Minha vida na tecnologia — Parte 1
Qual o primeiro produto high-tech da sua vida? O primeiro computador? Não, antes tive videogame. Mas e antes do videogame, videocassete…
Minha vida na tecnologia — Parte 1
Qual o primeiro produto high-tech da sua vida? O primeiro computador? Não, antes tive videogame. Mas e antes do videogame, videocassete? Videocassete era muito legal também, gravar TV, ir na locadora do posto da Mogiana com a Paschoal Innechi pegar um filme que acabou de lançar… sempre houve videocassete em casa desde que eu me dou por gente. É, a verdade é que nasci numa época em que a tecnologia já estava tomando conta do entretenimento e das próprias "utilidades domésticas", como na época se dizia.
Mas vou voltar ao primeiro computador. Acho que foi um marco fundamental por dois motivos: primeiro, porque acabou sendo decisivo na minha escolha de carreira anos depois — carreira na qual continuo até hoje. Segundo porque, apesar de eu ser uma das poucas crianças (e até adultos) de então que gostavam de ser "micreiras", o computador acabou engolindo, de certa forma, todas as outras tecnologias que eu citei acima e MUITAS mais. Alguém poderia argumentar que não foi o computador, foi o smartphone. Afinal, nem todo mundo hoje usa computador. Eu diria que foi, sim. O phone só se tornou smart quando o então telefone celular incorporou o aspecto de um computador conectado à internet disponível no seu bolso.
Enfim, divagações à parte: o primeiro computador da família veio em 1993, quando eu tinha de dez para onze anos de idade. Eu tenho traços do que hoje se chama espectro autista, e por isso, o hiperfoco, a paixão por aquele dispositivo frio e fascinante foi imediata. Praticamente só eu mexia naquele moderno 386DX de 40 Mhz, 4Mb de RAM e 80 Mb de HD (ou Winchester, como se chamava à época). Acordava no sábado de manhã e nem ia tomar café, nem via se alguém estava acordado: fechava a porta pra ninguém ouvir o bipe do boot e ligava o computador.
Já "bootava" direto no DOS 6.1, a não ser que eu esquecesse algum disquete de 5,25 polegadas no drive A. Normalmente não tinha problema, porque usava mais o drive B, do mais moderno e capaz disquete de 3,5 polegadas de alta densidade, 1,44 Mb de puro armazenamento (o computador não dava boot desse drive). Quando aparecia o famoso prompt C:>, era hora da diversão. Tinha algumas opções comuns. A primeira era algo parecido com isso:
C:> cd games C:\GAMES> dir /w
Daí, era ver qual jogo do DOS que eu ia jogar: Monkey Island (1 e 2), Day of the Tentacle, Out of this World, Simcity, Civilization, Wolf 3D. A lista completa eu nem vou lembrar. Entrava no diretório do respectivo jogo, chamava o executável e esquece o Samuel até ter que tirar ele do computador "à força" na hora do almoço.
Às vezes, mexia com algum software de produtividade do DOS, completamente desnecessário à época para mim, mas que me fascinava pelo simples fato de existir, e de alguém me dizer que ele era muito útil (alguma pessoa mais velha, ou algum artigo na Exame Informática). Lotus-123, Redator (da Itautec, grande clássico para trabalhos escolares de então). D-Base. Norton Utilities. Tinha mais, mas também é difícil puxar a lista de memória.
Agora, tinha essa opção:
C:> win.com
Só isso. Em alguns segundos, lá estava o Windows 3.1 e o famoso "Gerenciador de Programas". Glorioso. O Windows 3.1 fascinava o "eu" de 10 anos de idade porque era um mundo à parte — ele era um programa DOS, mas os programas dentro dele, não. Ele era onde melhor se utilizava aquela relativa novidade chamada mouse. Ele tinha seus próprios programas. Write, Paintbrush… depois, foram chegando outros como Word 2.0, Excel… e, claro, seus próprios jogos. Paciência, Campo Minado, Ski Free, Pipe Dream. Não eram tão divertidos quanto os de DOS, que eram muito melhores em termos de gráficos e sons (mesmo que fosse só no PC speaker) — não brigavam por recursos com o Windows. Mas eram excelentes passatempos, de qualquer forma.
O computador não tinha acesso à internet. Não tinha nem modem. Também não tinha kit multimídia, ou seja, não tinha CD-ROM e o som era limitado ao PC speaker, como já dito. Tinha uma impressora — matricial. E só. Não usei o computador pra muita coisa "útil" fora alguns trabalhos de escola. Mas aprendi conceitos que uso até hoje. Desde uma datilografia básica até como usar uma planilha. Como fazer um texto em negrito. Na verdade, aprendi até o que significava negrito. Fonte Times New Roman no Word…
Depois de uns 2 anos, fui perdendo o interesse. A máquina foi ficando obsoleta para os jogos mais recentes (a obsolescência era mais rápida então), ele não tinha capacidade de rodar o novíssimo Windows 95. Não tinha capacidade de acessar a grande novidade do momento também, a internet. Me sentia um injustiçado porque, quem não tinha um décimo do interesse em computadores em relação a mim, teve acesso à internet antes de mim mesmo. Pobrezinho do Samuel infanto-juvenil.
Assim era a vida do computador pré internet. Pré Windows 95. Não parecia muito interessante — e não era, a não ser que você fosse um jogador hardcore ou uma pessoa apaixonada em descobrir como aquela coisa (então difícil de mexer) funcionava. Nesse sentido, era pra mim a coisa mais interessante do mundo, eu gostava das duas coisas. Eu era bom naquilo, eu enxergava muita graça. E, por isso mesmo, me sentia parte de um clube moderno e altamente exclusivo.
Essa visão toda ia coexistir por uns anos e ser ampliada, juntamente com a de outros usuários leigos, que odiavam computadores, mas queriam saber como era essa história de "navegar na internet", e o que isso realmente traria de novo pra eles. Prometia-se mais do que se entregava, na época. Eu chamo isso de "internet dos anos 90". A internet discada, do ICQ e do Hotmail, que durou até o Napster e desapareceu com o advento da banda larga. Vou voltar a esse fim dos anos 90 no próximo texto. Aguarde!
메타데이터
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