, assim como é para os amigos do tempo da escola.

Leão verde engolindo o sol é visto como um símbolo para o processo alquímico de transformação da “matéria-prima” em “ouro filosófico”.
Interpreto minha demissão como uma fuga. Isso me dói. Fracassei até tentando ser medíocre. Mas não posso fugir de mim mesmo. Não posso mais sublimar tanto sentimento em feridas, alergias, bolhas e brotoejas. Ser quem eu sou é uma questão de saúde física. Cada dia que eu passo sendo um cover vagabundo de mim mesmo é uma alergia a mais na minha pele.
Chega. Vamos fugir. Mas, dessa vez, vamos fugir pra frente. O coração é a bússola que aponta para dentro. Ela indica o caminho para transformar o chumbo que carrego no ouro que me faz brilhar. Transmutar. Assim como o leão que devora o sol para tranformar aquilo que se deseja naquilo que se é.
메타데이터
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- 2026-06-09 15:37:30