PETITE MORT: Sobre orgasmos, eucaristia e ressurreições
Na noite em que o Senhor foi traído, tomou o pão. Sei lá, acho que se eu fosse traída, eu provavelmente colocaria Marília Mendonça para…
PETITE MORT: Sobre orgasmos, eucaristia e ressurreições

Na noite em que o Senhor foi traído, tomou o pão. Sei lá, acho que se eu fosse traída, eu provavelmente colocaria Marília Mendonça para tocar. Não que o conceito de traição faça parte da minha linguagem afetiva, afinal vem de uma lógica mono-normativa que não pretendo reivindicar — whatever. Mas ele, tendo dado graças — coisa que eu DEFINITIVAMENTE não faria -, o partiu, despedaçou, dividiu. E disse: “Isto é o meu corpo, que é dado em favor de vocês; façam isto em memória de mim”. Depois de cear, comer uns petiscos em algum boteco de esquina, cantar algum pagode; ele tomou o cálice, a breja, a caipirinha, quem sabe uma Sex on the Beach? E disse, meio atordoado: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue; façam isto sempre que o beberem em memória de mim”. E sempre que fizermos isso, anunciamos que Deus um dia morreu. Até que ele venha.
Essa é a eucaristia. A Santa Ceia do Senhor. A Santa Comunhão. Ou então, o “fetiche do pão e do vinho” (ALTHAUS-REID, M. 2005, p. 134). Esse é um tema amplamente discutido, vivenciado e teologizado nas tradições cristãs; se é só um símbolo, se é para memória, se é presença espiritual, se é presença física e real. Se é Cristo ou se é pão. De todas as formas, há a celebração desse rito para anúncio da morte de Deus.
O anúncio e a memória da morte só ocorrem porque dizem que depois houve vida. O Cristianismo só encontra significado em si por causa da crença que o Cristo foi ressurreto, dando sentido à mensagem, pelo testemunho de sua vida. Deus um dia transou com uma virgem sem camisinha e nasceu então o Salvador do universo (ALTHAUS-REID, M. 2004), que traria vida em abundância, que devolveria o gozo. Que celebraria os orgasmos. Mas esse Deus teve uma petite mort (“pequena morte”, em francês), que foi por pouco, por muito pouco. A sua ressurreição traz de volta o fôlego ao Deus que nasce e morre por uma eternidade definitivamente orgástica.
“Petite mort” ou “pequena morte” é uma expressão em francês utilizada comumente para se referir a orgasmos. A ideia seria de que, assim como na morte, há uma perda dos sentidos e controles, no ápice da transcendência quase melancólica depois do orgasmo. É uma morte que acontece só porque o corpo ainda vive, e de tanto viver é preciso experienciar uma pequena morte. Logo vem a ressurreição. A doutora em literatura Louisy de Limas diria:
Trata-se do retorno da pequena morte, que estende e contrai num só ato, o corpo ainda vivo no qual penetra. Gozar não é morrer, mas repetir uma morte que não nos matou.
(DE LIMAS, Louisy. 2014)
O erotismo é uma dimensão divina que está em disputa: só alguns corpos podem gozar. Quanto aos outros, a linguagem construída pelo discurso hegemônico e as teologias castradoras penetram, sem camisinha, e sem consentimento nenhum. Somos abusados, abusadas e abusades: o país majoritariamente cristão é o que mais mata travestis, e também é o país que mais goza com elas¹.
E é porque nos é negado, que o que nos resta é a transgressão. Profanar o sacro é o único caminho possível. É ousar a imaginar (e talvez construir) um Deus que goza assistindo os corpos se afetarem. Um Deus voyer, que ouve o vocativo da bicha que geme gritando “Jesus!”. Na perversão da linguagem e das (re)leituras bíblicas, lembrar que “Deus ama quem dá com alegria” (2Co 9:7), com tesão, com vontade — clamando seu Santo Nome.
Escolhemos a Teologia que fazemos também na linguagem que usamos. De minha parte, quero falar não do Deus que é invocado nas orações ou louvado nos hinos e cânticos; ou das diferentes designações de autoridade que são empregadas nos textos sagrados para se referir a sua Santa Presença. Quero falar do nome divino gritado como interjeição nas investidas e imprecações do sexo penetrativo, seja por fiéis ou não. Eu escolho o nome que é tomado em vão. Em palavras mais simples: quero recuperar o Deus que é berrado pela pessoa que escolhe a posição passiva quando ela sente a dor de ser invadida. É a partir desse ato de louvor e devoção, espiritual e sexual, que quero construir uma teologia.
(ARCO+LAB: Laboratório Arco-Íris de Teologias. 2022)
Em Cântico dos Cânticos, após os personagens compartilharem detalhes impreterivelmente eróticos de suas afeições entre si, há uma conclusão, no último canto: “O amor é mais forte que a morte, e a paixão é dura como a sepultura”(Cn 8:6). Nos orgasmos, há uma morte (ou várias delas) de tanto viver. E é por isso que não nos alcança de forma plena, porque não vivemos vidas vivíveis (BUTLER, J. 2019). A filósofa americana Judith Butler conclui que “a capacidade epistemológica de apreender uma vida é parcialmente dependente de que essa vida seja produzida de acordo com as normas que a caracterizam como uma vida, ou melhor dizendo, como parte da vida” (BUTLER, J. 2019. p.16). Ou seja, ao se perceber no mundo como um corpo dissidente dos enquadramentos dicotômicos e rígidos que determinam formas dignas de se viver, concluímos que a vida que nos resta não é vivível. Se não vivemos, não gozamos.
Cristo, antes de morrer, viveu sendo desprezado e rejeitado pelos homens, era um homem de dores, não fizemos dele caso algum. Foi morto e não abriu a boca, como ovelha muda, não abriu a boca. Deus estava morrendo e ao Senhor agradou moê-lo. Os frutos do seu penoso trabalho deram (orgasmos de) prazer (Is 53). Deus teve uma pequena morte. Gozou para salvar toda a humanidade e retribuir a “vida em abundância” prometida. Que vivamos tanto que possamos ter pequenas mortes às vezes. Que a ressurreição seja rotina.
Até que ele venha, Cristo ordenou que nos lembrássemos de sua pequena morte. E existem algumas formas de se fazer isso. A teóloga argentina e latino-americana Marcella Althaus-Reid propõe uma leitura indecente da eucaristia, a partir da perspectiva transubstancialista. Essa doutrina essencialmente romana prega que Jesus Cristo está presente sacramentalmente no pão e no vinho, que se tornam, verdadeiramente, seu Corpo e seu Sangue, numa experiência quase antropofágica. Dessa forma, Althaus-Reid brinca que, se comemos Deus, também o excretamos. Deus passa pelo cu, é o sagrado que toca o cotidiano de todos os corpos, sujo, mas que ao mesmo tempo é lugar de prazer e gozo: tem-se o fetiche do pão e do vinho. É uma ferramenta discursiva que rejeita a sacralidade hipócrita da religião hegemônica que nega o que há de mais comum em quaisquer corpos: o cu. Segundo Ana Ester Pádua, “pensar em um Jesus que se suja pode causar repulsa para alguns, mas libertação para outros’’ (FREIRE, A. E. P. 2021).
Tendo a ir ainda mais longe: se eucaristia é a lembrança da morte no ápice da vida, ela acontece ritualisticamente o tempo inteiro. Celebro a Santa Comunhão no bar, com Cristo, uma Skol Beats, e alguns petiscos. Celebro a Ceia na dor de se fazer uma tatuagem e na beleza de ver a arte no corpo. Vislumbro a (trans)ubstanciação quando vejo os corpos vivos das travestis, transubstanciados em si mesmos. O pão é comprado com o dinheiro de dar o cu. O vinho vem para fazer o corpo anestesiar e utopizar uma vida menos dolorida. Que a eucaristia seja rotina, como o cu, que até Deus quis ter um.
Nos orgasmos e nas petite mort, lembro que Cristo morreu para que eu pudesse ter vida. Para que a morte, quando acontecer, seja pequena. Que os corpos sejam penetrados e comidos, como o pão da Eucaristia (trans)ubstancialista, que o sangue seja fervido, que haja adrenalina, que haja calor, que haja gozo em abundância, que seja esse o cálice da nova e eterna aliança, que bebamos dele. Que a Santa Comunhão dos corpos seja rotina, que aconteça. Que morramos de não morrer. E sempre que fizermos isso, estaremos anunciando sua morte até que um dia ele volte.
NOTAS
- POR QUE O PAÍS QUE MAIS CONSOME PORNOGRAFIA TRANS É TAMBÉM O QUE MAIS MATA TRAVESTIS? https://aratuon.com.br/noticia/geral/por-que-o-pais-que-mais-consome-pornografia-trans-e-tambem-o-que-mais-mata-travestis
REFERÊNCIAS
- Louisy, de Limas (2014). La petit mort: transgressão e gozo erótico (Dissertação de Mestrado). Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). 123 páginas
- ARCO+LAB: Laboratório Arco-íris de Teologias. Teologia Queertemática — Escândalo e Blasfêmia. Disponível em <https://medium.com/@arcolab/teologia-queertem%C3%A1tica-esc%C3%A2ndalo-e-blasf%C3%AAmia-2279b8c96920>. 2022.
- FREIRE, A. E. P. (2021). Perversão teológica: notas sobre a Teologia Indecente de Marcella Althaus-Reid. Periódicos, ISSN: 2358–0844 n. 14, v. 1 nov.2020-abr.2021 p. 91–104.
- BUTLER, J. Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.
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