[Para Helena]
Edgar Allan Poe Tradutor: Marlos Machado
[Para Helena]
Edgar Allan Poe Tradutor: Marlos Machado

Helena, tua beleza é a mim Como as barcas de Nice de outrora Que sobre o mar de perfume sem fim, Guiam o cansado vagante afora Às praias de sua aurora.
No mar da agonia me vi a vagar, Teus cabelos, mil flores, tuas faces candura, Teus ares de náiade me rogam meu lar Grécia, de glória com vasta fatura E Roma em grandeza, a sempre brilhar.
Eis! A luzir dentre o vão da janela Qual uma estátua te vejo parada, Da luz do braseiro se faz adornada! Oh, Psiquê, da morada mais bela, Sinto que vós sois da Terra Sagrada!
Link para leitura do texto original: https://shre.ink/lqAr
Sobre a tradução
A tradução de um texto, especialmente quando se trata de poesia, envolve um processo complexo que gera dúvidas ao autor sobre a fidelidade que deve ser mantida. No caso deste poema em particular, decidi priorizar a fidelidade às rimas. Isso não significa que não tenha valorizado a fidelidade ao sentido do texto, mas, ao ter que fazer uma escolha entre os dois, sempre optei pela primeira opção. Diferentemente do que fiz anteriormente com “Mont Blanc”, em que me esforcei para traduzir o texto do inglês para o nosso idioma quase que numa proporção de 1:1, pois não havia um equivalente na nossa língua, neste caso decidi permitir-me certas liberdades, considerando que se trata de um material já traduzido.
Existem alguns elementos interessantes dessa vez que cabem ser elencados aqui, ao invés de meras notas de tradução, comecemos com o caso do verso: Like those Nicean barks of yore, A tradução mais imediata do termo Nicean pode nos remeter às embarcações da cidade de Niceia, o que seria uma interpretação válida se a Helena (ou Helen) do título não fosse Helena de Tróia. Embora esse ponto possa ser discutido, resolvi tomá-lo como verdadeiro, e partir do pressuposto que, poeticamente, estamos contemplando as faces da enamorada de Paris. Então o termo Nicean como atribuído a niceano ou da Niceia não faz tanto sentido aqui, pois a cidade de da Niceia foi fundada por Alexandre, o Grande no século IV a.C, enquanto que a Ilíada de Homero foi composta em meados do século VIII a.C. Portanto optei pelo uso do nome de Nice, a deusa grega da vitória em combate, também grafada como no Nike ou Níque. Sendo essa, inclusive, a deusa homenageada por Alexandre ao batizar a cidade de Niceia.
Outro ponto, esse puramente escolha estética, foi o da omissão do termo hyacinth hair e sua troca pela expressão Teus cabelos, mil flores. O termo original pode ser traduzido como cabelo de jacinto, que se refere a uma planta nativa da Turquia. Embora não houvesse nada de errado com seu emprego, o termo não me agradava, sendo essa a liberdade mais radical que tomei para com a obra original.
E finalmente existem também alguns acréscimos que fiz ao texto, dessa vez presando pela sonoridade: That gently o’er a perfumed sea, tornou-se Que sobre o mar de perfume sem fim And the grandeur that was Rome. tornou-se E Roma em grandeza, a sempre brilhar. Are Holy Land! tornou-se Sinto que vós sois da Terra Sagrada!, Apenas para que o material traduzido se tornasse mais agradavel quando recitado, já que essa era intencionalidade por trás de muitos dos textos de Poe.
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