Sobre estar só
Uma amiga me falou há uns dias (por acaso, no dia dos solteiros) que está planejando morar sozinha. Eu perguntei se ela está vendo casa…
Sobre estar só

Uma amiga me falou há uns dias (por acaso, no dia dos solteiros) que está planejando morar sozinha. Eu perguntei se ela está vendo casa para dividir com outras pessoas e ela me disse “Não. Eu quero morar sozinha mesmo, numa casa só comigo mesma”. Conversei com ela sobre isso e acho que é uma coisa corajosa de fazer. Ela me disse que tem dificuldade em fazer coisas só, como ir ao shopping sem companhia, e morar só vai ajudá-la a se conhecer melhor.
Acho curiosa a relação que as pessoas têm com a solidão. Tenho uma amiga que ama ir sozinha ao cinema, ela prefere a experiência quando não tem ninguém do lado. Outra amiga não gostava de dormir com outras pessoas porque se sentia incomodada, gostava de se esparramar na cama. Um outro cara gostava de andar sozinho no centro quando precisava pensar. Uma conhecida sai pra beber sozinha de vez em quando.
O caso da moça que bebe só, em particular, me toca bastante. O mundo é tão perigoso para as mulheres que vejo esse ato tanto quanto de resistência quando de imprudência. Fomos ensinadas a ter medo de situações em que perdemos o pouco de poder que nos resta em público porque uma mulher desatenta, que acaba sofrendo algum ato de assédio ou violência, é vista como a maior responsável pelo mal que sofreu. Há que se quebrar isso e acredito que ela também pensa nisso quando veste a sua roupa e a sua liberdade pra tomar umas sem companhia.
Enfim, acho curioso esse processo de precisar ficar um pouco só para se reunir, se organizar mentalmente, ou para curtir o silêncio, porque eu não o tenho.

Sei não.
Em outros tempos, quando eu não trabalhava, costumava ir ao cinema sozinha à tarde. Não tinha companhia, então curtia esse momento sem mais ninguém. Também sou acostumada a dar uns passeios só pelo shopping, gosto mais de fazer exercícios sozinha e a minha atividade favorita, ler, é algo bem solitário. É só você e a obra na sua frente. Ainda assim, não gosto de estar só.
Não sinto essa necessidade de recuperar as energias depois de ver muita gente, como algumas pessoas têm. Também não gosto de ficar só pra pensar: funciono mais ouvindo a opinião de várias pessoas e contrastando com o que eu já tou raciocinando sozinha. Odeio silêncios e pensar que não tem ninguém com quem eu possa contar me deixa super ansiosa.
Tanto que minha pior crise de depressão foi num momento muito específico da minha vida onde eu estava só em outra cidade e com poucos amigos. Foi o meu pior pesadelo transformado em realidade: eu não tinha ninguém pra me ajudar, pra se importar comigo.

Essa foto é um exemplo de como a depressão não tem cara. Também é um exemplo de que não adianta ser rica e triste porque chorar em Paris dói tanto quanto (às vezes até mais) do que chorar em Manaus. Experiência própria.
Eu reflito muito sobre isso porque me preocupo: será que sou fraca? Será que sou tão dependente assim? Será que sou carente (esse eu sei que sou um pouco, sim)? Será que que na verdade o certo é viver só? O certo é não depender de ninguém? O certo é ter um coração de aço, o qual ninguém pode alcançar?
Quanto mais penso, mais acredito que estar só talvez seja algo necessário em alguns momentos, mas não é pra isso que o ser humano serve. “Ninguém é uma ilha”: desde sempre o ser humano foi um ser social, destinado a se ligar ao próximo, a verbalizar com ele (como estou fazendo com você agora mesmo), a interagir e, a minha favorita, a se abrir e se mostrar vulnerável com o outro.

Incrivelmente, não estou falando somente em relações românticas. Afinal, você pode depender da sua família, dos seus amigos, dos colegas de trabalho, do grupo de apoio, do pessoal da internet…
Olha aí uma das amizades mais bonitas da TV, na minha opinião.
E, mesmo que muita gente diga que é autossuficiente e que não precisa de ninguém para ser ser feliz, lembro que tem um amigo (para alguns, imaginário, para outros, não) a que muitos recorrem em momentos de crise, de alegria, ou quando precisam desabafar:

Sinal de que você não consegue ser uma fortaleza tão fechada assim, não é?
Afinal, apesar de sermos seres independentes, livres, sozinhos e, como diz a mamãe, não termos nascido grudados com ninguém, se sentir acarinhado e acalentado é muito bom. O calor humano faz milagres na nossa mente e nos nossos problemas.

Que tal investir mais nas relações com o próximo? Não somente recebendo atenção, mas sendo um bom apoio, também. O outro também é um ser que precisa de apoio e acalento. Às vezes a gente esquece disso.
Quem bater primeiro à dobra do mar Dá, de lá, bandeira qualquer Aponta pra fé e rema…
메타데이터
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