O cheiro do Brasil
e o gosto da comida que não muda.
O cheiro do Brasil
e o gosto da comida que não muda.

Fazia três anos que eu não visitava meu Brasil e em alguns meses completa uma década que o deixei para me aventurar em outro pais, em outra cultura e em outra língua.
Minha chegada foi ao entardecer, com um por-do-sol em Curitiba, no qual eu conseguia ver a olho nú os raios solares em diferentes cores. Eu não tirei foto, eu nem ao menos comentei, eu so senti as lágrimas no rosto escorrendo, como quem sente a saudade, como quem recebe um abraço imaginário. Eu apreciava a paisagem como quem esqueceu como as coisas eram. Durante o trajeto eu ia lendo o nome dos comércios, das lojas, dos supermercados, dos postos de gasolinas e puxando na memória como tudo era quando eu ainda estava aqui.
No dia seguinte enquanto viajo mais alguns quilômetros ate a casa da minha mãe eu vou observando o nosso verde. O verde mais lindo que eu conheço, continuo a prestar atenção nos buracos da estrada, na quantidade de caminhões, nas ultrapassagens perigosas e nas paradas obrigatórias, para fazer xixi, almoçar e tomar um café.
Já na casa da Mae é no banheiro que preciso me policiar, afinal aqui o papel higiénico vai para o lixo e não na privada. Confesso que nas primeiras vezes ele foi cano abaixo, e o medo de entupir o vaso foi grande. Ta ai, uma das poucas coisas que não sinto falta.
Mas tirando isso o cheiro da casa da mãe continua igual, as panelas e pratos não mudaram, uma coisa ou outra que foram acrescentados. O meu quarto, que hoje pertence a minha irmã ainda tem o mesmo formato, agora preenche um espaço com o berço que a mãe comprou para Penny e carrega no ar o perfume doce da minha irmã.
Mas o resto, o resto parece que congelou no tempo. Que mudou, mas não mudou e que tudo continua exatamente como eu deixei.
Noite passada puxamos os álbuns de photos. Como diz minha irmã, so fazemos isso quando eu venho para cá. A gente ri demais, a gente sente saudade, a gente reconta histórias. Tão bom vivenciar como tudo foi, como cresci, como as cosias mudaram ou como outras não mudaram.
Pela manhã a gente toma café juntos, algo que no passado não acontecia, mas que bom que isso mudou, que bom que agora eles fazem isso comigo, se não presencial por uma vídeo chamada. Todos continuam com sua vida, minha visita não pode parar a cidade e nem a vida deles, então eu fico em casa, com minhas filhas, as vezes me perguntando se estou sonhando, ou se é verdade que estou aqui novamente.
E são nas conversas com os amigos e com a familia em que nos questionamos o porque estou tão longe e juntos bem rápido encontramos respostas do porque eu não preciso voltar, mas de como seria bom se acontecesse.
Como sempre, tem muitos motivos bons para estar e vir aqui, minha familia, meus amigos, esse cheiro do Brasil, mas há uma década minha percepção de casa mudou, minha família cresceu, minhas prioridade criaram nome, meu mundo mudou, mas apesar de tudo meu coração sempre vai estar um pouco aqui, no Brasil, porque foi aqui que eu me nasci, cresci e vivi uma boa parte da minha vida.
Foram assim durante as minhas cinco semanas no Brasil. Foram dias cheios de amor, de conversas de comidas gotosas, de chimarrão, de sagu e de muito feijão e arroz.
A despedida, como sempre, não foi fácil. Teve nó na garganta, choro, palavras de amor, abraços apertados e muitos beijos. Dessa vez teve o choro da Louise. Pela primeira vez ela sentiu o significado de saudade. Entrou no avião chorando, pediu para ficar no Brasil, queria a vovó. Olhei nos olhos dela e expliquei que tínhamos que voltar para casa, para a escola, para o papai. Foi ai, que vi sua cabecinha confusa, sem entender o porquê temos que estar tão longe de quem mais amamos. Ela continuo chorando, mas esqueceu quando lembrou que iria assistir Ipad no avião.
Eu atravessei o mundo para matar essa saudade. Recarregar minhas baterias de amor. Senti o cheiro da minha antiga casa, o abraço da minha mãe, e proporcionar memórias para minha filhas.
Hoje escrevo esse texto já com saudades. Lembrando que meu chimarrão nunca vai ser igual o da minha irmã. Que nossas conversas agora serão por video e que eu já conto os dias para abraça-los todos novamente. Mas enquanto isso eu me mantenho firme, sabendo que todos estão bem e que a distância nunca vai diminuir o amor que eu sinto pelo meu Brasil.
메타데이터
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- 2026-06-09 15:37:30